sábado, março 28, 2026

Menos ocorrências, mais inteligência criminosa: roubo de cargas muda de perfil e impõe nova agenda ao TRC

A redução de 16,7% nos registros de roubo de cargas no Brasil em 2025, para 8.570 ocorrências, sinaliza avanço nas ações de repressão e integração institucional. Mas, para o transporte rodoviário de cargas, o recuo estatístico não significa alívio definitivo: o crime está se tornando mais seletivo, mais urbano e mais sofisticado, pressionando transportadoras, embarcadores e seguradoras a redesenhar protocolos, investir em tecnologia e rever estratégias operacionais para os próximos anos.

A queda no número de roubos de cargas em 2025 pode parecer, à primeira vista, um sinal de melhora consistente para o transporte rodoviário de cargas (TRC). O levantamento anual da NTC&Logística aponta 8.570 ocorrências no ano passado, resultado 16,7% inferior ao de 2024. Ainda assim, o setor segue diante de um problema estrutural: o prejuízo direto permanece em cerca de R$ 900 milhões e pode ultrapassar R$ 1 bilhão quando entram na conta os custos indiretos, como seguros, gerenciamento de risco, reprogramação operacional e repasse ao preço final dos produtos.

Veja como é nos Estados Unidos:

A leitura do dado, portanto, exige cautela. Em 2024, o país havia registrado 10.478 ocorrências, com perdas estimadas em R$ 1,2 bilhão, segundo números já divulgados pela própria NTC e repercutidos no setor. A comparação reforça uma tendência importante: o volume caiu, mas o impacto econômico continua elevado, indicando que as quadrilhas estão menos focadas em quantidade e mais orientadas por inteligência, oportunidade e liquidez da carga.

Na prática, isso significa que o roubo de cargas entra em uma nova fase. O alvo prioritário deixa de ser apenas o caminhão em trânsito em longos trechos rodoviários e passa a incluir, cada vez mais, operações de distribuição urbana, janelas de entrega, áreas metropolitanas e corredores logísticos próximos a centros de consumo. A concentração de 86,8% das ocorrências no Sudeste — especialmente em Rio de Janeiro e São Paulo — confirma essa dinâmica e reforça que o risco está fortemente associado à densidade econômica, à capilaridade da distribuição e à facilidade de escoamento da mercadoria roubada.

A NTC&Logística chama atenção para esse novo perfil criminoso. Segundo a entidade, as quadrilhas têm priorizado cargas de alta liquidez, como alimentos, combustíveis, medicamentos e eletrônicos, e adotado táticas mais sofisticadas, incluindo interceptações em movimento, abordagens durante entregas e atuação em áreas urbanas. Em outras palavras, o roubo de cargas se aproxima cada vez mais de uma lógica de “crime logístico”, com escolha cirúrgica de mercadoria, rota, janela operacional e vulnerabilidade do embarque.

Parceria iniciativa privada e poder público

Para o presidente da NTC&Logística, Eduardo Rebuzzi, a redução recente comprova que a cooperação entre iniciativa privada e poder público vem produzindo resultados, mas o setor ainda está longe de uma solução definitiva. Na avaliação dele, o combate à receptação segue sendo um dos pontos centrais, porque é essa engrenagem que sustenta economicamente o roubo de cargas. A entidade também destaca como avanço recente a sanção do novo marco legal de combate ao crime organizado, vista como instrumento para ampliar a capacidade de investigação, punição e enfrentamento das estruturas criminosas. O novo marco foi aprovado no Congresso em 2025 e sancionado nesta semana pelo governo federal, com vetos pontuais, segundo registros legislativos e repercussão pública.

No curto prazo, a expectativa é que a nova legislação ajude a aumentar a pressão sobre as redes de receptação, lavagem e redistribuição de mercadorias roubadas — um elo frequentemente mais estratégico do que a ação no asfalto em si. Se essa etapa avançar, o efeito pode ser mais profundo do que o simples reforço do policiamento ostensivo: reduzir a atratividade econômica do crime.

Mas a transformação mais importante para 2026 e 2027 tende a acontecer dentro das próprias operações. A agenda de segurança no TRC deve migrar de uma lógica reativa para um modelo mais preditivo e integrado. Isso inclui maior uso de rastreamento inteligente, telemetria, georreferenciamento de risco, monitoramento de desvios de padrão, torres de controle logístico, analytics de rotas e cruzamento de dados operacionais com bases de inteligência pública e privada. O foco deixa de ser apenas “onde está o caminhão” e passa a ser “qual é a probabilidade de incidente nesta rota, nesta faixa horária, com este tipo de carga e este perfil de entrega”.

Esse movimento deve ganhar força também por pressão do mercado segurador. Com o crime mais sofisticado e mais seletivo, a tendência é de maior rigor na subscrição de risco, exigências operacionais mais detalhadas, segmentação por tipo de carga e ampliação do uso de protocolos mandatórios — especialmente em operações urbanas, de last mile e em produtos de alta liquidez. Para muitas transportadoras, isso pode significar aumento de investimento em tecnologia e compliance, mesmo em um cenário de queda nas estatísticas.

O vice-presidente extraordinário de Segurança da NTC&Logística, Roberto Mira, resume bem esse ponto ao afirmar que o crime se tornou mais estruturado e exige resposta igualmente coordenada, com tecnologia, informação e cooperação contínua. Essa visão reforça que o roubo de cargas deixou de ser apenas um problema policial e se consolidou como um tema de governança logística e competitividade.

Para o setor, o desafio agora é evitar uma leitura complacente da queda de 2025. O número menor de ocorrências é positivo e precisa ser reconhecido. Mas o verdadeiro teste para os próximos anos será saber se o Brasil conseguirá reduzir também a sofisticação financeira e operacional das quadrilhas, desarticulando a receptação, integrando bases de dados e convertendo tecnologia em prevenção efetiva.

Se isso acontecer, o país poderá entrar em um novo ciclo de segurança logística, com reflexos diretos sobre o custo do frete, a previsibilidade das cadeias de abastecimento e a competitividade do TRC. Se não acontecer, o setor pode conviver com um cenário aparentemente melhor nas estatísticas, mas ainda caro, volátil e estruturalmente vulnerável — um retrato em que o roubo de cargas diminui em volume, mas continua pesando no bolso da transportadora, do embarcador e, no fim da cadeia, do consumidor.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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