Entregando o volante: Após 25 anos na DAF Trucks, incluindo quatro anos como presidente e CEO, Harald Seidel está deixando a empresa. Ele sai com um toque de nostalgia, mas sua decisão foi cuidadosamente ponderada. “Conquistamos muita coisa juntos. Agora é hora do próximo capítulo.”
Por Arjan Velthoven, TTM.nl
A ideia para esta entrevista parecia simples. Iríamos até a sede da DAF em Eindhoven, onde um belo caminhão DAF estaria nos esperando para um passeio panorâmico — durante o qual entrevistaríamos o CEO que está de saída, Harald Seidel. Seria perfeito capturar Seidel ao volante, concentrado na estrada enquanto compartilha seus pensamentos.
Mas as coisas aconteceram de forma bem diferente. Quem acabou ao volante fomos nós, com Seidel no banco do passageiro — porque o “funcionário número um” da DAF não tem carteira de motorista para caminhão.
Você foi presidente de todos os colaboradores da DAF por quatro anos, integrou o board por nove anos, e ainda assim não tem habilitação categoria C. Como isso é possível, Sr. Seidel?
“Durante muitos anos isso esteve entre minhas boas intenções, porque você realmente deveria ser capaz de dirigir seus próprios produtos. Mas a falta de tempo foi o principal motivo de nunca ter acontecido. Olhando agora, eu realmente me arrependo.”
Como o senhor descreve o estado da DAF Trucks ao deixar a empresa?
“Extremamente bom. Temos uma equipe forte, preparada para o futuro. Com a linha completa da Nova Geração DAF, do XD ao XG+, a maior cabine da indústria e um portfólio totalmente zero emissões, a DAF está numa posição excelente.
Os últimos quatro anos foram totalmente dedicados à eletrificação para mim. Quando comecei, havia basicamente um plano. Depois lançamos a fábrica de montagem de caminhões elétricos, desenvolvemos ainda mais nossos modelos, iniciamos a produção e aprendemos — junto com concessionários e clientes — como o transporte elétrico realmente funciona. Vai muito além de simplesmente vender um caminhão. Hoje, você vende uma solução completa. Analisa infraestrutura de recarga, gestão de energia, o business case e como o transportador precisa adaptar toda a sua operação. Passamos por esse processo de aprendizado junto com nossos clientes.”
Qual considera seu maior sucesso como presidente?
“Receber o prêmio International Truck of the Year duas vezes. Na primeira, pensei que era algo que você provavelmente vive apenas uma vez na vida. Quando aconteceu pela segunda vez, foi uma confirmação enorme da força inovadora e da qualidade da DAF.
Mas, no fim das contas, não é um prêmio pessoal. É reconhecimento para toda a equipe DAF. Todos contribuíram. Isso provavelmente é o que mais me orgulha.”

E qual foi a parte mais difícil?
“Os momentos em que você precisa desapontar clientes. Trilhamos um caminho de tentativa e erro com nossos caminhões elétricos. Em certo ponto, decidimos deliberadamente adiar a produção em série porque a qualidade ainda não estava onde deveria. Então você precisa dizer aos clientes que o caminhão deles chegará mais tarde do que o combinado. Não são conversas agradáveis.
Por isso, visitei pessoalmente vários clientes para explicar por que tomamos aquela decisão. Hoje, vejo esses mesmos clientes encomendando mais caminhões elétricos DAF. Isso mostra que o atraso foi, no fim, a escolha certa.”
O senhor atuou na RAI Association (entidade que defente os interesses dos usuários das vias públicas) e anteriormente na ACEA (associação dos fabricantes). Como vê o mercado europeu de caminhões?
“Vejo um mercado saudável, mas também um setor sob enorme pressão. Transportadores enfrentam custos altos, regulamentação extensa e um desafio gigantesco de sustentabilidade. Ao mesmo tempo, na minha visão, ainda recebem pouco reconhecimento. Sempre digo que o transporte rodoviário é a linha vital da nossa economia. Sem caminhões, as prateleiras dos supermercados ficariam vazias e a indústria pararia. Essa consciência merece muito mais valorização.
A profissão de motorista também merece maior reconhecimento social.
Além disso, a indústria automotiva europeia está sob enorme pressão. Estamos investindo bilhões em novas tecnologias e sustentabilidade. Apoiamo totalmente esses objetivos, mas os fabricantes não conseguem entregar essa transição sozinhos.”
