A logística eletrificada no Brasil já nasce cercada de obstáculos conhecidos pelos gestores de frotas: custo elevado dos veículos, necessidade de infraestrutura de recarga, incertezas regulatórias e desafios operacionais no dia a dia. Agora, um novo fator passa a pressionar esse modelo: o avanço dos roubos e furtos de veículos eletrificados, que começam a chamar a atenção das quadrilhas especializadas em crime patrimonial.
Embora ainda sejam minoria nas ruas, os carros elétricos e híbridos já entraram de vez no radar do crime organizado. Em São Paulo, principal mercado automotivo do país e polo logístico nacional, os registros de roubos e furtos desse tipo de veículo dobraram em apenas um ano. Entre janeiro e outubro de 2025, as ocorrências saltaram de 44 para 88 casos, conforme boletins de ocorrência registrados pela Polícia Civil de São Paulo. Em números absolutos, o volume ainda é pequeno quando comparado ao total da frota circulante, mas o ritmo de crescimento acende um sinal de alerta.
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O dado se torna ainda mais relevante quando comparado à expansão do mercado. No mesmo período, as vendas de veículos elétricos e híbridos no estado cresceram cerca de 70%, enquanto os crimes avançaram 100%. Ou seja, o interesse criminoso cresce em ritmo superior ao da própria eletrificação da frota. O modelo mais visado é o Corolla Cross híbrido, um dos eletrificados mais vendidos do país, com forte presença também em frotas corporativas e operações de mobilidade.
Por que os eletrificados se tornaram alvos?
Há razões econômicas e operacionais por trás desse movimento. A principal delas está no valor agregado dos componentes. A bateria, sozinha, pode representar até 40% do preço total do veículo no mercado paralelo. Trata-se de um ativo de alto valor, difícil rastreabilidade e com demanda crescente, seja para reposição, reaproveitamento como bateria estacionária ou desmanche pelos valores das matérias-prima.
Outro ponto crítico é a escassez global de peças. Componentes eletrônicos, módulos de controle e itens específicos da arquitetura elétrica seguem com oferta limitada, o que encarece o mercado de reposição e aumenta o apetite do crime organizado. Para as quadrilhas, o eletrificado passa a oferecer margens mais altas do que veículos convencionais.
Há também uma vulnerabilidade tecnológica. Muitos sistemas de rastreamento e antifurto disponíveis no mercado brasileiro foram desenvolvidos para veículos a combustão e não dialogam plenamente com a arquitetura elétrica. Em alguns casos, a desconexão da bateria de alta tensão ou a manipulação do sistema elétrico compromete o funcionamento de rastreadores tradicionais, reduzindo as chances de recuperação.
A “nova logística” do crime
Talvez o aspecto mais preocupante para gestores de frotas seja o surgimento de uma verdadeira “logística do crime” adaptada aos veículos elétricos. Diferentemente dos modelos a combustão, esses veículos não precisam passar por postos de abastecimento, locais tradicionalmente monitorados. Com ligações clandestinas de energia (“gatos”) e pontos improvisados de recarga, os veículos roubados conseguem permanecer escondidos por mais tempo, dificultando ações policiais e ampliando o ciclo do crime.
Esse novo modus operandi exige uma revisão profunda das estratégias de segurança patrimonial nas operações logísticas. O risco deixa de estar apenas no trajeto ou na carga e passa a incluir o próprio ativo veicular, agora mais valioso e mais complexo.
Impacto direto para gestores de frotas
Para quem opera ou planeja operar frotas eletrificadas, o avanço desse tipo de crime representa mais uma variável na equação do custo total de propriedade (TCO). Seguros tendem a ficar mais caros, exigências de gerenciamento de risco se tornam mais rígidas e investimentos adicionais em tecnologia de proteção passam a ser inevitáveis.
O momento é sensível porque o mercado segue aquecido. Em 2025, quase 224 mil veículos elétricos foram vendidos no Brasil, alta de 26% em relação a 2024. No momento, este volume representa mais de 98% de veículos de passeios e um volume ainda muito pequeno de veículos comerciais leves eletrificados. Mas, a tendência é de crescimento contínuo, impulsionada por metas ambientais, políticas de descarbonização e pressão de grandes embarcadores por operações mais sustentáveis.
Segurança como pilar da eletrificação
Diante desse cenário, a eletrificação da logística deixa de ser apenas um debate ambiental ou econômico e passa a ser também uma questão de segurança. Gestores de frotas precisam avaliar soluções de rastreamento específicas para veículos elétricos, integração com telemetria avançada, monitoramento de baterias e protocolos de resposta rápida em caso de sinistro.
A transição energética no transporte não pode ignorar a gestão de risco. Se, por um lado, os veículos elétricos representam eficiência, redução de emissões e inovação, por outro, já exigem uma abordagem mais robusta de proteção patrimonial. Para o crime organizado, eles já não são novidade. Para o setor logístico, acende um alerta.


