quarta-feira, janeiro 28, 2026

Segurança embarcada: o que a indústria brasileira de implementos rodoviários pode aprender com o movimento global

A indústria global de fabricação de reboques atravessa um período de consolidação acelerada. Mas, paralelamente à busca por escala e eficiência produtiva, um novo eixo estratégico vem ganhando protagonismo: a segurança dos ativos ao longo de toda a cadeia logística. Do chão de fábrica aos pátios de cargas, garantir integridade, rastreabilidade e proteção de reboques e mercadorias de alto valor tornou-se uma prioridade industrial — e não apenas operacional. É nesse ponto que surgem lições relevantes para a indústria brasileira de implementos rodoviários.

Os dados internacionais ajudam a dimensionar o problema. Segundo a Transported Asset Protection Association (TAPA), o crime relacionado a cargas custa mais de € 8,2 bilhões por ano — algo em torno de R$ 53,4 bilhões — às empresas na Europa. Apenas na Alemanha, as perdas ultrapassam € 2,2 bilhões anuais, o equivalente a cerca de R$ 14,3 bilhões, associadas a aproximadamente 26 mil ataques a caminhões. No Brasil, o cenário também é crítico: foram registrados 10.478 roubos de carga em 2024, gerando prejuízos estimados em R$ 1,2 bilhão.

Esse cenário explica por que a segurança deixou de ser um “acessório” e passou a ser tratada como atributo de projeto pelos grandes OEMs globais de reboques.

Leia também

Segurança desde o design: uma mudança de paradigma

No mercado internacional, a resposta tem sido clara: incorporar tecnologias de segurança diretamente no processo de fabricação do implemento. Fechaduras inteligentes, controle de acesso digital, sensores embarcados, telemática integrada e geofencing já não são diferenciais — caminham para se tornar padrão.

As fechaduras inteligentes comerciais para trailers utilizam conectividade sem fio (Bluetooth, Wi-Fi ou redes celulares), permitindo travamento e destravamento remoto, autenticação por PIN, RFID ou biometria, além do registro de eventos e tentativas de violação. Integradas a plataformas telemáticas, essas soluções substituem sistemas mecânicos tradicionais — como lacres descartáveis e cadeados — reconhecidamente vulneráveis à adulteração.

De acordo com a Market Intelo, o mercado global de fechaduras inteligentes para trailers foi avaliado em US$ 1,2 bilhão em 2024, o que corresponde a cerca de R$ 6,65 bilhões, e pode chegar a US$ 4,3 bilhões até 2033, equivalente a aproximadamente R$ 23,8 bilhões, considerando a cotação atual. A digitalização dos negócios, o avanço da IoT, o aumento do roubo de cargas e exigências regulatórias mais rígidas estão entre os principais vetores dessa expansão.

Casos globais: quando o trailer vira um ativo conectado

Fabricantes europeus ilustram bem essa tendência. A Schmitz Cargobull, por exemplo, lançou o sistema eletrônico de travamento TL4, integrado à plataforma telemática TrailerConnect. A solução permite configurar geofences de embarque e desembarque, destravando ou travando automaticamente as portas conforme a localização do reboque. Todos os eventos ficam documentados, criando uma trilha digital de custódia da carga.

Já a Krone aposta em digitalização ampla da operação com o KRONE Smart Assistant e a plataforma mykrone.blue. Cada trailer recebe um QR Code individual, permitindo que motoristas, via smartphone e aplicativos de mensagens, reportem avarias, realizem checklists legais de saída e acessem documentos técnicos em tempo real. O foco declarado é reduzir tempo de inatividade e melhorar o custo total de propriedade (TCO).

Empresas como TIP Group e Idem Telematics reforçam essa abordagem ao tratar a telemática como núcleo do gerenciamento de implementos, integrando sensores de portas, temperatura, pneus e unidades de refrigeração sem necessidade de hubs intermediários. Para esses players, conectividade e dados em tempo real são a base para uma gestão proativa, e não reativa, da frota.

América do Norte e Ásia aceleram — e pressionam padrões globais

Os Estados Unidos lideram a adoção de fechaduras inteligentes para implementos, com cerca de 38% da participação global. Já a Ásia-Pacífico deve registrar o maior crescimento até 2033, impulsionada pelo comércio eletrônico, urbanização e investimentos em infraestrutura. Esse avanço tende a pressionar cadeias globais por maior padronização tecnológica, interoperabilidade e segurança “by design”.

Para a indústria brasileira de implementos rodoviários, que já disputa mercados externos e atende operadores logísticos cada vez mais sofisticados, essa mudança de padrão global é um alerta claro: segurança embarcada e conectividade deixarão de ser opcionais.

E no Brasil? Há sinais de convergência

Embora o mercado brasileiro ainda esteja em estágio menos avançado em comparação à Europa e aos EUA, já existem exemplos relevantes de tecnologias alinhadas a esse movimento global. Fabricantes nacionais de implementos e sistemistas vêm ampliando a oferta de soluções telemáticas embarcadas, sensores de portas, rastreamento via GPS e integração com plataformas de gestão de frotas.

Empresas brasileiras de rastreamento e telemetria oferecem hoje soluções com monitoramento em tempo real, alertas de abertura indevida de portas, geofencing e integração com TMS e ERPs logísticos. No segmento de implementos frigorificados, sensores de temperatura e abertura de portas já são utilizados por grandes operadores para atender exigências de seguradoras e embarcadores.

Além disso, iniciativas voltadas à serialização de componentes, uso de QR Codes para rastreabilidade de chassi e peças, e integração com sistemas antifurto mostram que o ecossistema nacional começa a absorver conceitos semelhantes aos adotados por OEMs globais — ainda que, em muitos casos, como soluções adicionadas após a fabricação, e não incorporadas desde o projeto.

O desafio brasileiro: ir além do “acessório”

A principal lição da indústria global não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como ela é tratada. No exterior, segurança, conectividade e cibersegurança são pensadas desde o design do implemento, integradas à arquitetura elétrica, eletrônica e de dados do semirreboque.

No Brasil, o desafio é avançar desse modelo “plug-and-play” para uma abordagem mais estrutural, em que implementos já saiam de fábrica preparados para integração telemática, controle de acesso digital e atualização remota de sistemas. Isso inclui, necessariamente, atenção à cibersegurança — tema que ganha peso à medida que trailers se tornam ativos conectados.

Relatórios recentes da Maersk, da NMFTA e da Gartner apontam que ataques cibernéticos, phishing com uso de IA e exploração de vulnerabilidades em sistemas conectados serão um dos maiores riscos logísticos nos próximos anos. Para fabricantes de implementos, isso significa adotar o conceito de secure by design, com maior transparência sobre dispositivos embarcados, controle de acesso e proteção de dados.

Um novo posicionamento estratégico

A indústria brasileira de implementos rodoviários tem tradição em engenharia, adaptação a condições severas e competitividade de custos. Ao observar o movimento global, fica claro que o próximo passo estratégico passa pela incorporação da inteligência digital e da segurança como atributos centrais do produto.

Mais do que atender exigências de seguradoras ou grandes embarcadores, investir em trailers conectados, seguros e integrados pode se tornar um diferencial competitivo — inclusive para exportação. O exemplo internacional mostra que, em um mercado cada vez mais orientado por dados, quem vende apenas aço e solda tende a perder espaço para quem entrega ativos inteligentes, rastreáveis e seguros ao longo de todo o ciclo logístico.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast
- Publicidade -
- Publicidade -
Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
- Publicidade -

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Últimas notícias
você pode gostar:

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui