A Stellantis, conglomerado global formado em janeiro de 2021 pela fusão entre PSA e FCA, anunciou nesta quinta-feira (26) seu primeiro prejuízo anual desde a criação: perda líquida de € 22,3 bilhões (R$ 135,3 bilhões) em 2025, impulsionada por encargos extraordinários de € 25,4 bilhões (R$ 154 bilhões). O resultado reflete um “reset” estratégico para priorizar a liberdade de escolha dos clientes entre veículos elétricos, híbridos e de combustão interna, após superestimar o ritmo da transição.
A receita líquida totalizou € 153,5 bilhões (R$ 930,2 bilhões) em 2025, queda de 2% ante 2024, devido principalmente a impactos cambiais adversos e redução de preços líquidos no primeiro semestre. No segundo semestre – primeiro período completo sob a gestão do novo CEO Antonio Filosa –, a receita cresceu 10% em relação ao mesmo intervalo de 2024, atingindo € 79,2 bilhões (R$ 480,2 bilhões), com envios consolidados subindo 11% para 2,8 milhões de unidades.
-
Leia também:
- Frota News amplia alcance global ao firmar parceria com a Newstex
- Sprinter automática chega às concessionárias a partir de R$ 274,3 mil
Filosa, que assumiu o comando após a saída de Carlos Tavares, destacou melhorias iniciais em qualidade e execução de lançamentos. “No segundo semestre do ano, começamos a ver sinais positivos iniciais de progresso, com os primeiros resultados do nosso impulso para melhorar a qualidade, forte execução dos lançamentos da nossa nova onda de produtos e retorno ao crescimento da receita”, afirmou o executivo no comunicado oficial. O foco para 2026 será corrigir falhas de execução passadas e impulsionar o crescimento lucrativo.
Encargos extraordinários e nova orientação estratégica
Os € 25,4 bilhões (R$ 154 bilhões) em charges não recorrentes incluem reestruturação do plano de produtos e cadeia de suprimentos de elétricos para adequar-se à demanda real e mudanças regulatórias, além de ajustes em provisões de garantias e reduções de força de trabalho na Europa Ampliada. O caixa industrial disponível fechou o ano em € 46 bilhões (R$ 278,8 bilhões), com suspensão de dividendos em 2026 e emissão de até € 5 bilhões (R$ 30,3 bilhões) em hybrid bonds para preservar o balanço patrimonial.

Leia a Revista Frota News Edição 54
Impactos no Brasil e foco em América do Sul
No Brasil, onde a Stellantis expandiu a produção em 12% em 2025 – com 864 mil veículos fabricados, mais de 846 mil deles em suas fábricas de Betim (MG), Goiana (PE) e Porto Real (RJ) –, o grupo aposta em modelos como a picape média Ram Dakota para ancorar a linha na América do Sul, alinhando-se à estratégia global de diversificação de powertrains. A nova onda de produtos visa cobrir lacunas de mercado em regiões como América do Norte, Europa Ampliada e Oriente Médio & África, com lançamentos como Jeep Cherokee, Dodge Charger SIXPACK e Fiat 500 Hybrid.
A companhia planeja divulgar resultados trimestrais a partir do 1º trimestre de 2026 e um Investor Day em maio. Analistas veem o “reset” como pivô para recuperação, mas alertam para desafios em eletrificação e concorrência.
Saiba mais sobre a Stellantis
Em um cenário global cada vez mais desafiador para a indústria automotiva, a Stellantis — conglomerado formado pela fusão entre PSA Group e Fiat Chrysler Automobiles — enfrenta uma pressão crescente para manter sua rentabilidade. Dono de 14 marcas, incluindo Peugeot, Fiat, Jeep, Citroën, Opel e Maserati, o grupo aposta na diversificação como modelo de negócios. Mas, em 2024, essa força também se revelou uma fraqueza.
O ano de 2024 foi um divisor de águas para a Stellantis. A combinação de um ambiente macroeconômico fragilizado, aumento da concorrência nos mercados europeus e mudanças no comportamento do consumidor pressionou os números da companhia. A receita, o lucro e as margens operacionais encolheram — reflexo direto da queda nas vendas e da perda de relevância de algumas marcas em mercados-chave.
Um dos principais entraves é o perfil do consumidor europeu. A Stellantis tem forte presença em países como França, Itália e Alemanha, onde os compradores se mostram cada vez mais sensíveis ao preço. Esse segmento, historicamente dominado por modelos acessíveis de Fiat, Citroën e Peugeot, é justamente o alvo prioritário das marcas chinesas de veículos elétricos (EVs), que chegam com preços agressivos e tecnologia avançada.

