A Frota News esteve em Guarulhos para acompanhar de perto a instalação e inauguração do Posto Avançado de Biometano (PA Biometano) da Jomed Transportes e Logística, desenvolvido em parceria com a Ultragaz. A iniciativa reflete uma tendência nas garagens de grandes frotas, que geralmente já possuem postos de abastecimento de diesel.
Atualmente, a Jomed conta com uma frota de 350 caminhões, sendo 19 movidos a biometano e o restante a diesel. O objetivo central do projeto é transformar a matriz energética da empresa, substituindo gradativamente os veículos movidos a combustível fóssil por novos modelos abastecidos com gás renovável.
“A substituição será gradativa, conforme a renovação da frota”, explicou Carlos Ferreira, gerente de sustentabilidade da transportadora.
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O PA Biometano
A Ultragaz, assim como outras distribuidoras de gás, vem instalando postos internos em grandes empresas, incluindo embarcadores como Natura e PepsiCo. A parceria com a Jomed prevê que a Ultragaz seja a fornecedora exclusiva de biometano para a frota.
A Frota News buscou junto aos executivos da Jomed e da Ultragaz informações sobre os investimentos necessários para que outros transportadores sigam o mesmo caminho. A Jomed afirmou que, por cláusulas contratuais, não pode divulgar valores. Já a Ultragaz evitou detalhar custos para não fornecer informações a concorrentes como Gás Verde (fornecedora da Scania e da L’Oréal), MDC, GBR Dois Arcos, Compagas, GasBrasiliano, Naturgy, Raízen e a finlandesa Neste, que está chegando ao Brasil.
No entanto, a Frota News apurou em outras fontes informações relevantes. Para compreender os investimentos, é preciso comparar com outras tecnologias, como postos tradicionais de diesel e pontos de recarga elétrica.

Comparativo de custos: diesel, elétrico e gás
Um posto de diesel, considerando construção civil, tanques, bombas, sistema de filtragem, licenças, alvarás, taxas da ANP, softwares, entre outros, ultrapassa R$ 500 mil — mas permite abastecer dezenas de caminhões por dia.
Já um ponto de carregamento elétrico para caminhões exige infraestrutura robusta: não se trata de instalar um wallbox simples como em automóveis de passeio. Um PA elétrico para veículos pesados custa, no mínimo, R$ 300 mil para recarregar um caminhão em quatro horas. Para uma frota de 10 veículos, o investimento pode ser multiplicado de cinco a dez vezes, sem contar a necessidade de reforço da rede elétrica pública, que depende de avaliação da concessionária local. A Enel, por exemplo, é uma gigante que está investindo bilhões e, mesmo assim, está com seus clientes insatisfeitos.

No caso do PA a gás, a conta é diferente. A Jomed arcou apenas com os investimentos em construção civil, estimados em mais de R$ 1 milhão, já que não puderam revelar valores exatos devido ao contrato com a Ultragaz, mas deixaram claro que era muitas vezes maior do que um PA para caminhão elétrico.

O maior investimento foi feito pela própria Ultragaz, que forneceu equipamentos e tecnologia em regime de comodato. Em contrapartida, a Jomed se comprometeu a comprar exclusivamente o biometano da distribuidora — modelo comercial semelhante ao de bares que recebiam refrigeradores de cervejarias em troca da venda exclusiva de determinadas marcas.
Receita da Ultragaz com a Jomed
O consumo diário estimado de biometano da frota de 19 caminhões a gás é de 11 mil a 12 mil metros cúbicos (m³), ao preço de R$ 4,69 o m³. Isso representa uma receita de aproximadamente R$ 56,2 mil por dia para a Ultragaz, ou quase R$ 2 milhões por ano.
Naturalmente, existe uma carga tributária pesada: mais de 22% apenas em ICMS e PIS/Cofins, sem contar os impostos indiretos que elevam a tributação total para mais de 40%.
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Além disso, a cadeia produtiva envolve o Aterro de Caieiras, na Grande São Paulo, de onde o gás é extraído pela Usina Biometano Caieiras (Solvi/MDC), projeto financiado com recursos do BNDES via Fundo Clima.
O uso de recursos públicos para fomentar o transporte sustentável não é questionável, mas é direito da sociedade conhecer a origem dos investimentos e os mecanismos de acesso para outros transportadores. Vale destacar que o preço praticado pela Ultragaz não reflete o custo real de mercado, mas sim uma política de apoio governamental ao biometano.
Reconhecimento internacional
A iniciativa da Jomed já vem sendo reconhecida globalmente. Em junho de 2025, a transportadora recebeu o prêmio de Transporte Sustentável no Fórum Ambição 2030, promovido pelo Pacto Global – Rede Brasil (ONU), consolidando-se como referência em práticas ESG no setor.
Resultados já obtidos e projeções
Mesmo antes da inauguração oficial, a Jomed já havia alcançado resultados expressivos:
- 673 mil litros de diesel deixaram de ser consumidos em 2024;
- Isso representou uma redução de 376 toneladas de CO₂ equivalente (tCO₂e) no período.
Com a operação plena do posto, as projeções indicam reduções ainda maiores nos próximos 12 meses, ampliando a contribuição da empresa no combate às mudanças climáticas.


