Gargalos no suprimento de componentes e alta no volume de veículos elétricos e híbridos em circulação aquecem o desmanche clandestino e mercado de peças, mas especialistas reforçam que alta de ocorrências é proporcional ao avanço das vendas no país
O avanço acelerado da eletromobilidade no Brasil trouxe consigo um efeito colateral já conhecido pela indústria automotiva tradicional: a atenção do crime organizado. Dados de secretarias de segurança pública, como a SSP-SP, e de empresas de rastreamento e gestão de frota, como a Ituran, confirmam uma alta expressiva nos índices de roubo e furto de veículos eletrificados (híbridos e 100% elétricos) nos últimos meses.
Informações que circulam em redes sociais apontam a falta de peças de reposição e a demanda do mercado paralelo como os principais motivadores dessa onda de crimes. Uma análise aprofundada do cenário mostra que a informação tem fundamento factual, mas exige contextualização técnica para evitar interpretações distorcidas.
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O peso da frota em expansão
A causa primária para a alta nos registros é diretamente proporcional ao volume de vendas. Com a entrada em larga escala de marcas asiáticas e a consolidação de frotas corporativas e operacionais eletrificadas, há significativamente mais unidades rodando no ecossistema urbano.
Isso também reflete na demanda por seguros. A Bradesco Seguros registrou um salto de 67% nas contratações de seguros para veículos elétricos no primeiro trimestre de 2026. Segundo a ABVE, os emplacamentos de veículos leves eletrificados chegaram a 35.356 unidades, alta de 146% ante 2025. O diretor de Produtos da Bradesco Seguros, Saint’Clair Lima, destaca que o avanço da mobilidade elétrica transforma o setor automotivo e exige adaptações das seguradoras, especialmente em coberturas para baterias, sistemas eletrônicos e assistência especializada.
Apesar da curva ascendente nos números absolutos de ocorrências, os modelos eletrificados ainda representam menos de 1% do total de veículos roubados ou furtados no país, patamar substancialmente inferior ao registrado por modelos a combustão de grande volume.
Gargalos logísticos e a atratividade do desmanche
O ponto central da dinâmica criminosa reside no pós-venda. A combinação de frota em rápido crescimento com gargalos pontuais na cadeia de suprimentos de componentes importados cria um ambiente propício para a atuação de receptadores.
Componentes mais visados: Peças de lataria, conjuntos ópticos (faróis e lanternas LED), módulos eletrônicos de controle e carregadores portáteis ou do tipo wallbox.
A demora na entrega de peças originais pelas concessionárias e os custos elevados de reparo em seguradoras alimentam a busca por soluções imediatas no mercado informal. Como resultado, o desmanche clandestino passa a financiar o furto direcionado de modelos específicos.
MECANISMO DO MERCADO PARALELO
Aumento da Frota ---> Gargalo na Importação de Peças
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Roubo/Furto Direcionado <--- Demanda por Reposição Rápida
Complexidade técnica é barreira para crimes oportunistas
Diferente do que sugerem conteúdos alarmistas, a remoção de componentes vitais desses veículos não é uma operação simples. As baterias de tração de alta tensão, por exemplo, pesam centenas de quilos, operam sob arquitetura elétrica complexa e exigem ferramentas e conhecimento especializado para desconexão sem risco de arcos elétricos ou danos fatais ao componente.
Por conta dessa barreira técnica, o furto focado exclusivamente na bateria em via pública permanece raro. O modus operandi predominante continua sendo a subtração do veículo completo para posterior desmonte em galpões preparados.
Perspectivas para o setor
Para os gestores de frota e executivos do setor de logística e transporte, o cenário reforça a necessidade de prevenção integrada:
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Gerenciamento de Risco: Ampliação do uso de telemetria avançada e rastreadores dedicados com redundância de sinal.
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Planejamento de Manutenção: Estruturação de estoque regulador de peças de alta rotatividade junto às montadoras.
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Seguros Específicos: Adequação de apólices cobrindo paradas prolongadas por falta de componentes e sinistros de componentes de alta tensão.
O surgimento do mercado paralelo para eletrificados reflete o amadurecimento e a massificação da tecnologia no Brasil. Trata-se de uma reação típica do mercado clandestino diante do crescimento de qualquer frota automotiva, exigindo das montadoras, seguradoras e autoridades de segurança pública uma resposta alinhada na proteção da cadeia logística.
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