segunda-feira, março 2, 2026

Chineses miram fábrica de carretas-cegonha em Pernambuco: Boom do transporte de veículos no Brasil 

Com mais montadoras produzindo no Brasil, a chegada de novas marcas – em especial as chinesas – está puxando para cima a demanda por transporte de veículos zero quilômetro e tudo indica que esse movimento vai se intensificar nos próximos anos. Ao mesmo tempo, a indústria nacional de carretas cegonhas segue concentrada em poucos fabricantes especializados, um cenário que começa a despertar o apetite de grupos chineses de implementos rodoviários interessados em disputar esse mercado. 

O Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) estima que a categoria transportou cerca de 2,8 milhões de veículos em 2024, com uma frota de 3,7 mil caminhões cegonha operados por aproximadamente 1,3 mil empresas associadas em todo o país. Segundo dados da entidade, o setor já chegou a movimentar 3,8 milhões de unidades por ano, o que revela capacidade ociosa, mas também a necessidade de frota moderna e renovação para atender ao novo mix de veículos, hoje dominado por SUVs e picapes maiores. 

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A concentração da base de cegonheiros no ABC paulista, berço histórico da indústria automotiva nacional, reforça o peso estratégico desse modal na cadeia de distribuição dos carros novos vendidos no país. Mesmo diante de alguma ociosidade pontual, a perspectiva de crescimento de produção local e de importados – com destaque para as montadoras chinesas em expansão no Brasil – tende a manter a pressão por equipamentos mais eficientes, leves e tecnológicos para o transporte. 

Mercado concentrado em poucos fabricantes 

Embora o Brasil tenha mais de 170 fabricantes associados à ANFIR na indústria de implementos rodoviários, apenas uma fatia relativamente pequena atua de forma direta e relevante no nicho de carretas cegonhas. Na prática, o transporte de veículos novos é sustentado por um grupo enxuto de fabricantes especializados e pelos grandes players gerais de semirreboques. 

Segundo à Anfir (Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários), que dispõe de dados apenas das empresas Dambroz e Três Eixos, que respondem juntas, por cerca de 80% do mercado. O desempenho de emplacamentos mostra um crescimento consistente ano a ano: foram 83 unidades em 2022; 171 em 2023; 229 em 2024 e 333 em 2025, indicando uma expansão acelerada da demanda por equipamentos voltados ao transporte de veículos.

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Na ponta de maior escala industrial, Randon Implementos e Librelato figuram entre as maiores fabricantes de implementos rodoviários em rankings internacionais, porém, não possuem o implemento cegonha no portfólio deles. Ao lado delas, poucos nomes atendem o segmento, como Dambroz, Três Eixos e CDL. 

Entre os nomes diretamente associados ao segmento, a gaúcha Dambroz é citada como pioneira na fabricação de carretas cegonhas no Brasil e mantém forte vínculo histórico com esse nicho. Em 2025, a empresa lançou a série comemorativa D80, um semirreboque cegonheiro capaz de transportar até 11 veículos ou vans, com crescimento de quase 70% nas vendas do modelo em 2024 em comparação ao ano anterior. 

O pacote técnico da D80 inclui estrutura galvanizada a fogo, sistemas de freio com recursos inteligentes, antitombamento e rastreamento 24 horas, evidenciando a aposta em durabilidade e segurança para o transporte de veículos de maior valor agregado. 

Já a Três Eixos, fundada no início dos anos 1990 com foco em semirreboques para transporte de veículos, é hoje um dos principais fornecedores de cegonhas para automóveis, caminhões e tratores, atendendo mercado nacional e Mercosul. Em parceria com a operadora logística Tegma, empresa que atua no transporte de veículos no Brasil, a Três Eixos desenvolveu duas novas carretas cegonheiras pensadas especificamente para SUVs e picapes – veículos mais altos e pesados que vêm ganhando participação nas vendas. Os conjuntos estão em testes operacionais e prometem maximizar capacidade de carga respeitando a legislação e os limites de altura, além de elevar padrões de segurança e eficiência. 

