Em meio a uma agenda histórica para a mobilidade sustentável — marcada pela apresentação da primeira operação regular do País com ônibus articulados movidos a biometano — uma declaração feita no encerramento da coletiva de imprensa roubou a cena. Pelo menos, para este jornalista.
Acostumado a acompanhar, há anos, fóruns, seminários e projetos sobre a inclusão feminina no setor, este repórter já testemunhou inúmeras promessas, campanhas institucionais e discursos de incentivo à presença de mulheres no volante do caminhão, do ônibus e… da empresa.
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Mas, desta vez, o que se ouviu foi algo diferente: uma mensagem direta, objetiva e com potencial de impacto real sobre a cadeia de fornecedores.

Durante o evento realizado em Goiás, que reuniu representantes da Scania, Marcopolo, Governo de Goiás e do Grupo HP, a diretora executiva da empresa, Indiara Ferreira, fez uma intervenção que me surpreendeu ao final da coletiva e não pude ignorar:
“Uma mensagem para os nossos fornecedores: só vamos comprar de fornecedores que incluírem mulheres na direção, pois este setor é muito machista.”
A fala, curta e contundente, extrapolou o contexto da apresentação técnica da nova frota e colocou no centro da discussão um tema que, apesar de recorrente, ainda avança lentamente no transporte de passageiros e de cargas: a presença efetiva das mulheres em funções operacionais, especialmente na condução de veículos pesados.
Um recado que vai além do discurso
A declaração de Indiara Ferreira não foi apenas simbólica. Em um setor historicamente marcado por ações pontuais de diversidade, a executiva trouxe um elemento raro: o uso do poder de compra como ferramenta de transformação.
O peso da frase também está no contexto em que foi dita. Não se tratava de um seminário sobre ESG, nem de um painel dedicado à diversidade. A coletiva havia sido convocada para apresentar uma inovação operacional e ambiental: a entrada em operação da primeira frota de ônibus articulados a biometano em operação regular no Brasil, uma iniciativa que já representa, por si só, um marco na descarbonização do transporte coletivo.
O óbvio estava diante de todos os jornalistas: todos os executivos envolvidos eram homens, de todas as empresas participantes. Não se tratava de uma disputa entre homens e mulheres, mas de um padrão que merece ser questionado. Entre as lideranças, apenas Indiara Ferreira era mulher. Por quê?
As respostas talvez não apareçam hoje, mas a pergunta precisa ser feita. Homens e mulheres podem — e devem — ser bem-vindos tanto na cozinha quanto na oficina. Ninguém deveria exercer uma função por obrigação ou estereótipo, e sim por vontade e oportunidade. E essas oportunidades precisam existir para todos, independentemente do gênero. É claro que diferenças biológicas existem, e devem ser respeitadas — sempre com respeito e bom senso.
Sobre este tema, já publicamos reportagens e outro artigo no LinkedIn para os meus seguidores:
Foi justamente nesse ambiente, dominado por pautas de tecnologia, energia limpa, eficiência operacional e política pública, que surgiu a cobrança por inclusão feminina.
Ao inserir a exigência em um evento de mobilidade pesada, diante de montadoras, encarroçadora, governo e imprensa especializada, Indiara sinalizou que a discussão sobre mulheres ao volante precisa deixar de ser periférica e passar a ocupar o centro da estratégia empresarial.
Um setor que ainda avança devagar
O diagnóstico da executiva foi direto: “este setor é muito machista”. É uma constatação realista, mas difícil de contestar para quem acompanha de perto o dia a dia do transporte. Apesar dos avanços recentes, a participação feminina na condução de caminhões, ônibus e veículos pesados ainda é muito inferior ao potencial do mercado.
Nos últimos anos, programas de formação específicos, como os desenvolvidos pela Fabet, vêm mostrando que há demanda, vocação e capacidade técnica para ampliar essa presença. A escola tornou-se referência nacional ao promover cursos pioneiros para a capacitação de mulheres como motoristas profissionais, ajudando a derrubar barreiras históricas de acesso.
O problema, no entanto, raramente está apenas na formação.
Muitas mulheres conseguem a habilitação adequada, passam por treinamento, demonstram desempenho e preparo, mas ainda enfrentam obstáculos na contratação, resistência cultural nas empresas, falta de estrutura adequada em garagens e pátios, além de preconceitos velados — e, por vezes, explícitos.
Por isso, a fala de Indiara toca num ponto crucial: não basta treinar mulheres para o setor se o setor não estiver disposto a contratá-las.
A Frota News foi a primeira mídia a criar e a ainda a única a ter a seção “Frota Delas” para poder explicar o óbvio: os benefícios da presença das mulheres no nosso setor.

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