Mercado brasileiro de frete e logística entra em um novo ciclo de crescimento e maturidade, pressionando gestores a acelerar investimentos em digitalização, eficiência operacional e ESG
O setor logístico brasileiro atravessa um dos períodos mais relevantes de sua história recente. Estimativas da consultoria Mordor Intelligence indicam que o mercado nacional de frete e logística deve movimentar cerca de R$ 597 bilhões em 2025, avançar para aproximadamente R$ 625 bilhões em 2026 e alcançar em torno de R$ 789 bilhões até 2031, com taxa média de crescimento anual de 4,78%.
Assim, 2026 tende a consolidar um modelo de operação mais conectado, inteligente e sustentável, impulsionado por tecnologia, novas demandas de mercado e pressão crescente por eficiência.
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“Nos últimos anos, vimos uma aceleração sem precedentes na digitalização das operações, desde a gestão de frotas até o gerenciamento de armazéns. Essa tendência tende a se aprofundar. Empresas que ainda operam processos manuais ou fragmentados correm o risco de perder competitividade”, avalia Kassio Seefeld, CEO da TruckPag.
Um mercado cada vez mais complexo — e rodoviário
Apesar do avanço de outros modais, o transporte rodoviário seguirá dominante, respondendo por 65,8% da receita logística brasileira, reflexo direto da matriz histórica das maiores economias do mundo devido a capilaridade e flexibilidade. O transporte de cargas representa cerca de 61% de todo o mercado, enquanto o segmento CEP (Courier, Express e Parcel) é o que cresce mais rápido, com CAGR (taxa de crescimento no longo prazo) acima de 5,4%, impulsionado pelo e-commerce e pela logística urbana.

Do ponto de vista setorial, manufatura (38,3%) e comércio atacadista e varejista concentram a maior demanda logística, enquanto o agronegócio continua puxando investimentos em corredores de exportação, armazenagem e integração multimodal.
Esse contexto amplia a pressão sobre as frotas: custos de combustível, manutenção, pedágio, mão de obra e exigências regulatórias crescem, ao mesmo tempo em que clientes exigem prazos menores, rastreabilidade total e menor pegada ambiental. E isso tudo deve acontecer juntamente com renovação de frota, redução de emissões e melhoria da qualidade de trabalho para retenção e atração de motoristas profissionais.
As 5 tendências que devem dominar a logística em 2026
Com base nesse cenário, Kassio Seefeld aponta cinco movimentos estruturais que devem ganhar força já em 2026 e impactar diretamente a tomada de decisão dos gestores de transporte e logística.
1. Gestão de frotas 100% digital e integrada
A digitalização deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser um pré‑requisito para a operação logística. A integração de telemetria, roteirização, manutenção, gestão de abastecimento e controle financeiro vem permitindo às empresas acompanhar em tempo real tanto a frota quanto a carga transportada.
Na prática, organizações que adotam sistemas totalmente integrados registram reduções de consumo de combustível na casa dos dois dígitos percentuais, ampliam a disponibilidade dos veículos, elevam o índice de entregas no prazo (OTIF) e ganham maior previsibilidade sobre custos e margens — um avanço que redefine padrões de eficiência no setor.
Para um setor que opera com margens apertadas, dados consolidados viram vantagem competitiva.
2. Inteligência artificial e automação no centro das decisões
A inteligência artificial deixa de ser conceito e passa a atuar diretamente na operação. Ferramentas de IA já são usadas para previsão de demanda, otimização dinâmica de rotas, manutenção preditiva e gestão de riscos.
A automação, por sua vez, reduz erros humanos, acelera processos administrativos e libera equipes para funções estratégicas. Em um mercado que sofre com escassez de motoristas e mão de obra qualificada, produtividade passa a ser questão de sobrevivência.
3. Sustentabilidade e logística verde como estratégia de negócio
A agenda ESG passou a exercer influência concreta sobre a logística brasileira. A redução de emissões de CO₂, o controle do consumo de combustível, o uso de biocombustíveis, a eletrificação gradual das frotas e o monitoramento ambiental já impactam diretamente contratos, condições de financiamento e o acesso a grandes embarcadores. Veja no artigo abaixo, o caso da contratação da Reiter Log pela Coca-Cola Femsa colocando a adoção de caminhões a gás biometano como condição contratual:
Descarbonização vira critério na contratação da Reiter Log pela Coca-Cola FEMSA Brasil
Além da pressão regulatória, empresas que adotam práticas sustentáveis conseguem reduzir custos operacionais no médio prazo, ampliar o acesso a crédito e seguros e conquistar vantagem competitiva em cadeias globais. Nesse cenário, a chamada logística verde deixa de ser apenas um discurso corporativo e se consolida como uma decisão econômica racional.
4. Robótica e automação
A robótica aplicada à logística avança rapidamente, sobretudo em centros de distribuição, cross-docking e operações de e-commerce. Robôs colaborativos, sistemas automatizados de separação e carregamento reduzem erros, aumentam velocidade e melhoram a segurança operacional.
Para grandes operadores, a robótica viabiliza escala sem crescimento proporcional de custos, algo essencial em um mercado cada vez mais volátil.
5. Logística colaborativa e plataformas integradas
Modelos colaborativos vêm ganhando espaço como resposta direta à ociosidade de frotas e à forte fragmentação do setor. Plataformas que conectam transportadores, embarcadores e fornecedores possibilitam o compartilhamento de capacidade, rotas e informações, criando um ambiente mais integrado e eficiente. Esse movimento resulta em melhor aproveitamento dos veículos, redução do custo por quilômetro rodado, diminuição de viagens vazias e cadeias logísticas mais resilientes — um avanço que reposiciona a colaboração como pilar estratégico da competitividade no transporte de cargas.
O desafio para gestores: sair do discurso e ir para a execução

O crescimento do mercado logístico brasileiro não elimina seus desafios estruturais: dependência do modal rodoviário para cargas de grande volume entre única origem e único destino, infraestrutura desigual, complexidade tributária e pressão constante sobre custos. Justamente por isso, tecnologia, integração e sustentabilidade deixam de ser tendência e se tornam condição básica de competitividade.
“O futuro da logística no Brasil é de integração, inteligência e responsabilidade. As empresas que conseguirem unir tecnologia, processos otimizados e visão estratégica estarão prontas para se diferenciar e capturar valor de forma consistente”, conclui Kassio Seefeld.
Para gestores de frotas e operadores logísticos, 2026 não será apenas mais um ano de crescimento — será o momento decisivo entre liderar a transformação ou ficar para trás em um setor cada vez mais orientado por dados, eficiência e colaboração.