A ameaça chinesa
Fabricantes como BYD, MG e NIO estão rapidamente ganhando participação na Europa. Com incentivos governamentais e domínio na cadeia de produção de baterias, essas empresas conseguem oferecer EVs por valores imbatíveis — especialmente em comparação com os modelos da Stellantis, que ainda enfrentam desafios para equilibrar custo e inovação tecnológica.
Além disso, marcas como DS, Lancia e Chrysler sofrem com baixa notoriedade e falta de apelo comercial, tornando difícil justificar investimentos contínuos em marketing e desenvolvimento de produto.
Leia também:
GWM vai inaugurar fábrica e lançará Poer: nova rival para Hilux, Ranger e S10
A picape elétrica de R$ 113 mil apoiada por Jeff Bezos
Lançamento: Chevrolet S10 100 Anos e acrescenta acessórios para customização
Modelo de negócios sob revisão
A forma como a Stellantis gera receita baseia-se na venda direta de veículos, leasing, serviços financeiros, pós-venda (manutenção e peças) e, mais recentemente, serviços digitais conectados. No entanto, a complexidade do seu portfólio tem dificultado ganhos de escala. No Brasil, por exemplo, mais de 40% das suas vendas são diretas, incluindo frotistas, locadoras, produtores rurais, taxistas e PcD.
A rede de distribuição, fragmentada e muitas vezes despadronizada entre as marcas, compromete a experiência do cliente — um ponto crítico na era digital. A padronização das vendas online e a modernização das concessionárias são medidas urgentes para reconquistar a confiança do consumidor.
Um futuro incerto para o gigante
Com a desaceleração da economia global e o enfraquecimento do poder de compra do consumidor europeu, a Stellantis precisa reavaliar seu posicionamento. A aposta em EVs populares, plataformas compartilhadas e digitalização da jornada de compra é acertada, mas o tempo joga contra.
Enquanto rivais como a Tesla e as montadoras chinesas operam com estruturas mais enxutas e estratégias de produto mais focadas, a Stellantis parece, por vezes, refém de seu próprio tamanho.
O desafio está posto: ou a empresa simplifica sua operação, fortalece sua proposta de valor e acelera sua transformação digital, ou corre o risco de ver sua relevância diluir-se diante da nova ordem automotiva.
Os Números da Stellantis em 2024

- Resultados financeiros mostram forte desaceleração
- Receita: €156,9 bilhões (queda de 17% em relação a 2023)
- Lucro líquido: €5,5 bilhões (queda de 70%)
- Margem de lucro: 3,5% (em 2023 era 9,8%)
- Lucro operacional: €3,7 bilhões
- Despesas operacionais: €16,8 bilhões
- Fluxo de caixa livre: negativo em €6 bilhões
Onde dói mais
- Queda na receita total e nas margens
- Alta carga de despesas com SG&A (€9,3 bi) e P&D (€5,8 bi)
- Despesas com reestruturação: €1,6 bilhão
- Diminuição do lucro operacional e retorno sobre as vendas
Receita por Região
- América do Norte (Jeep, Chrysler, Dodge, RAM): €63,4 bilhões
- Europa Ampliada (Peugeot, Citroën, Opel, Fiat, DS, Lancia): €58,8 bilhões
- América do Sul (Fiat, Peugeot, Citroën, Jeep, RAM): €15,9 bilhões
- Oriente Médio e África: €10,1 bilhões
- China, Índia e Ásia-Pacífico: €2 bilhões
- Maserati (segmento premium): €1 bilhão
- Outras Receitas (incluindo serviços e parcerias): €5,6 bilhões
Portfólio Multimarcas
- Mass Market: Fiat, Peugeot, Citroën, Opel, Vauxhall, Chrysler, Dodge
- Off-road e utilitários: Jeep, RAM
- Premium e luxo: Alfa Romeo, DS Automobiles, Lancia, Maserati
Desafios regionais
- A Stellantis depende fortemente dos mercados europeus e norte-americanos, onde a concorrência — especialmente de marcas chinesas — está crescendo rapidamente.
- Mercados emergentes como América do Sul e Ásia ainda têm baixa representatividade no total da receita.
Custo das vendas
- Total: €136,4 bilhões
- Representa 86,9% da receita
- Inclui custos de produção, logística, peças e fornecedores
Despesas Operacionais Totais: €16,8 bilhões
- SG&A (Despesas Administrativas e Comerciais): €9,3 bilhões
- Pesquisa e Desenvolvimento (P&D): €5,8 bilhões
- Reestruturação: €1,6 bilhão
- Outros custos diversos: €0,1 bilhão
Destaques
- O investimento em inovação permanece alto, mesmo em ano de queda de receita
- Gastos com reestruturação indicam esforços para redução de complexidade e adaptação do portfólio
- A alta carga de SG&A sugere desafios de eficiência entre as múltiplas marcas e regiões
Fontes: Dan Mottram, estrategista de indústrias; Automotive Industry Professionals e Relatório FY 2024 da Stellantis (fevereiro de 2025).



