Veículos entram em operação até dezembro e serão apoiados por um corredor logístico verde que conecta o interior paulista ao Porto de Santos
A TransJordano iniciou a incorporação de 100 caminhões Scania G 460 6×4 movidos a biometano em um projeto que combina renovação de frota, expansão operacional e implantação de infraestrutura própria de abastecimento. Os primeiros veículos já foram entregues e a previsão é de que os 100 caminhões estejam operando até o final de dezembro. O projeto inclui ainda três pontos de abastecimento administrados pela GarageLog, nas cidades de Sumaré, Ribeirão Preto e Cubatão, que passarão a atender também outras transportadoras que estejam também realizando a transição energética para frota sustentável.
Especializada no transporte de combustíveis e cargas líquidas, a TransJordano elevará sua frota de 600 para 700 caminhões com a chegada das novas unidades. Os veículos serão destinados inicialmente às operações já existentes da empresa e à renovação da frota, mas também poderão atender novos contratos em segmentos fora do mercado tradicional de combustíveis.
Segundo Jordano Bessa, diretor Comercial da TransJordano, a estratégia foi estruturada para ampliar a capacidade da empresa sem limitar a utilização dos veículos a um único setor.
“No começo, como somos uma empresa muito focada em combustíveis, eles entram em operações já existentes e na renovação da frota. Mas esses caminhões também podem ser destinados a novos negócios. Estamos conversando com empresas dos segmentos de cosméticos e e-commerce. Dependendo dos contratos, podemos utilizar implementos baú ou sider nessas operações”, afirmou.
Escolha pelo 6×4 definiu a negociação

A aquisição dos caminhões ocorreu após avaliações técnicas realizadas pela transportadora. Segundo Bessa, a exigência de tração 6×4 foi decisiva para a escolha da Scania.
“Chegamos a testar o veículo da Iveco, mas eles só dispunham da configuração 6×2. Como 100% das nossas operações exigem tração 6×4, fechamos a compra de todos os 100 caminhões com a Scania.”
A configuração atende principalmente operações de transporte de combustíveis e produtos líquidos em composições de grande capacidade.
De acordo com André Gentil, gerente de Vendas de Soluções a Frotistas da Scania Operações Comerciais Brasil, o segmento de caminhões pesados 6×4 movidos a gás vem ganhando relevância no mercado brasileiro.
“O 6×2 continua sendo o carro-chefe, mas o 6×4 cresceu muito. Neste ano ele já representa mais de 30% das vendas dos caminhões a gás da Scania”, afirmou.
Segundo o executivo, o crescimento está diretamente relacionado ao avanço da produção nacional de biometano, especialmente em regiões ligadas ao setor sucroenergético.
Autonomia ampliada para até 700 quilômetros
Um dos principais diferenciais do projeto da TransJordano é a autonomia dos veículos. Os caminhões Scania 460 6×4 possuem autonomia de aproximadamente 400 quilômetros na configuração original de fábrica. Para atender rotas de longa distância, a transportadora desenvolveu uma solução própria para ampliação da capacidade de armazenamento de gás.
A adaptação foi realizada em parceria com a empresa MAT, responsável pelo fornecimento dos cilindros adicionais. Segundo Jordano Bessa, os veículos poderão alcançar até 700 quilômetros de autonomia.
“Hoje esses caminhões têm até 700 quilômetros de autonomia, considerando percurso carregado e vazio.”
A ampliação da autonomia também exigiu adequações relacionadas à legislação de distribuição de peso por eixo. Segundo o executivo, mesmo com os cilindros adicionais, os conjuntos continuarão enquadrados nos limites legais de circulação.
“Conseguimos ganhar uma tonelada no PBTC. Vamos sair de 74 para 75 toneladas. Isso praticamente compensa o peso adicional dos equipamentos.”
A autonomia foi um dos fatores que definiram o posicionamento dos pontos de abastecimento do corredor logístico. Atualmente, os trajetos planejados permitem a ligação entre Ribeirão Preto, Sumaré e Cubatão sem necessidade de abastecimentos intermediários.
Operação começa em corredor da Ipiranga
Parte da nova frota será destinada inicialmente às operações da Ipiranga Transportes. Segundo Bessa, os caminhões começarão a operar na ligação entre Santos e Uberlândia, atuando no transporte relacionado à movimentação de combustíveis.
O projeto envolve uma parceria formada dentro do Grupo Ultra, com fornecimento de biometano pela Ultragaz e atuação logística da TransJordano para a Ipiranga. Além da Ipiranga, a empresa já atende clientes como Raízen e Suzano.
“A partir dessa operação inicial, os caminhões também ficarão disponíveis para novos contratos.”
GarageLog abre abastecimento para outras transportadoras
Além da renovação da frota, a TransJordano pretende transformar a infraestrutura construída para consumo próprio em uma plataforma compartilhada para o mercado. A operação será conduzida pela GarageLog, empresa de logística do grupo.
