quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Atualização da NR-1 eleva responsabilidade das transportadoras sobre saúde mental e terá caráter punitivo a partir de maio de 2026

A partir de maio de 2026, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passa a ser fiscalizada com caráter punitivo, ampliando de forma significativa a responsabilidade das empresas na identificação e gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A exigência, que já vinha sendo aplicada desde 2025 em caráter orientativo, determina que fatores ligados à saúde mental integrem formalmente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

No Transporte Rodoviário de Cargas (TRC), o impacto é direto. O setor opera sob pressão constante por prazos, longas jornadas, responsabilidade sobre cargas de alto valor e atividades que se estendem por rodovias, terminais e pátios de embarcadores. Esse contexto amplia a exposição a fatores como estresse, exaustão emocional e conflitos interpessoais — que agora passam a ser oficialmente reconhecidos como riscos ocupacionais.

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Para a presidente executiva do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo (SETCESP) e diretora da Seção II – Cargas da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Ana Jarrouge, a mudança vai além de uma adequação documental.

“A nova NR-1 não trata apenas de burocracia. Ela nos chama a olhar com mais responsabilidade para saúde mental, clima organizacional e qualidade das relações. O que antes era visto como característica do setor agora pode gerar passivo jurídico, afastamentos e questionamentos previdenciários”, afirma.

Exigência formal e integração com outras normas

A norma determina que as empresas adotem processo estruturado para identificar fatores de risco psicossociais relacionados à organização do trabalho, comunicação interna, metas, cobranças e dinâmica das equipes. Esses fatores deverão constar no PGR ou na Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) e, quando necessário, ser articulados com a Análise Ergonômica do Trabalho (AET), prevista na Norma Regulamentadora nº 17.

Segundo Ana Jarrouge, o desafio para o transporte está na própria natureza descentralizada da operação. “No transporte, o ambiente de trabalho vai além da sede da empresa. Ele inclui estradas, postos, pontos de parada, locais de carga e descarga. Isso exige um olhar integrado e diálogo com outros elos da cadeia”, destaca.

A dirigente ressalta ainda o papel estratégico da liderança. “Não adianta ter um PGR impecável no papel se, na prática, o ambiente é marcado por desorganização, desrespeito ou pressão excessiva. Quando a alta direção assume o tema como estratégico, investe em desenvolvimento de lideranças e alinha discurso e prática, a mudança acontece de forma consistente.”

O SETCESP intensificou reuniões técnicas, cursos e materiais explicativos para apoiar as transportadoras na adaptação. O objetivo é evitar autuações e passivos trabalhistas, mas também transformar a agenda de saúde mental em vetor de evolução na gestão de pessoas.

“A NR-1 pode ser vista como obrigação incômoda ou como oportunidade de amadurecimento. Cuidar da saúde mental impacta produtividade, retenção de talentos, redução de afastamentos e qualidade do serviço prestado. No TRC, isso é estratégico”, conclui Ana Jarrouge.

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Engajamento é maior desafio na adequação à NR-1

Se, do ponto de vista legal, a regra está clara, na prática a adequação exige mudança cultural. A Alper Seguros avaliou 20.397 colaboradores em estudo recente e identificou que o principal obstáculo das empresas não é o preenchimento de formulários, mas o engajamento efetivo das equipes nos questionários que fundamentam o PGR.

Para Paula Gallo, diretora de Gestão de Riscos e Saúde da Alper, a NR-1 inaugura uma nova fase na gestão corporativa.

“As empresas serão obrigadas a acompanhar continuamente todas as ações voltadas às condições de trabalho e saúde mental. Muitas atuam apenas de forma emergencial, quando o problema já está instalado. A norma reforça a necessidade de sermos preventivos e proativos”, afirma.

Segundo ela, o PGR passa a exigir plano de ação específico para riscos psicossociais, com monitoramento periódico e comprovação de efetividade — ponto sensível para o transporte, marcado por jornadas extensas, pressão por resultados e isolamento do trabalhador em campo.

A Rumo, maior operadora ferroviária da América Latina, também vem ajustando seus processos. A enfermeira do trabalho Laís Silva Papasidio explica que a inclusão dos fatores psicossociais amplia a responsabilidade empresarial.

“A empresa passa a considerar não só riscos físicos, mas também mentais e organizacionais. Isso exige olhar atento para jornadas, metas, escalas e condições de trabalho. É uma gestão mais humana e equilibrada”, afirma.

Sinais silenciosos e gestão estruturada

Entre os principais indícios de esgotamento apontados por especialistas estão irritabilidade, fadiga persistente, dificuldade de concentração, isolamento social, queda de desempenho, distúrbios do sono e sintomas físicos sem causa aparente.

A Alper defende a utilização de questionários estruturados, entrevistas, mapeamento de riscos e indicadores de clima organizacional, com apoio de equipes multidisciplinares de RH e SESMT. Programas como Treinamento em Primeiros Socorros em Saúde Mental, Brigadas de Saúde Mental e iniciativas de qualidade de vida integradas ao PGR têm sido adotados como estratégia de prevenção.

No setor de transporte, a pulverização da força de trabalho — com motoristas frequentemente em trânsito — dificulta a comunicação e exige soluções adaptadas à rotina operacional.

A Rumo elenca seis pilares para conciliar produtividade e saúde mental: metas realistas, diálogo e escuta ativa, reconhecimento equilibrado, pausas adequadas, programas de bem-estar e formação de líderes empáticos.

“Produtividade sustentável só existe quando o trabalhador está saudável, engajado e respeitado”, reforça Laís Papasidio.

Tecnologia: controle ou cuidado?

Telemetria, rastreamento e monitoramento de jornada são frequentemente associados a pressão adicional sobre motoristas. No entanto, quando utilizados com transparência, esses recursos podem atuar na prevenção do adoecimento.

“Softwares de rotas, sistemas de gestão integrada e até inteligência artificial podem reduzir tempo de trânsito, identificar padrões de fadiga e enviar alertas preventivos. O importante é que sejam usados para cuidado — não apenas controle”, afirma Paula Gallo.

As entrevistas indicam que os impactos da NR-1 vão além da prevenção de multas. A norma tende a impulsionar uma agenda de transformação estrutural, com reflexos sobre clima organizacional, redução de acidentes, qualificação da gestão e reputação corporativa.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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