Entender a entrega de mais de 5.700 caminhões elétricos pela Volvo Trucks em 50 países é preciso entender as iniciativas dos embarcadores em cada país, principais decisores das decisões de investimentos na transição energética. A Frota News traz mais dois cases internacionais de embarcadores que estão investindo nos caminhões elétricos da marca sueca. Lógico que, em cada país, o embarcador não só leva em consideração as questões tecnológicas, mas por um conjunto de fatores estruturais: infraestrutura de recarga insuficiente, custo elevado de aquisição, falta de incentivos fiscais e modelos de negócio pouco adaptados à realidade dos frotistas brasileiros.
Casos de sucesso na Austrália mostram o caminho
Na Austrália, um mercado comparável ao brasileiro em extensão territorial e dependência do transporte rodoviário, a transição elétrica começa a ganhar corpo. O grupo logístico Toll, em parceria com a Coca-Cola Europacific Partners (CCEP), anunciou a segunda fase de um programa de US$ 67 milhões (cerca de R$ 375 milhões) para a eletrificação da frota de distribuição de bebidas.
O projeto inclui 12 caminhões rígidos Volvo FM Electric, com capacidade para 12 paletes e autonomia de até 270 km, que substituirão veículos a diesel nas operações urbanas de distribuição. O investimento, cofinanciado pela Agência Australiana de Energia Renovável (ARENA), prevê ainda estações de recarga dedicadas nos centros de distribuição da Coca-Cola em quatro estados australianos.
-
Leia também:
- Entrevista: A gestão de segurança da frota de 11 mil veículos da Coca-Cola Femsa Brasil
- Toyota Hiace: a nova van como investimento estratégico para empreendedores
“Este projeto prova que é possível unir sustentabilidade, confiabilidade e performance operacional”, afirmou Nick Vrckovski, presidente da divisão de varejo e consumo da Toll.
“Com o apoio de nossos clientes e do governo, estamos construindo o maior programa de caminhões elétricos do setor privado australiano”, completou.
IKEA aposta em leasing para viabilizar a eletrificação

Outro exemplo vem da IKEA Austrália, que incorporou quatro caminhões Volvo FL Electric de longa distância ao seu programa de entregas domésticas. O objetivo é atingir 100% de entregas com zero emissão — meta que já alcança 84% das rotas em áreas metropolitanas.
- Reiter Log é a primeira cliente dos Volvo FM Electric no Brasil
- Scania patina na transição para caminhões elétricos na Europa, enquanto Scania Brasil tem sucesso com biometano
A inovação não está apenas nos veículos, mas no modelo de negócio: a IKEA firmou parceria com a CarBon Leasing e a operadora ANC Delivers para oferecer caminhões elétricos em regime de leasing, removendo a principal barreira à eletrificação — o alto custo inicial de aquisição.
O programa inclui manutenção, recarga e até relatórios de emissões de CO₂, facilitando o acesso dos pequenos transportadores que representam 98% do setor de entregas australiano.
Os novos caminhões Volvo FL têm autonomia de até 450 km e capacidade para 5,5 toneladas, e já acumularam mais de 1 milhão de quilômetros rodados no país. Além disso, a IKEA investiu US$ 4,5 milhões em infraestrutura de recarga, um dos gargalos ainda críticos para a expansão da frota elétrica.
Realidades distintas, lições em comum
Os exemplos australianos mostram que o avanço da mobilidade elétrica depende de uma tríade essencial:
- Incentivos governamentais, que reduzam o custo inicial e fomentem a infraestrutura;
- Modelos colaborativos, que integrem montadoras, operadores logísticos e clientes;
- Planejamento energético, garantindo a disponibilidade de energia limpa e estável.
No Brasil, esse ecossistema ainda está em formação. A ausência de linhas de crédito específicas e falta de clareza regulatória sobre recarga e tarifação elétrica dificultam a tomada de decisão dos gestores de frota. Além disso, o perfil operacional do transporte de cargas — com longas distâncias e poucos pontos de parada equipados — torna a eletrificação viável apenas em operações urbanas ou regionais de curta distância.
O que o gestor de frota precisa observar
Para quem lidera frotas comerciais no Brasil, a transição energética não é mais uma questão de se, mas de quando — e como. Ainda que o elétrico puro não seja uma solução imediata para todos os perfis de operação, projetos-piloto urbanos, híbridos, e testes com combustíveis alternativos, como biometano e HVO (diesel renovável), podem preparar o caminho para uma frota de baixo carbono.
A experiência internacional mostra que o futuro não será movido apenas a eletricidade, mas sim por uma combinação inteligente de tecnologias — e que o sucesso virá para quem começar a planejar agora.
“Cada país vive sua própria transição. No Brasil, será mais gradual, mas inevitável. A questão é estar pronto para quando a infraestrutura chegar”, resume um executivo do setor automotivo.