A primeira unidade aberta a terceiros será a de Sumaré, prevista para setembro. Em seguida serão disponibilizadas as estruturas de Ribeirão Preto e Cubatão. Segundo Jordano Bessa, a GarageLog não atuará como distribuidora de combustível. O modelo adotado prevê que o transportador adquira o biometano diretamente da Ultragaz e utilize a infraestrutura compartilhada de armazenamento e abastecimento.
“Nós não vendemos biometano. O transportador compra diretamente da Ultragaz. Nós armazenamos, fazemos o abastecimento e recebemos uma taxa pelo serviço.”
O executivo compara o modelo a um consórcio operacional, em que diversos transportadores utilizam uma mesma estrutura física.
Mais que abastecimento
O conceito da GarageLog envolve a criação de uma rede de apoio operacional para transportadoras. Além dos pontos de abastecimento, as unidades oferecerão pátios de estacionamento, áreas de triagem e serviços de suporte operacional. Segundo Bessa, os transportadores poderão contratar vagas por hora ou por períodos mensais. A unidade de Cubatão já desempenha papel relevante na movimentação logística vinculada ao Porto de Santos.
“Toda a operação da Raízen ligada à exportação e importação de combustíveis passa por lá.”
O complexo também contará com serviços auxiliares, como borracharia e programas de manutenção operados por parceiros. Apesar da infraestrutura logística, Bessa afirma que o principal objetivo é criar uma estrutura voltada aos motoristas.
“O foco da GarageLog é o bem-estar do motorista. O conceito é ser a casa dele longe de casa.”
A implantação do Corredor Verde coincide com a transferência da sede da TransJordano para uma nova área em Sumaré. O complexo ocupará 65 mil metros quadrados às margens da Rodovia Anhanguera. O local concentrará a administração da transportadora, o principal pátio operacional da GarageLog e um Centro de Serviços Dedicados Scania (CWS), operado pela concessionária WLM Quinta Roda. A estrutura foi projetada para atender a demanda de manutenção da frota em expansão.
Desafio econômico ainda limita expansão
Embora o biometano apresente vantagens ambientais, a equação financeira ainda é um desafio para parte dos embarcadores. Segundo Jordano Bessa, o custo operacional total dos caminhões ainda dificulta a precificação do frete.
“O biometano isoladamente apresenta vantagens. Mas quando você soma aquisição do veículo, manutenção e custos fixos, a conta ainda fica apertada.”
De acordo com o executivo, a TransJordano vem absorvendo parte desse impacto e busca convencer clientes a compartilharem parte do investimento necessário para reduzir emissões.
“Estamos tentando mostrar os benefícios ambientais, mas ainda existe resistência para pagar mais por isso.”
André Gentil confirma que o investimento inicial continua superior ao de um caminhão diesel equivalente. Hoje, segundo ele, um caminhão a gás custa aproximadamente 25% mais que um modelo diesel da mesma faixa de potência. Nos primeiros anos da tecnologia no Brasil, essa diferença chegou a variar entre 35% e 40%.
Oferta de biometano cresce, mas mercado busca equilíbrio
O abastecimento do corredor será realizado com biometano fornecido pela Ultragaz. Segundo Erik Trencht, diretor de Gases Renováveis da empresa, cerca de 80% do biometano comercializado pela companhia atualmente tem origem em aterros sanitários, enquanto 20% provém do setor sucroenergético.
O principal fornecedor é o aterro de Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo. Trencht afirma que o mercado brasileiro vive um momento de ajuste entre expansão de oferta e crescimento da demanda.
“O número de caminhões chegando ao mercado está aumentando rapidamente. Hoje a gente entende que oferta e demanda estão relativamente equilibradas.”
Segundo o executivo, entre 25% e 30% do volume de biometano fornecido pela companhia já é destinado ao transporte rodoviário, participação que cresceu rapidamente nos últimos anos. A Ultragaz possui aproximadamente 50 clientes contratados para fornecimento de biometano em diferentes segmentos econômicos.
Próximos passos
A TransJordano já estuda a ampliação do corredor para novas regiões. Segundo Jordano Bessa, existe um quarto ponto em avaliação, mas a localização ainda não foi definida. O critério principal será a autonomia dos caminhões.
“Hoje conseguimos operar cerca de 300 quilômetros para cada lado a partir dos pontos existentes. Para avançar além desse raio, precisamos criar uma nova base de abastecimento.”
Com a entrada gradual dos veículos e a abertura da infraestrutura para terceiros, a empresa pretende consolidar um corredor logístico abastecido por biometano entre o interior paulista, a Região Metropolitana de Campinas e o Porto de Santos, ao mesmo tempo em que busca expandir a utilização da nova frota em mercados além do transporte de combustíveis.
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