quinta-feira, abril 9, 2026

Primeira usina de biometano de dejetos suínos da América Latina entra em operação em SC

A cidade de Campos Novos (SC) inaugurou a primeira usina de biometano da América Latina produzida a partir de dejetos suínos, com certificação para atuação no mercado regulado, em um projeto que une agroindústria, bioenergia e desenvolvimento regional.
A planta piloto recebeu investimento de R$ 65 milhões e foi instalada em parceria
entre a H2A Bioenergia e a Copercampos

O empreendimento foi inaugurado no fim de março, na Granja dos Pinheiros, em Campos Novos (SC), município de cerca de 33 mil habitantes, e passa a simbolizar um novo modelo de monetização de resíduos da suinocultura em escala comercial. A unidade transforma um passivo ambiental do agronegócio em combustível renovável de alto valor agregado, apto a abastecer aplicações industriais, comerciais e de transporte, em linha com a regulação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Plano de expansão prevê 22 novas plantas em cinco anos

A inauguração em Campos Novos é apenas o ponto de partida de um plano ambicioso. A H2A Bioenergia projeta investir R$ 2,9 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para implantar 22 novas plantas de biometano, com foco principal em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná, além de projetos em outros estados no médio prazo.

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O cronograma de expansão já tem os próximos passos definidos. A segunda planta será instalada em Rio Verde (GO), novamente em parceria com um produtor de suínos, com previsão de entrada em operação até o fim deste ano. Na sequência, a terceira unidade está sendo preparada em Ponta Grossa (PR), com início previsto para 2026, segundo noticiou o site de notícias Economia SC.

Infraestrutura de gás e postos podem acelerar novo ciclo de negócios no interior

Para além da produção do biometano, o projeto em Campos Novos mira a criação de um ecossistema regional de distribuição e consumo do combustível renovável. Segundo Adilson Teixeira Lima, diretor-presidente da H2A Bioenergia, em entrevista para imprensa regional, a comercialização atual ocorre em Lages, município a cerca de 100 quilômetros da planta inaugural.

“Hoje a comercialização é feita em Lages, município que fica a cerca de 100 km de onde temos nossa primeira planta, no entanto, em parceria com a SCGás, a previsão é que a rede chegue em Campos Novos em até 2 anos. Além disso, vamos implementar postos de combustíveis, por exemplo, gerando novos negócios e desenvolvimento regional”, afirma o executivo ao canal Notícias Agrícolas.

A fala se conecta ao movimento mais amplo de interiorização da infraestrutura de gás em Santa Catarina. Em evento recente em Campos Novos, a SCGÁS destacou o potencial do município para se tornar um hub regional de biometano, com capacidade estimada superior a 40 mil m³ por dia, além de apontar a descarbonização de frotas pesadas como uma das principais frentes de uso do energético. A companhia também ressaltou que o avanço regulatório estadual favorece a injeção e a distribuição do biometano na rede canalizada.

Modelo de negócio divide receita com produtores e amplia valor no campo

Na prática, a H2A aposta em um modelo de parceria direta com os produtores rurais. Os suinocultores entram com o fornecimento dos dejetos e com a área necessária para a implantação da estrutura. Em troca, recebem uma participação sobre a receita gerada pela comercialização do biometano. Já a empresa assume o investimento em equipamentos, a operação industrial e a gestão comercial do negócio.

O formato reduz a barreira de entrada para o produtor, monetiza um resíduo antes visto apenas como custo ambiental e cria uma nova fonte de renda vinculada à economia circular no campo. Em regiões de forte presença da suinocultura, como o Meio-Oeste catarinense, esse modelo tende a ganhar tração rapidamente.

Tecnologia europeia e potencial para outros resíduos

A planta de Campos Novos opera com tecnologia importada do mercado europeu, um dos mais maduros no aproveitamento energético de resíduos orgânicos. Segundo a empresa, o prazo de chegada desses equipamentos ao Brasil pode chegar a 30 semanas, o que impõe desafios logísticos, mas também reforça a sofisticação do projeto.

Além da suinocultura, a tecnologia pode ser adaptada para outros tipos de resíduos, dependendo da vocação econômica local de cada região. Isso abre espaço para aplicações futuras em cadeias agroindustriais diversas, ampliando o leque de matérias-primas e o potencial de replicação do modelo em outros estados.

Mercado ainda engatinha no Brasil, apesar do enorme potencial

O avanço da H2A ocorre em um setor ainda subaproveitado no país. De acordo com a Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN), o Brasil utiliza apenas 1,5% do potencial de biometano e 5,6% do potencial de biogás. Segundo a entidade, o potencial nacional seria equivalente à implantação de 130 usinas de 20 MW, somando 3,3 GW de capacidade instalada e aproximadamente R$ 180 bilhões em investimentos.

Na avaliação do setor, o ambiente regulatório vem amadurecendo. A ANP informa que o biometano é um biocombustível gasoso obtido do processamento do biogás e que pode ser utilizado de forma intercambiável com o gás natural em diferentes aplicações. Atualmente, as especificações nacionais para comercialização são regidas, entre outras, pelas Resoluções ANP nº 886/2022 e nº 906/2022, que seguem em revisão para consolidação normativa diante da expansão do mercado e da Lei do Combustível do Futuro.

H2A mira América Latina e vê “oceano azul”

A companhia catarinense já olha além das fronteiras brasileiras. Segundo Adilson Teixeira Lima, a H2A está estruturando sua operação para levar o modelo a outros países da América do Sul.

“Estamos em um oceano azul. Inclusive, estruturando a empresa para plantas em países como Paraguai, Colômbia e Equador”, afirma.

A leitura do executivo é coerente com o estágio ainda inicial do setor: poucos projetos comerciais estruturados, alto potencial de disponibilidade de resíduos orgânicos e crescente pressão por descarbonização de cadeias logísticas, agroindustriais e frotas pesadas.

Abaixo, fizemos um resumo das últimas notícias publicadas pela Frota News sobre investimentos em produção de biometano:
Empresa/Projeto Valor do Investimento Localização Capacidade Matéria-prima Prazo de Operação
H2A Ambiental R$ 1,7 bilhão 20+ unidades (vários estados) 20+ unidades Resíduos orgânicos, efluentes Primeira unidade: jul/2025 frotanews
Atvos R$ 500 milhões Nova Alvorada do Sul (MS) 28,3 milhões m³/ano Vinhaça, torta de filtro FINAL 2026 frotanews
BP Bunge Bioenergia R$ 500 milhões Edéia (GO) 66,5 mil m³/dia Vinhaça Jul/2024 (operando) frotanews
BNDES – bp bioenergy R$ 244,9 milhões (financiamento) Edéia (GO) 66,5 mil m³/dia Vinhaça Operando frotanews
Cocal (2ª planta) R$ 241 milhões (solar + biometano) Paraguaçu Paulista (SP) 60 mil m³/dia Resíduos agrícolas Jul/2025 frotanews
EcoGeo R$ 140 milhões Guapó (GO) 100 mil m³/dia Resíduos orgânicos 2026 (para ônibus) abegas+1
Consórcio BRT + GeoGreen R$ 150 milhões Guapó (GO) 100 mil m³/dia Resíduos orgânicos 2026 (500 veículos) investnews
SCBIO Energias Renováveis R$ 8 milhões São Carlos (SP) 4,8 mil m³/dia Resíduos orgânicos urbanos FINAL 2024 frotanews
BNDES – Gás Verde R$ 131,1 milhões (financiamento) Aterros sanitários CO₂ verde + biometano Aterros Primeira usina CO₂ verde frotanews

 

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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