No flanco da eletrificação, a própria Tegma conduz um projeto‑piloto com um caminhão cegonha 100% elétrico, convertido a partir de um modelo convencional, com autonomia estimada entre 500 e 700 quilômetros por dia em operação de longa distância. Embora o foco seja o cavalo mecânico, esse tipo de iniciativa tende a influenciar as especificações dos implementos, que precisarão ser cada vez mais leves e aerodinâmicos para compensar o peso das baterias. 

A CDL, por fim, representa o grupo de fabricantes médios com especialização direta em equipamentos para transporte de veículos: atua há mais de 40 anos produzindo carretas cegonhas para 4 a 7 automóveis, plataformas de guincho e gaiolas, inclusive versões fechadas em ACM para proteção da carga. Com foco quase exclusivo nesse tipo de solução, atende tanto grandes transportadoras quanto empresas menores e locadoras, embora não divulgue participação de mercado em números absolutos. 

Gargalos e oportunidades no sistema 

Apesar da capacidade instalada e da modernização em curso, dirigentes do Sinaceg alertam para um quadro paradoxal: ao mesmo tempo em que há ociosidade em algumas rotas, faltam profissionais qualificados e há preocupação com a renovação e adequação da frota diante da complexidade dos novos veículos. O sindicato, que recentemente inaugurou uma nova sede em São Bernardo do Campo, planeja criar uma escola de formação de condutores de cegonhas para enfrentar a escassez de mão de obra especializada. 

A própria categoria vem assumindo funções que vão além do transporte, como o programa de poda de árvores em rodovias e áreas urbanas para evitar danos a veículos embarcados, reflexo direto da altura dos conjuntos cegonheiros, que podem chegar a quase 5 metros. Tudo isso reforça a ideia de que o transporte de veículos se tornou um elo sensível na cadeia automotiva, onde qualquer gargalo logístico impacta diretamente o fluxo de veículos das montadoras até a rede de concessionárias. 

Chineses de olho na Zona da Mata Sul 

É nesse contexto de demanda crescente e oferta concentrada que um grupo de empresários chineses da cidade de Liangshan, na província de Shandong – apontada como o maior hub da indústria rodoviária da China – passou a olhar com atenção para o Brasil. Reportagem do Diário de Pernambuco revelou que esses investidores estão estudando a implantação de uma fábrica de carretas cegonhas na Zona da Mata Sul de Pernambuco, região vista como estratégica pela proximidade com o Porto de Suape, com as principais rodovias e com o polo automotivo da Stellantis em Goiana. 

Segundo o grupo, o mercado brasileiro de automóveis zero quilômetro está em constante transformação e ainda sofre com a falta de opções de transporte, identificada como um gargalo logístico – diagnóstico que dialoga diretamente com a concentração da oferta de implementos e os desafios relatados pelos cegonheiros. A empresa chinesa, especializada em reboques e implementos, já realizou estudos sobre dimensões e capacidades exigidas pela regulamentação brasileira, e avalia também alternativas em Feira de Santana (BA) e Caaporã (PB), embora a Zona da Mata Sul siga como favorita pela combinação de fatores logísticos e industriais. 

Na avaliação dos empresários, uma nova planta poderia gerar empregos diretos e indiretos, fortalecer o desenvolvimento regional e funcionar como plataforma para difusão de tecnologias e processos logísticos inovadores no país. Na prática, seria também o movimento mais explícito de um grande grupo chinês tentando entrar num nicho hoje dominado por poucos fabricantes nacionais, conectando o know‑how de Liangshan, onde se concentra uma das maiores bases mundiais de produção de semirreboques, às necessidades de um mercado brasileiro em transição. 

Janela estratégica para o Brasil 

Se confirmada, a chegada de um novo player internacional ao segmento de carretas cegonhas tende a acirrar a concorrência e acelerar a difusão de tecnologias já usadas em outros mercados, como soluções de modularidade, sistemas avançados de amarração e plataformas adaptáveis a diferentes tipos de veículos.  

Entre o avanço das montadoras, a concentração da oferta de implementos e o interesse de grupos estrangeiros, o mercado cegonheiro brasileiro se posiciona como um dos pontos mais sensíveis – e mais promissores – da cadeia automotiva para os próximos anos. 

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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