sábado, fevereiro 21, 2026

Diesel B15: qualidade sob suspeita e a opacidade na cadeia: o que acontece entre a origem e o tanque das frotas?

No final de 2025, uma grande distribuidora anunciou ao mercado o lançamento de um diesel B15 aditivado classificado como “premium”, prometendo ganhos de desempenho, estabilidade e maior controle de qualidade na mistura com biodiesel. A novidade foi apresentada como resposta à evolução regulatória e ao avanço das misturas obrigatórias no Brasil.

Na mesma época, porém, o diretor de Operações de um dos maiores frotistas do transporte rodoviário de passageiros do País — com mais de 2.500 ônibus em operação — revelou à reportagem, em conversa informal (por isso preservamos a fonte), que a empresa vinha enfrentando problemas relacionados à qualidade do diesel B15 fornecido por grandes distribuidoras.

O relato chama atenção por um motivo central: trata-se de abastecimento em atacado, com entrega direta nas garagens da frota. Ou seja, sem a etapa do posto de rua, frequentemente apontada como ponto crítico para contaminação ou adulteração.

A questão, portanto, vai além do varejo.

O debate técnico e o silêncio corporativo

Em evento da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), a reportagem questionou diretamente a entidade sobre a qualidade do diesel mesmo no fornecimento atacadista. O tema foi debatido com Rogério Gonçalves, diretor de Combustíveis da AEA, entidade que dialoga com Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e representantes da indústria de biodiesel.

O ponto central da discussão: existem desafios logísticos relevantes entre a origem do biodiesel e sua incorporação ao diesel fóssil, especialmente nas etapas de transporte, armazenagem e mistura. São fases técnicas, regulatórias e operacionais que não aparecem ao consumidor final — mas que impactam diretamente a qualidade entregue.

Diante desse cenário, solicitamos entrevista à distribuidora responsável pelo lançamento do diesel B15 aditivado “premium”, com o objetivo de detalhar a logística do combustível desde a origem até o tanque das grandes frotas.

A assessoria de imprensa solicitou o envio prévio das perguntas. Elaboramos 17 questionamentos técnicos, abordando: Procedimentos de rastreabilidade do biodiesel; Controle de estabilidade oxidativa; Critérios de homologação de fornecedores; Monitoramento em terminais e bases; Procedimentos de controle na entrega direta às frotas; Gestão de não conformidades.

Após alguns dias, a empresa informou que não poderia contribuir. Posteriormente, recuou e afirmou que responderia, mas que, por se tratarem de perguntas complexas, seria necessário prazo adicional para apuração.

Passados quase 60 dias, não houve retorno.

O silêncio, diante da complexidade do tema, reforça uma sensação recorrente no setor: como a cadeia funciona, mas não é transparente.

O que o consumidor não vê

Recentemente, a reportagem recebeu, via LinkedIn, o “Boletim Biocombustíveis News”, com artigo assinado pela Dra. Angélica Dias, doutora em Biotecnologia com atuação na indústria de biodiesel e foco em ciência aplicada à transição energética.

O texto converge com as dúvidas levantadas por frotistas e por esta reportagem.

Segundo a autora, entre extração, refino, distribuição e preço final, o consumidor enxerga apenas a última etapa. O que chega à bomba — preço e qualidade — não é definido no posto, mas por uma cadeia de decisões técnicas, logísticas, regulatórias e políticas que permanecem praticamente invisíveis.

No discurso oficial, o ciclo é simples:

Poço → Refino → Distribuição → Revenda

Na prática, trata-se de uma cadeia longa, concentrada e opaca, em que responsabilidades se diluem. O consumidor só percebe que algo está errado quando o prejuízo já ocorreu — no motor, no sistema de injeção ou na perda progressiva de desempenho.

Mesmo em um cenário ideal de extração e refino conformes às normas, há uma etapa crítica pouco debatida: terminais, dutos, bases de distribuição e transporte rodoviário.

É nesse ponto que ocorrem as misturas obrigatórias — como o biodiesel no diesel — e onde, segundo especialistas, a rastreabilidade enfraquece.

A autora cita um dado alarmante: 28% do combustível comercializado no Brasil apresenta algum tipo de adulteração, das mais grosseiras às mais sutis. O problema não é apenas o combustível claramente irregular, que provoca falha imediata. O dano mais comum é silencioso: depósitos progressivos, perda de eficiência térmica, aumento de consumo específico e falhas prematuras em bombas, bicos e válvulas.

O sistema não quebra no posto. Ele quebra meses depois — fora da estatística e longe da responsabilização.

O impacto nas frotas

Para grandes operadores de transporte rodoviário o impacto não é trivial: Aumento de consumo específico; encurtamento de intervalos de manutenção; falhas prematuras em sistemas de injeção de alta pressão; redução de disponibilidade operacional; elevação do custo por quilômetro rodado.

Quando o problema surge, a cadeia de responsabilização é difusa. O fornecedor aponta para a origem do biodiesel. O produtor aponta para parâmetros de armazenagem. A distribuidora menciona conformidade na saída da base. E a frota assume o prejuízo.

Se no varejo há o risco de contaminação por tanques mal conservados ou práticas ilícitas, no atacado o desafio é outro: controle fino de qualidade em volumes massivos, estabilidade química do biodiesel, gestão de estoques e compatibilidade com sistemas modernos de injeção.

Transparência como ativo estratégico

O lançamento de um diesel B15 aditivado “premium” poderia ser uma oportunidade para o setor demonstrar robustez técnica, rastreabilidade e controle ampliado da cadeia. No entanto, a ausência de respostas técnicas a questionamentos objetivos revela um déficit de comunicação — e talvez de governança.

O debate público costuma se restringir ao preço na bomba. Mas o problema pode estar antes: na estratégia de refino, na dependência de importações, na logística de mistura, na concentração de poder nas distribuidoras e na diferença pouco explicada entre o preço na refinaria e o valor final ao consumidor.

A pergunta que permanece não é se o sistema funciona. Ele funciona.

A questão é: para quem?

Enquanto a cadeia seguir operando com baixa transparência e responsabilização difusa, o risco técnico continuará sendo absorvido por quem está na ponta — frotistas, operadores e consumidores finais.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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