Com mais montadoras produzindo no Brasil, a chegada de novas marcas – em especial as chinesas – está puxando para cima a demanda por transporte de veículos zero quilômetro e tudo indica que esse movimento vai se intensificar nos próximos anos. Ao mesmo tempo, a indústria nacional de carretas cegonhas segue concentrada em poucos fabricantes especializados, um cenário que começa a despertar o apetite de grupos chineses de implementos rodoviários interessados em disputar esse mercado.
O Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) estima que a categoria transportou cerca de 2,8 milhões de veículos em 2024, com uma frota de 3,7 mil caminhões cegonha operados por aproximadamente 1,3 mil empresas associadas em todo o país. Segundo dados da entidade, o setor já chegou a movimentar 3,8 milhões de unidades por ano, o que revela capacidade ociosa, mas também a necessidade de frota moderna e renovação para atender ao novo mix de veículos, hoje dominado por SUVs e picapes maiores.
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A concentração da base de cegonheiros no ABC paulista, berço histórico da indústria automotiva nacional, reforça o peso estratégico desse modal na cadeia de distribuição dos carros novos vendidos no país. Mesmo diante de alguma ociosidade pontual, a perspectiva de crescimento de produção local e de importados – com destaque para as montadoras chinesas em expansão no Brasil – tende a manter a pressão por equipamentos mais eficientes, leves e tecnológicos para o transporte.
Mercado concentrado em poucos fabricantes
Embora o Brasil tenha mais de 170 fabricantes associados à ANFIR na indústria de implementos rodoviários, apenas uma fatia relativamente pequena atua de forma direta e relevante no nicho de carretas cegonhas. Na prática, o transporte de veículos novos é sustentado por um grupo enxuto de fabricantes especializados e pelos grandes players gerais de semirreboques.
Segundo à Anfir (Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários), que dispõe de dados apenas das empresas Dambroz e Três Eixos, que respondem juntas, por cerca de 80% do mercado. O desempenho de emplacamentos mostra um crescimento consistente ano a ano: foram 83 unidades em 2022; 171 em 2023; 229 em 2024 e 333 em 2025, indicando uma expansão acelerada da demanda por equipamentos voltados ao transporte de veículos.

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Na ponta de maior escala industrial, Randon Implementos e Librelato figuram entre as maiores fabricantes de implementos rodoviários em rankings internacionais, porém, não possuem o implemento cegonha no portfólio deles. Ao lado delas, poucos nomes atendem o segmento, como Dambroz, Três Eixos e CDL.
Entre os nomes diretamente associados ao segmento, a gaúcha Dambroz é citada como pioneira na fabricação de carretas cegonhas no Brasil e mantém forte vínculo histórico com esse nicho. Em 2025, a empresa lançou a série comemorativa D80, um semirreboque cegonheiro capaz de transportar até 11 veículos ou vans, com crescimento de quase 70% nas vendas do modelo em 2024 em comparação ao ano anterior.
O pacote técnico da D80 inclui estrutura galvanizada a fogo, sistemas de freio com recursos inteligentes, antitombamento e rastreamento 24 horas, evidenciando a aposta em durabilidade e segurança para o transporte de veículos de maior valor agregado.
Já a Três Eixos, fundada no início dos anos 1990 com foco em semirreboques para transporte de veículos, é hoje um dos principais fornecedores de cegonhas para automóveis, caminhões e tratores, atendendo mercado nacional e Mercosul. Em parceria com a operadora logística Tegma, empresa que atua no transporte de veículos no Brasil, a Três Eixos desenvolveu duas novas carretas cegonheiras pensadas especificamente para SUVs e picapes – veículos mais altos e pesados que vêm ganhando participação nas vendas. Os conjuntos estão em testes operacionais e prometem maximizar capacidade de carga respeitando a legislação e os limites de altura, além de elevar padrões de segurança e eficiência.
