Poucos percebem o quanto a operação de carga e descarga pode comprometer toda a cadeia logística de uma empresa. Nesse processo aparentemente simples, escondem-se desperdícios de tempo, riscos à segurança e custos crescentes. Ainda assim, muitos gestores seguem tratando essa etapa com displicência, ignorando o impacto direto sobre a eficiência logística. Nos grandes centros urbanos, a dificuldade de encontrar espaços adequados para estacionar e manobrar caminhões é diária. Portos e centros de distribuição vivem congestionados, com veículos expostos a acidentes, roubos e multas. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) aponta que 51,6% das empresas de transporte enfrentam obstáculos logísticos nas cidades, com a falta de infraestrutura de carga e descarga liderando o problema.
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Cada minuto perdido em fila aumenta os custos logísticos. Horas extras, deslocamentos desnecessários e ociosidade de veículos sobrecarregam a operação, e a legislação agrava o cenário. Pela Lei nº 13.103/2015, a partir da quinta hora de espera, aplica-se multa de até 5% sobre o valor da carga, penalizando diretamente a ineficiência dos processos. O desempenho logístico brasileiro segue aquém do desejado. Segundo o Logistics Performance Index 2023, do Banco Mundial, o Brasil ocupa a 61ª posição entre 139 países, com deficiências críticas em manuseio de cargas e infraestrutura. Esses gargalos se somam aos danos físicos em veículos e mercadorias. Estima-se que entre 1% e 2% das mercadorias transportadas por rodovias brasileiras sofrem avarias, muitas originadas ainda na carga e descarga, segundo a ABRALOG.
A origem de boa parte dessas falhas está na falta de planejamento e organização, pois nformações imprecisas sobre horários, localização de docas e ordem de carregamento transformam o pátio em um palco de improvisos. As práticas básicas como o agrupamento das cargas por tipo, volume e destino ainda encontram resistência em muitas operações, alimentando o desperdício. O fator humano também pesa, não são raros os casos de funcionários deslocados de outras funções sendo improvisados na carga e descarga sem o treinamento necessário. Saber compactar cargas, usar corretamente os equipamentos de proteção e dominar os símbolos logísticos deveria ser obrigatório. Segundo a OSHA, cerca de 25% dos acidentes de trabalho em operações logísticas envolvem movimentação de cargas e operação de equipamentos de pátio.
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Enquanto parte do setor ainda depende de controles manuais e planilhas frágeis, a tecnologia oferece alternativas robustas. Sistemas como o Yard Management System (YMS) permitem agendamento inteligente das docas, visibilidade em tempo real do pátio e organização de filas por prioridades objetivas. Com isso, a comunicação flui melhor e o tempo de permanência dos veículos passa a ser controlado de forma preventiva. A integração desses sistemas com outras soluções logísticas fortalece a operação, reduzindo erros, danos e desperdícios.
Dessa forma, o que antes era um gargalo se torna diferencial competitivo. Em mercados cada vez mais pressionados por agilidade e precisão, profissionalizar a carga e descarga não é mais uma opção; tornou-se uma exigência estratégica. Ignorar esses problemas alimenta um ciclo vicioso de ineficiências. Ainda há quem trate essa etapa como algo secundário, sem perceber que, na logística moderna, cada metro rodado e cada minuto parado têm um preço. E, frequentemente, um preço alto demais para continuar sendo pago.
*Eros Viggiano é mestre em administração e cientista da computação. Fundou a LogPyx em 2015 com o objetivo de otimizar a logística interna e garantir a segurança dos trabalhadores.


