quinta-feira, janeiro 29, 2026

Promessas no papel, gargalos no asfalto: até onde o plano do governo consegue enfrentar o custo Brasil na logística

Por anos, o chamado custo Brasil foi tratado como um conceito difuso, quase abstrato. Agora, o governo federal tenta reposicionar o tema como um problema objetivo, mensurável e diretamente ligado à competitividade das cadeias produtivas. As declarações do secretário-executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, e publicadas pelo SETCESP (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de São Paulo e Região) reforçam essa mudança de discurso: logística passou a ser tratada como política econômica. Para gestores de frotas, operadores logísticos e embarcadores, a pergunta central é outra — o quanto as promessas anunciadas dialogam com os problemas reais enfrentados diariamente nas estradas, nos acessos portuários e na formação do custo do frete?

O diagnóstico está correto — e não é novo

O ponto de partida do governo é amplamente conhecido pelo setor. O Brasil não tem como não depender excessivamente do transporte rodoviário, opera com corredores saturados e carece de alternativas modais que gerem alternativas reais para algumas rotas, já que é impossível ter ferrovias para 5.570 municípios e 931 mil endereços com CEP. Mas há como melhorar a infraestrutura nas rotas de grande volume de cargas fechadas.

O exemplo citado por Santoro — o custo de levar uma carga de Sinop (MT) até o Porto de Santos supera o frete marítimo até a China — não surpreende quem opera no dia a dia.

Para o gestor de frota, essa distorção aparece na prática em forma de:
  • consumo elevado de combustível,
  • tempo improdutivo do veículo,
  • aumento de custo de manutenção,
  • risco operacional maior,
  • seguros mais caros,
  • necessidade de frota reserva para compensar atrasos.

Ou seja, o custo Brasil não está apenas no pedágio ou no diesel, mas na imprevisibilidade estrutural da operação.

Corredores logísticos: promessa antiga, execução lenta

A ênfase do governo na reorganização de corredores logísticos é correta do ponto de vista técnico. A BR-163 é um exemplo emblemático. Na safra, o fluxo contínuo de caminhões transforma a rodovia em um “comboio informal”, como descreveu o secretário. Para o transportador, isso significa filas, horas de motor ligado, desgaste de pneus e motoristas fora do ciclo ideal de jornada.

A promessa de duplicações no Mato Grosso, terceira faixa no Pará e a criação de uma alternativa ferroviária com a Ferrogrão responde ao problema estrutural. No entanto, há um descompasso claro entre o horizonte dessas obras e a urgência do setor. Mesmo com avanços no Supremo Tribunal Federal, a Ferrogrão ainda é um projeto de médio e longo prazo, enquanto o custo logístico é pago diariamente.

Para quem gerencia frota, isso significa continuar operando em um ambiente onde o planejamento é constantemente refeito por fatores fora do controle do operador.

Régis Bittencourt: imprevisibilidade que não entra na planilha

A Régis Bittencourt talvez seja o exemplo mais claro da diferença entre tarifa e custo real. Os 52 dias de interrupção acumulados em um ano, citados por Santoro, não aparecem na tabela de pedágio, mas impactam diretamente:

  • cumprimento de contratos,
  • janelas de entrega,
  • custos com estadia,
  • multas por atraso,
  • desgaste da relação com o cliente final.

O redesenho do projeto para separar tráfego local e de longa distância é tecnicamente consistente e atende a uma demanda antiga do setor. A questão, novamente, é o tempo. Enquanto os projetos não saem do papel, o operador precisa absorver riscos que não são precificados de forma transparente no frete.

Portos: gargalo fora do radar do caminhoneiro, mas dentro do custo

Ao trazer os acessos portuários para o centro do debate, o governo toca em outro ponto sensível. Conflitos entre ferrovia, rodovia e áreas urbanas, como no Porto de São Francisco do Sul, mostram que resolver apenas o eixo rodoviário não elimina o gargalo.

Para a logística rodoviária, isso se traduz em filas externas, pátios improvisados, aumento do tempo de ciclo do veículo e perda de produtividade da frota. A defesa de uma visão integrada — rodovia, ferrovia, porto e hidrovia — é coerente, mas exige coordenação entre diferentes níveis de governo, concessionárias e operadores, algo historicamente difícil no Brasil.

Competição entre modais: promessa estrutural, impacto gradual

A ampliação da competição entre modais é, talvez, a promessa mais estruturante — e a mais lenta em termos de resultado. No curto prazo, o gestor de frota não verá uma redução imediata de custo apenas pela expectativa de novas ferrovias ou hidrovias. No médio e longo prazo, porém, a existência de alternativas tende a:

  • reduzir a pressão sobre o transporte rodoviário,
  • equilibrar tarifas,
  • permitir especialização da frota em trechos mais eficientes.

Hoje, como o próprio secretário admite, muitas empresas transportam a própria carga por falta de opção competitiva. Isso distorce o mercado e limita ganhos de eficiência.

Plano Nacional de Logística: avanço conceitual, desafio operacional

A revisão do Plano Nacional de Logística com base em dados reais de origem e destino de cargas é um avanço importante. Para o setor, trabalhar com o conceito de corredor logístico — e não apenas com trechos isolados — aproxima o planejamento público da realidade operacional.

A consulta a grandes agentes do mercado também indica uma tentativa de alinhar expectativa e investimento. O desafio será transformar esse diagnóstico qualificado em obras entregues, contratos estáveis e previsibilidade regulatória.

Entre a promessa e o frete pago no fim do mês

Do ponto de vista do gestor de frotas e operadores logísticos, o discurso do governo acerta ao reconhecer que o custo Brasil é, sobretudo, um problema de previsibilidade e eficiência. As promessas — corredores logísticos, integração modal, ampliação de capacidade e uso intensivo de dados — vão na direção correta.

O risco está no tempo de maturação dessas políticas frente à urgência do setor. Enquanto projetos estruturantes avançam lentamente, o transporte segue absorvendo custos elevados, riscos operacionais e margens comprimidas.

Reduzir o custo Brasil não será resultado de uma obra ou leilão isolado, mas de uma sequência consistente de entregas. Até lá, a logística brasileira seguirá operando entre a promessa de eficiência futura e a realidade de um frete pressionado no presente.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para os setores de gesstão de frotas, transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

- Publicidade -
- Publicidade -
Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
- Publicidade -

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Últimas notícias
você pode gostar:

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui