A cidade de Campos Novos (SC) inaugurou a primeira usina de biometano da América Latina produzida a partir de dejetos suínos, com certificação para atuação no mercado regulado, em um projeto que une agroindústria, bioenergia e desenvolvimento regional.
A planta piloto recebeu investimento de R$ 65 milhões e foi instalada em parceria
entre a H2A Bioenergia e a Copercampos
O empreendimento foi inaugurado no fim de março, na Granja dos Pinheiros, em Campos Novos (SC), município de cerca de 33 mil habitantes, e passa a simbolizar um novo modelo de monetização de resíduos da suinocultura em escala comercial. A unidade transforma um passivo ambiental do agronegócio em combustível renovável de alto valor agregado, apto a abastecer aplicações industriais, comerciais e de transporte, em linha com a regulação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Plano de expansão prevê 22 novas plantas em cinco anos
A inauguração em Campos Novos é apenas o ponto de partida de um plano ambicioso. A H2A Bioenergia projeta investir R$ 2,9 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para implantar 22 novas plantas de biometano, com foco principal em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná, além de projetos em outros estados no médio prazo.
Leia também:
- Goiás estreia primeiros ônibus articulados a biometano do Brasil e projeta 501 veículos até 2027
- Frota Sustentável: mais de 220 artigos sobre descabonização do transporte
O cronograma de expansão já tem os próximos passos definidos. A segunda planta será instalada em Rio Verde (GO), novamente em parceria com um produtor de suínos, com previsão de entrada em operação até o fim deste ano. Na sequência, a terceira unidade está sendo preparada em Ponta Grossa (PR), com início previsto para 2026, segundo noticiou o site de notícias Economia SC.
Infraestrutura de gás e postos podem acelerar novo ciclo de negócios no interior
Para além da produção do biometano, o projeto em Campos Novos mira a criação de um ecossistema regional de distribuição e consumo do combustível renovável. Segundo Adilson Teixeira Lima, diretor-presidente da H2A Bioenergia, em entrevista para imprensa regional, a comercialização atual ocorre em Lages, município a cerca de 100 quilômetros da planta inaugural.
“Hoje a comercialização é feita em Lages, município que fica a cerca de 100 km de onde temos nossa primeira planta, no entanto, em parceria com a SCGás, a previsão é que a rede chegue em Campos Novos em até 2 anos. Além disso, vamos implementar postos de combustíveis, por exemplo, gerando novos negócios e desenvolvimento regional”, afirma o executivo ao canal Notícias Agrícolas.
A fala se conecta ao movimento mais amplo de interiorização da infraestrutura de gás em Santa Catarina. Em evento recente em Campos Novos, a SCGÁS destacou o potencial do município para se tornar um hub regional de biometano, com capacidade estimada superior a 40 mil m³ por dia, além de apontar a descarbonização de frotas pesadas como uma das principais frentes de uso do energético. A companhia também ressaltou que o avanço regulatório estadual favorece a injeção e a distribuição do biometano na rede canalizada.
Modelo de negócio divide receita com produtores e amplia valor no campo
Na prática, a H2A aposta em um modelo de parceria direta com os produtores rurais. Os suinocultores entram com o fornecimento dos dejetos e com a área necessária para a implantação da estrutura. Em troca, recebem uma participação sobre a receita gerada pela comercialização do biometano. Já a empresa assume o investimento em equipamentos, a operação industrial e a gestão comercial do negócio.
O formato reduz a barreira de entrada para o produtor, monetiza um resíduo antes visto apenas como custo ambiental e cria uma nova fonte de renda vinculada à economia circular no campo. Em regiões de forte presença da suinocultura, como o Meio-Oeste catarinense, esse modelo tende a ganhar tração rapidamente.
Tecnologia europeia e potencial para outros resíduos
A planta de Campos Novos opera com tecnologia importada do mercado europeu, um dos mais maduros no aproveitamento energético de resíduos orgânicos. Segundo a empresa, o prazo de chegada desses equipamentos ao Brasil pode chegar a 30 semanas, o que impõe desafios logísticos, mas também reforça a sofisticação do projeto.
