As duas picapes médias-compactas compartilham a mesma base de engenharia do grupo Stellantis: Fiat Toro e Ram Rampage. A Fiat Toro foi desenvolvida para atuar como alternativa de melhor custo-benefício, enquanto a Ram Rampage ocupa uma posição mais premium. No entanto, há um ponto em que esses “primos pobres e ricos” se encontram em valor: na faixa dos R$ 200 mil, segundo valores médios divulgados em campanhas publicitárias pelas concessionárias — aproximadamente 15% abaixo do preço sugerido pelas marcas. Esse encontro ocorre justamente entre a versão topo de linha da Fiat Toro, a Ranch, e a versão de entrada da Ram Rampage, a Big Horn.
Diante desse cenário, surge o dilema: optar por uma escolha racional e com mais equipamentos de segurança ou se deixar levar pela emoção gerada pela grife? A seguir, detalhamos as diferenças essenciais entre essas duas opções.
O ponto de partida desta análise é fundamental: trata-se de uma comparação entre o topo de uma linha e a base da outra. A Fiat Toro Ranch simboliza o que há de mais sofisticado na gama da fabricante italiana, reunindo acabamento mais simples, amplo pacote tecnológico de segurança e todos os itens de conforto disponíveis para o universo Fiat.
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Por outro lado, a Rampage Big Horn representa o ponto de entrada no universo Ram, trazendo consigo o prestígio do nome e o status de uma picape voltada para um público que valoriza uma grife. Apesar da proposta sofisticada, o nível de equipamentos presentes na Rampage Big Horn é diferente e inferior em comparação à Toro Ranch, evidenciando um perfil a favor de luxo, mas econômica em tecnologias de assistência de condução.
Trem de força
Ambas as picapes compartilham o mesmo trem de força: o motor turbodiesel 2.2, capaz de entregar 200 cv de potência e torque máximo de 450 Nm já a partir de 1.500 rpm. No caso da Toro, há ainda opções flex (gasolina/etanol), equipadas com o motor 1.3 de 176 cv e 270 Nm de torque. Já a Rampage oferece a versão R/T 2.0, que entrega 272 cv e 400 Nm de torque. Para o público que ainda não tem familiaridade com motores a diesel, vale destacar os principais pontos positivos e negativos desse tipo de motorização:
Vantagens (Diesel)
- Economia de combustível: A maior vantagem. O diesel é mais eficiente, resultando em um consumo significativamente menor, especialmente em viagens longas e uso rodoviário. Segundo o Inmetro, o consumo urbano é de 10,5 km/l, e rodoviário de 13,6 km/l. Por outro lado, o preço do litro do diesel, ultimamente, é maior do que o da gasolina, principalmente, do S-10 B15, com 15% de biodiesel, biocombustível mais caro.
- Torque em baixas rotações: O motor a diesel entrega o torque máximo de 450 Nm muito cedo (1.500 rpm), ideal para trabalho pesado, subir ladeiras íngremes ou situações de tração 4×4 off-road.
- Maior autonomia: Devido ao menor consumo, o tanque da Toro proporciona uma autonomia muito superior, reduzindo a frequência de paradas para abastecer. No uso rodoviário, pode rodar 816 km.
- Maior Durabilidade: Motores a diesel são tradicionalmente construídos para serem mais robustos e duráveis, suportando maior quilometragem se a manutenção for feita corretamente.
Desvantagens
- Custo de manutenção mais alto: O motor diesel exige peças e fluídos mais caros (como o Arla 32 em modelos mais recentes) e a mão de obra especializada tende a ser mais cara. Com o novo diesel S-10 B15 requer mais cuidados. O diesel B15, que contém 15% de biodiesel, portanto, mais suscetível à absorção de água, o que pode favorecer a formação de borras, fungos e bactérias no sistema de combustível, causando entupimentos e falhas. Para evitar esses problemas, é essencial manter o tanque sempre abastecido, evitar longos períodos com o combustível parado, utilizar aditivos específicos que protejam o sistema de injeção e realizar manutenções preventivas com regularidade.
- Vibração e ruído: Embora os motores modernos tenham melhorado, o diesel ainda é mais ruidoso e vibra mais que o motor a gasolina, especialmente em marcha lenta.
- Menor desempenho em aceleração: A Toro diesel é mais lenta nas retomadas e na aceleração total quando comparada diretamente com o potente motor a gasolina da Rampage.

Equipamentos e status
Agora, vamos ao comparativo direto entre os itens de série da Fiat Toro e da Ram Rampage. Organizamos em três blocos: itens em comum, exclusivos da Toro e exclusivos da Rampage.
