No final de 2025, uma grande distribuidora anunciou ao mercado o lançamento de um diesel B15 aditivado classificado como “premium”, prometendo ganhos de desempenho, estabilidade e maior controle de qualidade na mistura com biodiesel. A novidade foi apresentada como resposta à evolução regulatória e ao avanço das misturas obrigatórias no Brasil.
Na mesma época, porém, o diretor de Operações de um dos maiores frotistas do transporte rodoviário de passageiros do País — com mais de 2.500 ônibus em operação — revelou à reportagem, em conversa informal (por isso preservamos a fonte), que a empresa vinha enfrentando problemas relacionados à qualidade do diesel B15 fornecido por grandes distribuidoras.
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O relato chama atenção por um motivo central: trata-se de abastecimento em atacado, com entrega direta nas garagens da frota. Ou seja, sem a etapa do posto de rua, frequentemente apontada como ponto crítico para contaminação ou adulteração.
A questão, portanto, vai além do varejo.
O debate técnico e o silêncio corporativo
Em evento da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), a reportagem questionou diretamente a entidade sobre a qualidade do diesel mesmo no fornecimento atacadista. O tema foi debatido com Rogério Gonçalves, diretor de Combustíveis da AEA, entidade que dialoga com Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e representantes da indústria de biodiesel.
O ponto central da discussão: existem desafios logísticos relevantes entre a origem do biodiesel e sua incorporação ao diesel fóssil, especialmente nas etapas de transporte, armazenagem e mistura. São fases técnicas, regulatórias e operacionais que não aparecem ao consumidor final — mas que impactam diretamente a qualidade entregue.
Diante desse cenário, solicitamos entrevista à distribuidora responsável pelo lançamento do diesel B15 aditivado “premium”, com o objetivo de detalhar a logística do combustível desde a origem até o tanque das grandes frotas.
A assessoria de imprensa solicitou o envio prévio das perguntas. Elaboramos 17 questionamentos técnicos, abordando: Procedimentos de rastreabilidade do biodiesel; Controle de estabilidade oxidativa; Critérios de homologação de fornecedores; Monitoramento em terminais e bases; Procedimentos de controle na entrega direta às frotas; Gestão de não conformidades.
Após alguns dias, a empresa informou que não poderia contribuir. Posteriormente, recuou e afirmou que responderia, mas que, por se tratarem de perguntas complexas, seria necessário prazo adicional para apuração.
Passados quase 60 dias, não houve retorno.
O silêncio, diante da complexidade do tema, reforça uma sensação recorrente no setor: como a cadeia funciona, mas não é transparente.
O que o consumidor não vê
Recentemente, a reportagem recebeu, via LinkedIn, o “Boletim Biocombustíveis News”, com artigo assinado pela Dra. Angélica Dias, doutora em Biotecnologia com atuação na indústria de biodiesel e foco em ciência aplicada à transição energética.
O texto converge com as dúvidas levantadas por frotistas e por esta reportagem.
Segundo a autora, entre extração, refino, distribuição e preço final, o consumidor enxerga apenas a última etapa. O que chega à bomba — preço e qualidade — não é definido no posto, mas por uma cadeia de decisões técnicas, logísticas, regulatórias e políticas que permanecem praticamente invisíveis.
No discurso oficial, o ciclo é simples:
Poço → Refino → Distribuição → Revenda
Na prática, trata-se de uma cadeia longa, concentrada e opaca, em que responsabilidades se diluem. O consumidor só percebe que algo está errado quando o prejuízo já ocorreu — no motor, no sistema de injeção ou na perda progressiva de desempenho.
Mesmo em um cenário ideal de extração e refino conformes às normas, há uma etapa crítica pouco debatida: terminais, dutos, bases de distribuição e transporte rodoviário.
É nesse ponto que ocorrem as misturas obrigatórias — como o biodiesel no diesel — e onde, segundo especialistas, a rastreabilidade enfraquece.
A autora cita um dado alarmante: 28% do combustível comercializado no Brasil apresenta algum tipo de adulteração, das mais grosseiras às mais sutis. O problema não é apenas o combustível claramente irregular, que provoca falha imediata. O dano mais comum é silencioso: depósitos progressivos, perda de eficiência térmica, aumento de consumo específico e falhas prematuras em bombas, bicos e válvulas.
O sistema não quebra no posto. Ele quebra meses depois — fora da estatística e longe da responsabilização.
O impacto nas frotas
Para grandes operadores de transporte rodoviário o impacto não é trivial: Aumento de consumo específico; encurtamento de intervalos de manutenção; falhas prematuras em sistemas de injeção de alta pressão; redução de disponibilidade operacional; elevação do custo por quilômetro rodado.
Quando o problema surge, a cadeia de responsabilização é difusa. O fornecedor aponta para a origem do biodiesel. O produtor aponta para parâmetros de armazenagem. A distribuidora menciona conformidade na saída da base. E a frota assume o prejuízo.
Se no varejo há o risco de contaminação por tanques mal conservados ou práticas ilícitas, no atacado o desafio é outro: controle fino de qualidade em volumes massivos, estabilidade química do biodiesel, gestão de estoques e compatibilidade com sistemas modernos de injeção.
Transparência como ativo estratégico
O lançamento de um diesel B15 aditivado “premium” poderia ser uma oportunidade para o setor demonstrar robustez técnica, rastreabilidade e controle ampliado da cadeia. No entanto, a ausência de respostas técnicas a questionamentos objetivos revela um déficit de comunicação — e talvez de governança.
O debate público costuma se restringir ao preço na bomba. Mas o problema pode estar antes: na estratégia de refino, na dependência de importações, na logística de mistura, na concentração de poder nas distribuidoras e na diferença pouco explicada entre o preço na refinaria e o valor final ao consumidor.
A pergunta que permanece não é se o sistema funciona. Ele funciona.
A questão é: para quem?
Enquanto a cadeia seguir operando com baixa transparência e responsabilização difusa, o risco técnico continuará sendo absorvido por quem está na ponta — frotistas, operadores e consumidores finais.
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