quarta-feira, janeiro 28, 2026

Saúde mental e NR-1: Alper e Rumo detalham riscos e caminhos para o setor de transporte

Com mais de 20 mil trabalhadores avaliados, consultoria aponta que engajar as equipes é a maior barreira; Rumo reforça necessidade de gestão mais humanizada diante de jornadas longas, fadiga e impacto emocional da atividade.

A adequação à Norma Regulamentadora 1 (NR-1) entrou definitivamente no radar das empresas de transporte e logística. A obrigatoriedade de diagnosticar riscos psicossociais, vigente desde 2023 e com prazo final de adequação até maio de 2026, exige mais que formulários ou checklists: demanda engajamento real dos trabalhadores e uma mudança profunda na cultura interna.

É o que mostram os dados de uma análise conduzida pela Alper Seguros com 20.397 colaboradores, revelando que o maior desafio das empresas não é a burocracia, mas sim envolver as equipes no preenchimento dos questionários que dão base ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Em entrevista à Frota News, representantes da Alper e da Rumo detalham os impactos da norma e os caminhos para integrar saúde mental, segurança e produtividade no setor.

Mudanças da NR-1: fim das ações pontuais e início da gestão contínua

Para Paula Gallo, diretora de Gestão de Riscos e Saúde da Alper Seguros, a NR-1 exige uma mudança de postura:

As empresas serão obrigadas a acompanhar continuamente todas as ações voltadas às condições de trabalho e saúde mental. Muitas atuam apenas de forma emergencial, quando um problema já está instalado. A norma reforça a necessidade de sermos preventivos e proativos.”

Segundo ela, o PGR passa a incluir obrigatoriamente um plano de ação para gerenciamento dos riscos psicossociais, com monitoramento periódico e comprovação de efetividade — um avanço especialmente relevante para o setor de transportes, onde jornadas extensas, pressão por prazos e isolamento são recorrentes.

A Rumo, maior companhia ferroviária da América Latina, reforça que a inclusão dos fatores psicossociais amplia significativamente a responsabilidade das empresas.

A enfermeira do trabalho Laís Silva Papasidio explica:

A empresa passa a considerar não só riscos físicos, mas também mentais e organizacionais. Isso exige olhar atento para jornadas, metas, escalas e condições de trabalho.
É uma gestão mais humana e equilibrada
.”

Ela destaca que reconhecer o trabalhador como ser integrado — físico, mental e social — exige reavaliar processos e criar ambientes mais sustentáveis.

A Alper acrescenta que pausas programadas, controle adequado de jornadas, ergonomia nos centros logísticos e oferta de suporte psicológico são essenciais para reduzir sobrecarga e prevenir adoecimento.

Como identificar estresse, fadiga e sobrecarga?

As empresas também precisam de ferramentas eficazes para mapear e monitorar riscos psicossociais. Paula Gallo explica que questionários estruturados, entrevistas, mapeamento de riscos e indicadores de clima organizacional compõem um sistema eficaz — desde que apoiado por equipes multidisciplinares de RH e SESMT.

Treinamentos de direção defensiva e uso adequado de EPIs complementam o cuidado.

Onde os riscos aparecem primeiro?

Tanto Alper quanto Rumo destacam que os sinais iniciais de esgotamento costumam ser silenciosos:

  • Irritabilidade e alterações de humor
  • Fadiga persistente
  • Dificuldade de concentração
  • Isolamento social
  • Queda de desempenho
  • Distúrbios do sono
  • Sintomas físicos sem causa aparente

Entre motoristas, a solidão da profissão intensifica depressão, ansiedade e sensação de derrotas diante das condições adversas de trabalho.

Segundo a Alper, empresas que já possuem cultura de discussão sobre saúde mental têm maior adesão às ações previstas pela NR-1. No setor de frotas, a pulverização dos trabalhadores — muitos constantemente na estrada — torna a comunicação mais difícil, exigindo estratégias adaptadas a cada realidade.

Entre as soluções adotadas pela consultoria estão:

  • Treinamento em Primeiros Socorros em Saúde Mental
  • Brigada de Saúde Mental
  • Programas de qualidade de vida alinhados ao PGR

A chave é que a equipe perceba as ações como apoio real, e não como mera exigência legal.

Para a Rumo, produtividade e saúde mental não se opõem — desde que a gestão seja estruturada e humana. A empresa defende seis pilares:

  1. Metas realistas
  2. Diálogo e escuta ativa
  3. Reconhecimento equilibrado
  4. Pausas e condições adequadas
  5. Programas de bem-estar e suporte emocional
  6. Formação de líderes empáticos

Produtividade sustentável só existe quando o trabalhador está saudável, engajado e respeitado”, reforça Laís Papasidio.

Tecnologia: vilã ou aliada? Depende de como é usada

Apesar de telemetria, rastreamento e monitoramento de jornada serem fontes de ansiedade para alguns motoristas, essas tecnologias também podem ser fortes aliadas na prevenção do adoecimento.

De acordo com Paula Gallo:

“Softwares de rotas, sistemas de gestão integrada e até inteligência artificial podem reduzir tempo de trânsito, identificar padrões de fadiga e enviar alertas preventivos. O importante é que sejam usados para cuidado — não apenas controle.”

Quando há transparência no uso dos dados e participação dos motoristas nas decisões, a percepção de vigilância dá lugar à confiança.

As entrevistas revelam que os impactos da NR-1 vão muito além de evitar multas. A norma impulsiona uma agenda de transformação que melhora clima, reduz acidentes, qualifica a gestão e fortalece a reputação das empresas.

Mais do que obrigação legal, é uma oportunidade de colocar as pessoas no centro — e, com isso, impulsionar segurança, produtividade e competitividade.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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