Itens em Comum (presentes nos dois modelos)
- Ar-condicionado digital dual zone
- Apoia braço central e traseiro
- Android Auto e Apple CarPlay sem fio
- Antena Tubarão
- Câmera de ré
- Capota marítima
- Central multimídia grande (Toro 10” / Rampage 12,3”)
- Chave telecomando + Keyless Entry N Go
- Contorno/moldura da grade dianteira cromada
- Controle eletrônico de estabilidade (ESP)
- Faróis Full LED + DRL + função Cornering nos auxiliares
- Freios a disco nas quatro rodas
- Freio de estacionamento eletrônico com função Auto Hold
- Hill Descent Control (HDC)
- Lanternas em LED
- Limitador de velocidade
- Partida remota
- Protetor de cárter
- Quadro de instrumentos digital (Toro 7”/10,3”; Rampage 10,3”)
- Retrovisores externos elétricos, com rebatimento elétrico e luzes de cortesia/direção
- Revestimento parcial em vinil (painel, portas, volante)
- Roda de liga leve (Toro 18” / Rampage 17”)
- Saídas de ar traseiras
- Sensores de estacionamento dianteiro e traseiro
- Sistema de monitoramento da pressão dos pneus (TPMS)
- Assistente de partida em aclives (Start Assist/Hill Holder)
- Tração 4×4 Auto + reduzida
- Transmissão automática de 9 marchas
- Volante em couro com regulagem de altura e profundidade
- 6 Airbags (frontais, laterais e de cortina dianteiros/traseiros)
- Portas USB (Toro não especifica quantidade; Rampage traz 6, sendo 3 tipo C)
- Wireless Charger
Exclusivos da Fiat Toro
- ADAS: Frenagem autônoma de emergência (AEB), Aviso de saída de faixa (LDW), Comutação automática do farol alto (AHB)
- Santo Antônio cromado
- Estribos laterais cromados
- Friso lateral cromado
- Grade dianteira cromada com logo Fiat Flag
- Câmera de ré + sensores com integração visual no cluster
- Iluminação ambiente no assoalho (LED ambient lights)
- Paddle-shifters no volante
- Para-choques com pintura parcial/cromados e soleira cromada traseira
- Piloto automático com controlador de velocidade adaptativo (dependendo da versão ADAS)
- Revestimento esportivo da coluna central das portas
- Rodas 18” com pneus ATR (225/60 R18)
- Sistema Fiat Connect/// Me (conectividade ampliada)
- Wireless Charger
Exclusivos da Ram Rampage
- Abertura remota da tampa traseira
- Ajuste elétrico de altura do farol
- Central multimídia maior (12,3”)
- Quadro de instrumentos Full Digital 10,3”
- Iluminação interna de caçamba em LED
- Tampa traseira amortecida
- Seletor rotativo de marchas (ao estilo RAM 1500)
- Sistema eletrônico de mitigação de rolagem da carroceria
Mercado: Rampage é mais lucrativa para fabricante e rede
A Stellantis não divulga os números de vendas por versões, mas a Fenabrave (entidade que representa as concessionárias) divulga os números de emplacamentos, incluindo todas as versões. Mesmo a Rampage ter emplacado pouco mais de 15 mil unidades, metade da quantidade Toro (mais de 30 mil) nos oito meses de 2025, a Rampage, proporcionalmente ao tamanho da rede e o preço, é um veículo que faz mais sucesso do que a prima primogênita.
Considerando que a rede RAM conta com pouco mais de 100 unidades, podemos considerar que a venda média em 2025 (até agosto) foi de 150 unidades por concessionária. No caso da Toro, a entrega média por revenda foi 60 picapes Toro, considerando uma rede com cerca de 500 endereços.
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Com base nos números de emplacamentos de 15 mil Rampage, fazendo uma conta por baixo (ticket médio de 226 mil para a versão de entrada), o modelo de grife garantiu um faturamento de R$ 3,4 bilhões para Stellantis. No caso da Toro, também considerando a venda de 15 mil unidades da versão básica (R$ 159 mil), foi gerado um faturamento de R$ 2,4 bilhões para a fabricante. Portanto, a Rampage garante um faturamento de R$ 1 bilhão a mais para a Stellantis graças à grife do carneiro e o status gerado por ela.
Conclusão
Para os fãs de RAM raiz, a Rampage sempre será uma Fiat Toro com traje emprestado da marca americana. E, no fim das contas, o dilema dos R$ 200 mil entre Toro Ranche Rampage Big Horn se resume mais ao coração do que à razão. A Toro entrega mais equipamentos de segurança e tecnologia embarcada, com direito a pacote ADAS que a Rampage esconde para vender nas versões mais caras. Já a Big Horn, apesar de ser a “porta de entrada” da RAM, carrega no emblema o peso da grife americana e um charme que seduz quem gosta de ostentar na vaga do shopping.
Em termos de engenharia, elas são praticamente gêmeas. O motor diesel 2.2 faz o mesmo trabalho nas duas, com economia, robustez e aquele ruído característico que incomoda uns e dá status de “bruta” para outros. A diferença está na estratégia: a Fiat joga com a racionalidade do custo-benefício, enquanto a RAM vende o prestígio da marca.
Portanto, a escolha é simples: se você quer mais conteúdo e não liga para a pompa, a Toro Ranch é a opção mais sensata. Mas se a vaidade falar mais alto e o desejo for desfilar com o carneiro estampado na grade, prepare-se para renunciar a alguns recursos e aceitar pagar mais pela assinatura da marca. Afinal, como sempre, no mundo automotivo, emoção custa caro.