O que o senhor mais gostaria que mudasse no setor de caminhões e transporte?
“As condições estruturais precisam melhorar muito mais rápido. Os caminhões elétricos já estão aqui. Agora o business case para os transportadores e a infraestrutura de recarga precisam acompanhar. Não se alcança sustentabilidade com apenas algumas estações de carregamento ao longo das rodovias. Governos, empresas de energia e indústria precisam trabalhar juntos de forma muito mais intensa.
Também espero que, em Bruxelas, a competitividade da manufatura europeia seja considerada tão importante quanto as metas de sustentabilidade. As duas precisam andar juntas.”
Sua saída quebra uma tradição. Muitos Presidentes da DAF seguiram para a PACCAR nos Estados Unidos. O senhor não.
“A oportunidade certamente existia. Eu também teria gostado de trabalhar nos Estados Unidos por alguns anos. Mas, no fim, minha situação familiar foi decisiva.
Quatro anos atrás, eu esperava que, agora, todos os nossos filhos já estivessem vivendo de forma independente. Um ano atrás, ficou claro que dois dos três ainda estavam em casa — e que, na verdade, precisamos muito uns dos outros nesta fase da vida. Para mim, a família sempre vem primeiro. Eu fico feliz quando minha família está feliz.”
O senhor conseguia se desligar do trabalho?
“Sim, eu era até bastante bom nisso. Quando eu fechava a porta do escritório, minha mente ficava livre. Claro, muito é esperado de você. Você está quase sempre ‘ligado’. Mas sempre consegui manter meu trabalho em perspectiva. Isso vem, em parte, da minha formação católica e dos valores que ela traz. Nunca dei muita importância a status, dinheiro ou poder. Sempre me interessei mais pela humildade e por servir aos outros.”
Então o senhor não vai para a PACCAR. Está se aposentando?
“Formalmente, estou me aposentando antecipadamente e encerrando minha carreira na DAF. Mas certamente não vou ficar de braços cruzados. Há várias oportunidades interessantes surgindo, tanto executivas quanto não executivas. Com certeza vou assumir algo novo, mas deliberadamente fora do setor automotivo ou de transporte.
Minha primeira prioridade foi dedicar toda minha atenção a garantir uma transição suave para meu sucessor. Em breve vocês saberão o que vem depois.”
O que o senhor deseja ao novo presidente da DAF, Jim Walenczak, e à DAF Trucks?
“Espero que a DAF permaneça fiel à sua cultura única. A DAF foi fundada por dois irmãos: um trouxe inovação, o outro empreendedorismo. Essa combinação ainda está no DNA da empresa hoje. Mesmo que a família Van Doorne não seja proprietária há muitos anos, a DAF ainda parece uma empresa familiar. As pessoas cuidam umas das outras, se ajudam e fazem tudo juntas pelo cliente.
Isso ficou claro durante a crise dos semicondutores, quando todos pensaram de forma criativa para manter a produção funcionando. Desejo ao Jim todo sucesso em fortalecer essa cultura enquanto a DAF caminha para seu 100º aniversário em 2028. É justamente essa combinação de inovação, empreendedorismo e união que torna a DAF Trucks especial.”
O senhor sempre se considerará um homem da DAF, mesmo depois de sair?
“Absolutamente. Depois de 25 anos, você nunca realmente deixa uma empresa como esta para trás. A DAF sempre terá um lugar no meu coração.”
Em entrevistas anteriores, o senhor parecia ter um catálogo inteiro de ditados e palavras de sabedoria. Tem uma última frase para nossos leitores?
Seidel ri brevemente antes de responder sem hesitar:
“No momento em que você acha que sabe tudo, você para de aprender.”
“Eu vivi isso pessoalmente. Quando era CFO, achava que conhecia a DAF de cabo a rabo. Mas quando me tornei Presidente, um mundo completamente novo se abriu: fábricas, concessionários, clientes. Você só aprende quando continua ouvindo.
O mesmo vale para o desenvolvimento dos nossos caminhões. Um dos maiores elogios que já recebi veio de um transportador que integra nosso conselho consultivo de clientes. Ele entrou na Nova Geração DAF e disse: ‘Vocês realmente nos ouviram.’ Talvez essa seja a lição mais importante que levo comigo.
Permaneça curioso. Continue ouvindo. Porque só assim você continua melhorando.”
Leia também:
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, TikTok, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast



