quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Custos logísticos consomem 15,5% do PIB e colocam Brasil mais caro do que a média das grandes economias

Os custos logísticos no Brasil alcançaram 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, segundo o estudo anual “Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras”, elaborado há mais de duas décadas pelo Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS). Em 2014, essa participação era de 10,4%. A escalada coloca o País em um patamar elevado quando comparado às principais economias globais.

A Frota News também pesquisou levantamentos internacionais consolidados por instituições como a Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE) e análises acadêmicas sobre logística e desenvolvimento econômico, o custo logístico nas economias avançadas costuma variar entre 8% e 10% do PIB. Já nos grandes emergentes, a faixa típica situa-se entre 12% e 15%. Ou seja, o índice brasileiro de 15,5% posiciona o País acima da média dos desenvolvidos e ligeiramente acima de muitos emergentes de grande porte, aproximando-se do limite superior observado internacionalmente — e raramente ultrapassado de forma consistente.

Segundo o sócio-diretor do ILOS e responsável pelo estudo, Maurício Lima, nos últimos dez anos o Brasil transportou cerca de 25% a mais em volume de carga utilizando praticamente a mesma infraestrutura logística.

Os investimentos não acompanharam o desempenho do setor. Esse descompasso pressiona os custos e faz com que os gastos aumentem gradativamente. O País não tem como crescer a taxas elevadas quando o custo logístico sobe dessa forma”, afirma.

logísticos
Fonte: ILOS

O transporte — principal componente da conta logística nacional — continua fortemente concentrado no modal rodoviário, enquanto os modais ferroviário, aquaviário, dutoviário e aéreo avançam em ritmo inferior ao necessário para equilibrar a matriz.

Estoques mais caros e juros elevados

O estudo do ILOS aponta ainda que as despesas com estoque passaram de 3% para 5% do PIB desde 2014. A elevação da taxa básica de juros nos últimos anos intensificou o custo do capital imobilizado, tornando mais onerosa a manutenção de inventários.

De acordo com Lima, os quatro anos em que a relação entre Selic e estoque foi mais pesada sobre o PIB concentram-se entre 2022 e 2025 — período marcado por crédito mais caro e maior pressão financeira sobre empresas industriais, comerciais e de distribuição.

Esse efeito financeiro amplia o peso estrutural da logística na economia brasileira, impactando margens e competitividade.

Comparação internacional: onde o Brasil se posiciona

A diferença brasileira torna-se mais evidente quando observada à luz de grandes economias individuais:

  • Estados Unidos: cerca de 8,8% do PIB (2024), alinhado ao padrão de economias avançadas eficientes.
  • Alemanha: aproximadamente 8,7% do PIB, em linha com o perfil industrial avançado europeu.
  • Japão: cerca de 3,8% do PIB, um dos sistemas logísticos mais eficientes do mundo.
  • China: em torno de 14,4% do PIB, patamar elevado, mas ainda ligeiramente abaixo do índice brasileiro.
  • Índia: aproximadamente 13% do PIB, com meta oficial de redução para 8–9% nos próximos anos.

Os países do G7 operam, de modo geral, com custos logísticos relativos significativamente menores que os do Brasil. Mesmo grandes emergentes, como China e Índia, situam-se em uma faixa entre 13% e 14%, o que reforça a percepção de que 15,5% representa um patamar elevado para uma das maiores economias do mundo.

Margem comprimida e risco de desequilíbrio

O estudo também revela uma contradição preocupante. Para embarcadores, o transporte é visto como caro. Para transportadoras, no entanto, os valores praticados não têm sido suficientes para recompor o aumento dos custos operacionais.

Entre 2023 e 2024, as despesas das empresas de transporte cresceram sem repasse proporcional ao frete. Em 2025, os preços permaneceram praticamente estáveis em relação ao ano anterior.

À primeira vista, isso pode parecer positivo para contratantes. No entanto, segundo Maurício Lima, há um risco latente. “Muitos operadores logísticos estão deixando de atuar em determinados setores porque a margem não compensa. Isso ocorre inclusive no segmento de granéis agrícolas, que cresceu cerca de 17% em produção em 2025.”

A saída de operadores de nichos estratégicos pode gerar desequilíbrio de oferta no médio prazo, pressionando preços e comprometendo a regularidade das operações. A FedEx é uma das empresas que deixou de atuar na logística interna no Brasil.

Um gargalo ao crescimento

Realizada desde 2004 — inicialmente de forma bienal e, a partir de 2014, anualmente — a pesquisa do ILOS analisa transporte, estoques, armazenagem e despesas administrativas sob a ótica macroeconômica.

Com mais de 30 anos de experiência e mais de 400 projetos desenvolvidos, o Instituto consolidou-se como referência nacional em planejamento e implementação de projetos de Logística e Supply Chain.

Os números de 2025 deixam um recado claro: com custo logístico equivalente a 15,5% do PIB, o Brasil opera acima da média das economias avançadas e no limite superior dos grandes emergentes. Sem investimentos estruturantes, ambiente macroeconômico mais estável e maior eficiência sistêmica, a logística continuará sendo um dos principais freios à competitividade e ao crescimento sustentável do País.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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