A Natura inaugurou, em parceria com a Ultragaz, uma unidade interna de abastecimento de biometano em seu complexo industrial de Cajamar (SP). O gás renovável passa a atender simultaneamente as caldeiras da fábrica e a frota de 28 caminhões que opera no circuito logístico da marca na região metropolitana de São Paulo, por meio dos operadores logísticos Coopercarga e Reiter Log.
O projeto com a Ultragaz nasceu da construção de uma central de armazenagem e distribuição de biometano para substituir combustíveis fósseis (gás natural veicular e diesel) na logística de carga em São Paulo e etanol nas caldeiras em Cajamar. A operação, prevista originalmente para iniciar em maio de 2025, evoluiu para a inauguração de um posto interno dedicado, instalado dentro do complexo de Cajamar, que abastece a frota e a produção com o mesmo combustível renovável.
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Com a entrada em operação plena, o biometano passa a representar cerca de 45% da energia utilizada nos processos produtivos do site de Cajamar, a maior unidade industrial da Natura na América Latina. O contrato prevê o consumo de aproximadamente 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano por ano, volume suficiente para suprir as caldeiras e abastecer 28 caminhões que operam em circuito entre centros de distribuição e fornecedores dentro do estado paulista.
Segundo dados da empresa, o uso de biometano nessa escala permite reduzir até cerca de 1,3 mil toneladas de CO₂ por ano, o equivalente a retirar aproximadamente 280 carros de passeio das ruas todos os dias. Na frota, a substituição do diesel e do gás natural fóssil pode cortar até 90% das emissões da operação logística regional.
Economia circular: resíduo que volta como energia
O biometano utilizado no projeto é fornecido pela Ultragaz a partir do biogás gerado em aterros sanitários parceiros, com destaque para o aterro de Caieiras, na Grande São Paulo. Nesses locais, o biogás produzido pela decomposição da matéria orgânica é captado e purificado, em um processo de “polimento” que remove dióxido de carbono e outros componentes até atingir especificações semelhantes às do gás natural, reguladas pela ANP.
No caso da Natura, parte dos resíduos enviados ao aterro retorna na forma de energia, fechando um ciclo de economia circular em que resíduos viram insumo energético para a própria operação de fábrica e logística. Essa lógica reforça a estratégia da empresa de conectar gestão de resíduos, matriz energética renovável e transporte de baixa emissão em um mesmo arranjo.
Cajamar como vitrine da descarbonização
Cajamar foi escolhida como unidade estratégica por reunir escala operacional, infraestrutura e proximidade com polos de suprimento de biometano, além de concentrar a maior parte da produção da Natura na América Latina. O site abriga agora um posto interno de abastecimento, desenvolvido com tecnologia da Ultragaz, que permite atender ao mesmo tempo a demanda da fábrica e da frota, com maior controle, segurança e previsibilidade de fornecimento. Na medida que aumentar a ofertada de biometano em outros estados no Brasil, a Natura planeja ampliar a adoção do biocombustível em seu transporte de carga.
O abastecimento dos caminhões dentro do complexo leva cerca de 10 minutos, tempo bem inferior ao observado em postos localizados em rodovias, onde a operação pode levar entre 40 e 50 minutos, gerando ganhos relevantes de produtividade e disponibilidade de veículo. A implantação contou com a atuação conjunta de parceiros técnicos e institucionais, como Cetesb, Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, Prefeitura de Cajamar e fornecedores de tecnologia.
Frota dedicada e desafios para expansão
Na visita inaugural da unidade, Denise de Oliveira Leal, diretora de Manufatura, Qualidade, Segurança e Meio Ambiente da Natura na América Latina, destacou que o projeto integra diretamente a área industrial e a logística.
Hoje, 100% da frota que faz o circuito fechado entre a fábrica de Cajamar, o hub e o centro de distribuição de São Paulo opera abastecida com biometano, em um modelo de rota dedicada. A operação é realizada por transportadores parceiros – entre eles Coopercarga e Reiter Log – que utilizam o posto interno de Cajamar, evitando paradas externas e otimizando o tempo de ciclo dos caminhões.
Denise ressalta que o principal desafio para ampliar o uso do biometano para outras rotas é a disponibilidade de postos ao longo dos corredores logísticos e em outros estados. “Não adianta chamar o parceiro para usar biometano se ele chega ao destino sem ter onde abastecer na volta”, resume, apontando a necessidade de uma rede mais ampla de infraestrutura para que o combustível renovável avance em viagens de longa distância. A empresa não informou o valor do investimento, mas dissse que o retonro principal está no aumento de 15% de eficiência nas caldeiras e payback abaixo de dois anos.
No lado industrial, a executiva afirma que a adoção do biometano nas caldeiras trouxe ganho de mais de 15% em eficiência operacional, graças ao poder calorífico superior em relação ao etanol, combustível que já era considerado uma alternativa mais limpa. Esse aumento de eficiência reduziu o consumo específico de combustível e diminuiu a necessidade de intervenções na rotina da fábrica, em função da alimentação por tubulação direta e da maior previsibilidade de fornecimento.
Plano de transição climática e metas até 2030
O uso do biometano em Cajamar integra o Plano de Transição Climática da Natura, que tem como meta atingir o Net Zero até 2030, antecipando em cerca de 20 anos a ambição global e com objetivos validados pela SBTi e alinhados ao cenário de 1,5 °C do Acordo de Paris. A estratégia prevê a descarbonização acelerada das operações próprias (escopos 1 e 2) e a redução de 42% das emissões da cadeia de valor (escopo 3) até o fim da década, atuando em frentes como ingredientes regenerativos, embalagens circulares, logística com combustíveis renováveis e eficiência energética.
“Esse é um passo concreto do nosso plano de transição climática. Ele mostra como é possível reduzir emissões de forma relevante em operações industriais e logísticas complexas, usando uma solução que já está disponível, funciona em escala e gera valor para o negócio”, afirma Josie Peressinoto Romero, vice-presidente de Operações, Logística e Suprimentos da Natura.
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Sinal para a cadeia de transporte
Embora ainda não exista fornecimento de biometano em outras regiões, a empresa indica que a expansão da frota a biometano faz parte da visão de longo prazo. Josie Peressinoto Romero revelou à Frota News que já está no radar da empresa que a frota de ônibus que faz o transporte dos passageiros terá que ser também movida a gás biometano em um futuro não distante.
Como a companhia opera com operadores logísticos, o crescimento dependerá da renovação de frota por parte desses parceiros e da evolução da infraestrutura de abastecimento nos corredores onde atuam.
Para Denise, o projeto de Cajamar funciona como uma “prova de conceito” que facilita a adesão de novos atores, tanto na indústria quanto no transporte. No horizonte, a empresa trabalha com o objetivo de ter 100% dos centros de distribuição no Brasil atendidos com logística abastecida por combustíveis renováveis, entre eles o biometano, em linha com a meta de reduzir 42% das emissões de escopo 3 até 2030.
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