Baú com material reciclado faz caminhão pesar 3.250 kg com sobra para 250 kg de carga útil

Veículo urbano exibe carroceria feita de embalagens reutilizadas, mas peso elevado reduz capacidade de carga, aumenta consumo de diesel com peso da tara e capacidade de carga útil de apenas 250 kg

Utilitário com logo Elma Chips circulando em área urbana chamou atenção por trazer, estampado na lateral, a informação de que seu baú foi produzido com materiais reciclados provenientes de embalagens. A iniciativa, apresentada pela empresa como parte de um esforço de sustentabilidade ambiental e economia circular, utiliza a própria frota como meio de comunicação visual para reforçar compromissos ligados à redução de resíduos plásticos. A carroceria também exibe logotipos corporativos.

Os dados operacionais do veículo, impressos na lataria, confirmam uma tara de 3.250 kg, carga útil de 250 kg e PBT de 3.500 kg. Isso significa que o utilitário só pode transportar 250 kg de mercadorias. O modelo utilizado, um Iveco Daily 35-160, possui peso em ordem de marcha de 2.050 kg. Assim, o baú reciclado instalado pela empresa pesa 1.350 kg — valor mais do dobro ao de um baú de alumínio padrão. A diferença absoluta é de quase uma tonelada a mais em peso morto.

A operação da Elma Chips, porém, trabalha com cargas de baixíssima densidade, como salgadinhos e aperitivos, que ocupam volume antes de atingir limites de peso. Por esse motivo, a capacidade de 250 kg costuma ser suficiente para rotas urbanas fracionadas, nas quais a cubagem é o fator determinante.

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Apesar disso, duas questões permanecem sem resposta objetiva: a viabilidade econômica e o equilíbrio ambiental do projeto. Não há dados disponíveis sobre custos de produção da carroceria reciclada, manutenção, desgaste de componentes ou impacto no consumo de combustível decorrente do peso adicional. Também não há estudo de Análise de Ciclo de Vida que permita comparar a redução de resíduos plásticos com o aumento potencial de emissões de CO₂ gerado pelo maior esforço energético do veículo.

Informações complementares indicam que o baú foi desenvolvido pela PepsiCo em parceria com a encarroçadora Facchini, utilizando resina misturada com embalagens BOPP e garrafas PET. A produção da matéria-prima reciclada consome até 99% menos energia em comparação ao alumínio primário, e o projeto oferece destino útil ao BOPP, material de difícil reciclagem. Para compensar o consumo extra de combustível, a empresa instalou filmes fotovoltaicos orgânicos (OPV) no teto dos veículos, fornecendo energia limpa aos sistemas elétricos.

Sem dados financeiros e ambientais completos, o modelo ainda suscita dúvidas sobre sua real eficiência. A iniciativa evidencia um avanço na busca por soluções sustentáveis, mas também abre espaço para discussões técnicas sobre o impacto do peso adicional na operação e na pegada de carbono da frota.

Diante dos dados disponíveis, o projeto ainda apresenta pontos em aberto. No cenário menos favorável, o peso excessivo da carroceria pode comprometer a eficiência operacional, levantando a possibilidade de que a iniciativa funcione mais como comunicação ambiental do que como solução logística plenamente sustentável.

No cenário mais favorável, o modelo mostra aderência apenas a operações específicas, como o transporte de produtos ultraleves e volumosos — caso dos salgadinhos da Elma Chips — sem perspectiva de aplicação ampla em outros segmentos de carga. Resta à PepsiCo esclarecer os critérios técnicos, econômicos e ambientais que sustentam a adoção do baú reciclado em sua frota.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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