O diesel verde HVO (Hydrotreated Vegetable Oil) já é uma realidade no Brasil, mas ainda longe de representar uma substituição ampla e massiva ao diesel fóssil. O cenário atual é marcado por projetos-piloto, misturas com diesel mineral e aplicações específicas em frotas limitadas — enquanto a produção nacional em escala comercial ainda está em fase de estruturação.
Dentro desse contexto, a Cummins acrescenta que já utiliza o HVO em um data center hyperscale no País, ampliando o uso do combustível renovável na geração de energia crítica.
-
Leia também:
- Ranking 2025: os 45 caminhões mais vendidos e o que eles revelam sobre as decisões das frotas
- Frota News amplia alcance global ao firmar parceria com a Newstex
Produção nacional ainda em construção
Embora o HVO seja apontado como um biocombustível capaz de substituir integralmente o diesel fóssil — com desempenho equivalente e menor intensidade de carbono — o Brasil ainda não conta com produção consolidada em larga escala.
Há projetos de biorrefinarias com início de operação, como a planta anunciada por Brasil BioFuels (BBF) em parceria com a Vibra Energia na região Norte. Até que essas iniciativas entrem plenamente em operação, parte do HVO utilizado no País depende de importação, o que impacta diretamente o custo.
Hoje, o preço superior ao do diesel convencional, a oferta limitada de insumos renováveis e o ambiente regulatório ainda em consolidação são os principais entraves à expansão comercial do combustível.
Transporte rodoviário: blends ganham espaço
Na prática, o HVO já está presente no mercado brasileiro, principalmente em misturas com diesel fóssil.
A Petrobras comercializa o Diesel R, produto mineral com cerca de 5% de conteúdo renovável produzido via rota HVO, utilizado, por exemplo, em operações da Vale e da Volvo do Brasil. A Ipiranga também já distribui o Diesel R para algumas frotas cativas.
Em aeroportos, caminhões da BR Aviation que operam no Aeroporto Internacional de Guarulhos passaram a utilizar mistura com 10% de HVO, além do teor obrigatório de biodiesel e do diesel fóssil. A estratégia é ampliar gradualmente a participação do combustível renovável.
Testes no transporte marítimo
O uso do HVO também já chegou ao setor marítimo. No Porto do Açu, empresas como Wilson Sons, Vast Infraestrutura e Efen realizaram abastecimento experimental com HVO importado em rebocadores.
O teste, conduzido com anuência da ANP, avaliou desempenho e viabilidade técnica da substituição do diesel marítimo convencional, dentro de um projeto-piloto voltado a embarcações de apoio offshore.
Montadoras e frotas em fase experimental
No setor automotivo, a Stellantis iniciou o programa HVO Aurora, com foco em monitorar e certificar o uso do combustível em veículos comerciais. A proposta é comprovar que o HVO pode ser utilizado em frotas existentes sem necessidade de modificações técnicas, registrando dados de consumo e redução de CO₂.
A Volkswagen Caminhões também já conta o VW Meteor Optmus homologado para uso de HVO, apresentado na Fenatran de 2022, e depois o Meteor Hybrid, na Fenatran de 2024. Saiba mais:
VW Meteor Hybrid e outras soluções para redução das emissões de poluentes
Cummins aplica HVO em data center de 60 MW
É nesse ambiente de transição que a Cummins avança na agenda de descarbonização ao apoiar a adoção do HVO em um data center hyperscale de 60 megawatts no Brasil.
O projeto, conduzido pela Distribuidora Cummins Brasil (DCB), envolve um site equipado com 20 grupos geradores modelo C3000D6E, de 3 MW cada, que passarão a operar com HVO ainda neste primeiro trimestre, substituindo o diesel convencional em regime standby.
A aplicação é típica de data centers: os geradores entram em operação apenas em situações de contingência da rede elétrica, garantindo fornecimento seguro de energia para serviços digitais críticos.
Realidade tecnológica
Além desse primeiro site, o cliente já prevê a adoção gradual do HVO em duas plantas adicionais, ampliando progressivamente o uso do combustível conforme a consolidação logística e operacional.
Segundo Raphael Cunha Santos, supervisor de engenharia de projetos da DCB, o HVO já é uma realidade tecnológica para a companhia.
“Para a Cummins, o HVO já é uma realidade do ponto de vista tecnológico. Este projeto é o testemunho mais legítimo de que estamos prontos para viabilizar sua adoção no País, com equipamentos e suporte técnico preparados para atender aos clientes que desejam avançar na descarbonização de suas operações.”
Globalmente, os motores e grupos geradores da marca já são homologados para operar com HVO sem necessidade de modificações, recalibrações ou alterações nos planos de manutenção.
Para Thiago Martinelli, gerente de Power Systems da DCB, a iniciativa ocorre em um momento estratégico:
“A adoção do HVO acontece em um cenário de expansão acelerada do mercado brasileiro de data centers, impulsionado pela inteligência artificial e serviços digitais críticos. O uso do HVO nos grupos geradores não altera as rotinas de operação e manutenção. Acompanharemos o projeto por meio de nossa estrutura padrão 24/7, assegurando a estabilidade da operação.”
Para o transporte e para a geração de energia crítica, o HVO já saiu do campo teórico — mas ainda percorre os primeiros quilômetros rumo à consolidação no mercado brasileiro.