Além da suinocultura, a tecnologia pode ser adaptada para outros tipos de resíduos, dependendo da vocação econômica local de cada região. Isso abre espaço para aplicações futuras em cadeias agroindustriais diversas, ampliando o leque de matérias-primas e o potencial de replicação do modelo em outros estados.
Mercado ainda engatinha no Brasil, apesar do enorme potencial
O avanço da H2A ocorre em um setor ainda subaproveitado no país. De acordo com a Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN), o Brasil utiliza apenas 1,5% do potencial de biometano e 5,6% do potencial de biogás. Segundo a entidade, o potencial nacional seria equivalente à implantação de 130 usinas de 20 MW, somando 3,3 GW de capacidade instalada e aproximadamente R$ 180 bilhões em investimentos.
Na avaliação do setor, o ambiente regulatório vem amadurecendo. A ANP informa que o biometano é um biocombustível gasoso obtido do processamento do biogás e que pode ser utilizado de forma intercambiável com o gás natural em diferentes aplicações. Atualmente, as especificações nacionais para comercialização são regidas, entre outras, pelas Resoluções ANP nº 886/2022 e nº 906/2022, que seguem em revisão para consolidação normativa diante da expansão do mercado e da Lei do Combustível do Futuro.
H2A mira América Latina e vê “oceano azul”
A companhia catarinense já olha além das fronteiras brasileiras. Segundo Adilson Teixeira Lima, a H2A está estruturando sua operação para levar o modelo a outros países da América do Sul.
“Estamos em um oceano azul. Inclusive, estruturando a empresa para plantas em países como Paraguai, Colômbia e Equador”, afirma.
A leitura do executivo é coerente com o estágio ainda inicial do setor: poucos projetos comerciais estruturados, alto potencial de disponibilidade de resíduos orgânicos e crescente pressão por descarbonização de cadeias logísticas, agroindustriais e frotas pesadas.
Abaixo, fizemos um resumo das últimas notícias publicadas pela Frota News sobre investimentos em produção de biometano:
| Empresa/Projeto | Valor do Investimento | Localização | Capacidade | Matéria-prima | Prazo de Operação |
|---|---|---|---|---|---|
| H2A Ambiental | R$ 1,7 bilhão | 20+ unidades (vários estados) | 20+ unidades | Resíduos orgânicos, efluentes | Primeira unidade: jul/2025 frotanews |
| Atvos | R$ 500 milhões | Nova Alvorada do Sul (MS) | 28,3 milhões m³/ano | Vinhaça, torta de filtro | FINAL 2026 frotanews |
| BP Bunge Bioenergia | R$ 500 milhões | Edéia (GO) | 66,5 mil m³/dia | Vinhaça | Jul/2024 (operando) frotanews |
| BNDES – bp bioenergy | R$ 244,9 milhões (financiamento) | Edéia (GO) | 66,5 mil m³/dia | Vinhaça | Operando frotanews |
| Cocal (2ª planta) | R$ 241 milhões (solar + biometano) | Paraguaçu Paulista (SP) | 60 mil m³/dia | Resíduos agrícolas | Jul/2025 frotanews |
| EcoGeo | R$ 140 milhões | Guapó (GO) | 100 mil m³/dia | Resíduos orgânicos | 2026 (para ônibus) abegas+1 |
| Consórcio BRT + GeoGreen | R$ 150 milhões | Guapó (GO) | 100 mil m³/dia | Resíduos orgânicos | 2026 (500 veículos) investnews |
| SCBIO Energias Renováveis | R$ 8 milhões | São Carlos (SP) | 4,8 mil m³/dia | Resíduos orgânicos urbanos | FINAL 2024 frotanews |
| BNDES – Gás Verde | R$ 131,1 milhões (financiamento) | Aterros sanitários | CO₂ verde + biometano | Aterros | Primeira usina CO₂ verde frotanews |
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast



