A Vamos, empresa de locação de caminhões, máquinas e equipamentos, está iniciando a transformação de caminhões a diesel para operação com gás natural fóssil ou gás renovável (biometano), em um projeto de retrofit conduzido pela BMB, companhia do grupo especializada em customização de veículos pesados. A solução utiliza motorização e sistemas desenvolvidos pela MWM, subsidiária da Tupy, tecnologia já aplicada em frotas de grupos como Sada, Cocal, PepsiCo e Tegma, entre outros usuários de caminhões a gás.
O investimento da Vamos no projeto soma R$ 150 milhões, com a previsão de transformação de 100 caminhões pela BMB, que deverão ser entregues até o fim do primeiro trimestre deste ano para operação na limpeza urbana do Rio de Janeiro. Considerando veículo mais retrofit e implemento, o valor médio por unidade é de R$ 1,5 milhão. A título de curiosidade, um Scania G 340 4×2 a gás, hoje na casa de R$ 1.196.090; e um G-410 6×2, R$ 1.299.357, segundo a Fipe.
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Quanto custa transformar o caminhão
No nível do caminhão individual, o custo do retrofit para substituição da motorização a diesel por solução MWM a gás varia entre R$ 200 mil e R$ 300 mil por unidade, de acordo com a potência do motor (máxima de 330 cv) e a quantidade de cilindros instalada para armazenamento do gás. Esses valores se referem apenas ao processo de conversão (motor, sistemas de gás e integração), sem incluir o preço do caminhão base, que compõe o pacote final.
A combinação entre custo de capital e economia operacional mira o TCO (custo total de propriedade) de frotas de alta quilometragem, em que o payback da conversão tende a ocorrer entre 1 e 3 anos quando há uso intensivo e boa oferta de gás, principalmente em soluções dual fuel ou 100% gás com contratos estruturados com concessionárias. Estudos e pilotos com pesados a gás indicam redução de 10% a 15% no custo por quilômetro rodado, podendo chegar a até 50% em cenários dual fuel com alta substituição de diesel por GNV, segundo a Abiogás.
Como é feita a transformação na BMB
A transformação dos veículos ocorre na unidade da BMB em Porto Real (RJ), em um fluxo industrial que espelha a lógica de linha de montagem, porém com foco em retrofit e customização para aplicação urbana. O processo envolve a retirada do motor original a diesel e instalação de um motor MWM dedicado a gás natural/biometano, adequações estruturais no entre‑eixos para receber os cilindros, desenvolvimento de peças de interface e integração do sistema eletrônico de controle, seguido de testes de desempenho e rodagem em rodovias.
A MWM responde pela arquitetura técnica do produto, que inclui o motor a gás, o sistema de armazenamento (cilindros, suportes, válvulas e linhas) e a integração com o veículo, assegurando conformidade com requisitos de segurança, durabilidade e as normas mais restritivas de emissões. Um diferencial do pacote é a calibração customizada dos motores, ajustada para diferentes rotas e ciclos operacionais, o que permite otimizar consumo, reduzir emissões e adequar desempenho às exigências da coleta urbana no Rio de Janeiro.
Benefícios ambientais e operacionais
Os caminhões retrofitados mantêm desempenho equivalente aos modelos a diesel, segundo as empresas envolvidas no projeto, mas com redução expressiva de gases de efeito estufa e ganhos relevantes de eficiência. Em cenários de operação com biometano, a redução de CO₂ pode chegar a cerca de 90% na comparação com o diesel, com queda de até 99% no material particulado e diminuição de aproximadamente 20% no nível de ruído, atributo importante para serviços urbanos em áreas residenciais.
Esses resultados se somam à lógica de economia circular, ao aproveitar o biometano gerado a partir de resíduos para abastecer os próprios veículos que fazem a coleta, conceito que já aparece em projetos de frotas urbanas de lixo no Brasil. O uso do GNV, por ser de origem fóssil, deve ser utilizado apenas na falta do biometano.
Atores envolvidos e contexto de mercado
A iniciativa da Vamos tem participação direta da Comlurb, companhia de limpeza urbana do Rio de Janeiro, responsável pelos serviços de coleta de resíduos, e da Força Ambiental, empresa terceirizada que fornece os veículos e opera a frota na cidade. As duas organizações já receberam as primeiras unidades a gás e atuam como vitrine de aplicação real do retrofit em escala, com foco em renovação de frota e cumprimento de metas ambientais nos contratos públicos.
Hoje, o mercado de retrofit de caminhões pesados a diesel para gás no Brasil ainda é concentrado e majoritariamente B2B, com poucos atores diretamente posicionados na conversão. Além da MWM, que lidera projetos de substituição completa de motor para operação 100% a gás, empresas como Tecnogás GNV e Convergas Fuel Systems atuam em soluções de GNV pesado e integração de sistemas de gás, inclusive em projetos dual fuel em parceria com frotistas, concessionárias e distribuidoras regionais de gás.
Principais players em retrofit de caminhões a gás
| Tipo de solução | Empresa | Foco principal |
|---|---|---|
| Retrofit completo (troca de motor) | MWM (Tupy) | Motores 100% gás/biometano, sistemas de armazenamento, homologação e integração. |
| Kits e sistemas GNV para pesados | Tecnogás GNV | Instalação de kits GNV e soluções para frotas leves, médias e pesadas. |
| Integração de sistemas de gás | Convergas Fuel Systems | Engenharia e integração de gás natural e biometano em projetos com frotistas. |
| Projetos com montadoras/frotistas | PepsiCo + MWM | Caminhão semileve diesel convertido para 100% gás/biometano. |
| Projetos dual fuel (diesel + GNV) | Frotas como Tegma | Operações híbridas com alta taxa de substituição de diesel por gás. |