No flanco da eletrificação, a própria Tegma conduz um projeto‑piloto com um caminhão cegonha 100% elétrico, convertido a partir de um modelo convencional, com autonomia estimada entre 500 e 700 quilômetros por dia em operação de longa distância. Embora o foco seja o cavalo mecânico, esse tipo de iniciativa tende a influenciar as especificações dos implementos, que precisarão ser cada vez mais leves e aerodinâmicos para compensar o peso das baterias.
A CDL, por fim, representa o grupo de fabricantes médios com especialização direta em equipamentos para transporte de veículos: atua há mais de 40 anos produzindo carretas cegonhas para 4 a 7 automóveis, plataformas de guincho e gaiolas, inclusive versões fechadas em ACM para proteção da carga. Com foco quase exclusivo nesse tipo de solução, atende tanto grandes transportadoras quanto empresas menores e locadoras, embora não divulgue participação de mercado em números absolutos.
Gargalos e oportunidades no sistema
Apesar da capacidade instalada e da modernização em curso, dirigentes do Sinaceg alertam para um quadro paradoxal: ao mesmo tempo em que há ociosidade em algumas rotas, faltam profissionais qualificados e há preocupação com a renovação e adequação da frota diante da complexidade dos novos veículos. O sindicato, que recentemente inaugurou uma nova sede em São Bernardo do Campo, planeja criar uma escola de formação de condutores de cegonhas para enfrentar a escassez de mão de obra especializada.
A própria categoria vem assumindo funções que vão além do transporte, como o programa de poda de árvores em rodovias e áreas urbanas para evitar danos a veículos embarcados, reflexo direto da altura dos conjuntos cegonheiros, que podem chegar a quase 5 metros. Tudo isso reforça a ideia de que o transporte de veículos se tornou um elo sensível na cadeia automotiva, onde qualquer gargalo logístico impacta diretamente o fluxo de veículos das montadoras até a rede de concessionárias.
Chineses de olho na Zona da Mata Sul
É nesse contexto de demanda crescente e oferta concentrada que um grupo de empresários chineses da cidade de Liangshan, na província de Shandong – apontada como o maior hub da indústria rodoviária da China – passou a olhar com atenção para o Brasil. Reportagem do Diário de Pernambuco revelou que esses investidores estão estudando a implantação de uma fábrica de carretas cegonhas na Zona da Mata Sul de Pernambuco, região vista como estratégica pela proximidade com o Porto de Suape, com as principais rodovias e com o polo automotivo da Stellantis em Goiana.
Segundo o grupo, o mercado brasileiro de automóveis zero quilômetro está em constante transformação e ainda sofre com a falta de opções de transporte, identificada como um gargalo logístico – diagnóstico que dialoga diretamente com a concentração da oferta de implementos e os desafios relatados pelos cegonheiros. A empresa chinesa, especializada em reboques e implementos, já realizou estudos sobre dimensões e capacidades exigidas pela regulamentação brasileira, e avalia também alternativas em Feira de Santana (BA) e Caaporã (PB), embora a Zona da Mata Sul siga como favorita pela combinação de fatores logísticos e industriais.
Na avaliação dos empresários, uma nova planta poderia gerar empregos diretos e indiretos, fortalecer o desenvolvimento regional e funcionar como plataforma para difusão de tecnologias e processos logísticos inovadores no país. Na prática, seria também o movimento mais explícito de um grande grupo chinês tentando entrar num nicho hoje dominado por poucos fabricantes nacionais, conectando o know‑how de Liangshan, onde se concentra uma das maiores bases mundiais de produção de semirreboques, às necessidades de um mercado brasileiro em transição.
Janela estratégica para o Brasil
Se confirmada, a chegada de um novo player internacional ao segmento de carretas cegonhas tende a acirrar a concorrência e acelerar a difusão de tecnologias já usadas em outros mercados, como soluções de modularidade, sistemas avançados de amarração e plataformas adaptáveis a diferentes tipos de veículos.
Entre o avanço das montadoras, a concentração da oferta de implementos e o interesse de grupos estrangeiros, o mercado cegonheiro brasileiro se posiciona como um dos pontos mais sensíveis – e mais promissores – da cadeia automotiva para os próximos anos.
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