sábado, março 14, 2026

Diesel já consome até 35% do frete. Conheça a composição dos demais custos, alguns “Made Brazil” 

Não é novidade que o transporte rodoviário de cargas no Brasil segue operando sob forte pressão de custos e com margem cada vez mais apertada, o que explica a idade média alta da frota e baixo investimento em treinamento e sustentabilidade. Em um setor no qual o diesel pode representar entre 30% e 35% do custo operacional de uma viagem, especialmente em rotas médias e longas, qualquer oscilação no combustível — somada à precariedade da infraestrutura rodoviária — tem efeito direto sobre a rentabilidade das transportadoras e, por consequência, sobre o valor do frete pago pela indústria, pelo varejo e pelo agronegócio. 

Mais do que um problema conjuntural, o cenário expõe uma fragilidade estrutural do transporte brasileiro: a dependência do diesel como principal insumo. Mesmo com o crescimento da indústria e infraestrutura de biocombustíveis, como biodiesel, biometano, HVO e eletrificação, a Agência Internacional de Energia revisou suas previsões, mostrando que a demanda por óleo (incluindo diesel para aviação, caminhões e indústria) cresce ou estabiliza em níveis altos até 2050 no cenário CPS, alcançando 113 milhões de barris/dia, devido a novas demandas como data centers e crescimento em emergentes.

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Além disso, o custo dos biocombustíveis ainda são mais altos do que o diesel fóssil e, por isso, sendo adotado somente por frotas que atendem grandes embarcadores compromissados com resultados na agenda climática e de ESG.

Na prática, especialistas e entidades do setor, como ILOS e a CNT, reforçam que o frete não pode mais ser precificado com base em médias genéricas. Em um ambiente de volatilidade do petróleo, custos financeiros elevados e rodovias que aumentam consumo e desgaste da frota, o controle fino da planilha se tornou uma ferramenta de sobrevivência. 

Combustível e mão de obra continuam no topo da estrutura de custos do TRC 

No TRC, combustível e mão de obra já podem superar metade do custo total da operação. Quando a rodovia é ruim, a conta cresce ainda mais — e a margem desaparece sem que isso apareça de forma clara na negociação do frete. Embora os percentuais variem conforme o tipo de caminhão, a idade da frota, a topografia, o perfil da carga, a distância percorrida e a qualidade da malha viária, a estrutura de custos operacionais do transporte rodoviário de cargas no Brasil segue um padrão relativamente consolidado. 

Em seguida aparece a mão de obra do motorista, que costuma representar 18% a 20%, considerando salários, altos encargos e benefícios. Como hoje se aposenta mais motorista profissional do que entra na carreira, a tendência é de pressão de alta sobre salários para atrair mão de obra. 

Além deles, o transportador ainda precisa absorver o peso da remuneração do capital investido encarecido pela alta taxa Selic, da depreciação do veículo e do implemento, da manutenção, dos pneus, dos seguros obrigatórios e de uma série de custos indiretos que, muitas vezes, não aparecem com a mesma clareza na negociação com o embarcador. 

Frota News
Edição 54

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Não existe “custo padrão” universal para uma rota de 1.000 km 

No mercado, ainda é comum a busca por uma referência pronta de custo para viagens longas, como uma rota de 1.000 quilômetros. Mas a realidade operacional do TRC é mais complexa. 

A NTC&Logística, por meio do DECOPE (Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas), não trabalha com uma tabela única e definitiva aplicável a todas as operações. Isso ocorre porque o custo depende de uma série de variáveis, como: 

  • tipo e configuração do veículo; 
  • capacidade de carga; 
  • idade da frota; 
  • regime de operação; 
  • valor do diesel; 
  • pedágios; 
  • tempo parado: temos muita ineficiência nos setores de embarque e desembarque em muitas empresas embarcadoras e de destino da carga; 
  • condição da rodovia; 
  • retorno carregado ou vazio; 
  • custos administrativos e de gerenciamento de risco. 

Os índices INCTL (carga lotação) e INCTF (carga fracionada) são referências relevantes para medir a evolução dos custos ao longo do tempo, mas não substituem a planilha individualizada de cada transportadora. Em outras palavras, o índice mostra a tendência. Quem revela a margem real é a operação. 

Em rotas longas, o diesel ganha ainda mais peso 

Quando a viagem se alonga, o combustível tende a ocupar fatia ainda maior da composição de custos. Isso acontece porque o diesel é diretamente impactado pela quilometragem, pelo relevo, pela condição do pavimento, pela fluidez da via e pelo padrão de condução. 

Com base em metodologias consagradas no setor e estudos alinhados aos manuais de custeio do transporte, uma composição típica de custos para veículos pesados em rotas longas pode ser resumida da seguinte forma: 

Como se divide o custo de uma rota longa no TRC 

  • Combustível: 30% a 35% 
  • Mão de obra: 18% a 20% 
  • Remuneração de capital / financiamento: 14% a 15% 
  • Depreciação: 10% a 11% 
  • Manutenção e reparos: 8% a 9% 
  • Pneus e recapagens: 5% a 7% 
  • Outros (seguros, administrativos, lubrificantes, lavagem, taxas e gestão): 10% a 15% 

Esse desenho mostra que o diesel lidera a planilha, mas não explica tudo sozinho. O custo financeiro da frota, o envelhecimento do ativo e o desgaste mecânico também exercem forte influência na formação do frete. 

Custos fixos e variáveis: o ponto em que muitas transportadoras ainda perdem margem 

Uma das principais falhas de gestão no TRC continua sendo a dificuldade de separar corretamente os custos fixos dos variáveis — e, principalmente, de enxergar os chamados custos “invisíveis” da operação. 

Custos fixos 

São aqueles que independem diretamente da quilometragem rodada e precisam ser diluídos ao longo do mês: 

  • depreciação do veículo e implemento; 
  • remuneração do capital ou financiamento; 
  • seguros obrigatórios; 
  • licenciamento, IPVA e taxas; 
  • parte da estrutura administrativa; 
  • custos de gestão e suporte operacional. 
Custos variáveis 

Acompanham a intensidade de uso da frota e aumentam conforme a operação roda: 

  • diesel; 
  • manutenção preventiva e corretiva; 
  • pneus e recapagens; 
  • lubrificantes; 
  • lavagem; 
  • pedágios; 
  • desgaste acelerado por operação severa. 
Custos indiretos e perdas ocultas 

São os que corroem margem sem aparecer de forma explícita na precificação: 

  • permanência em carga e descarga; 
  • tempo ocioso do veículo; 
  • retorno vazio; 
  • baixa produtividade por rota; 
  • gerenciamento de risco; 
  • rastreamento; 
  • despesas administrativas indiretas; 
  • taxas acessórias e exigências fiscais. 

É justamente nesse terceiro bloco que muitas empresas acreditam estar “ganhando no frete”, quando na prática estão absorvendo perdas operacionais silenciosas. 

Geopolítica transforma o diesel em variável estratégica 

Se o diesel já é o principal item da planilha em tempos normais, ele se torna ainda mais sensível em momentos de tensão internacional. 

Conflitos em regiões produtoras de petróleo, variações cambiais e oscilações no mercado global de energia podem alterar rapidamente o custo do combustível no Brasil. Para o TRC, isso significa que a previsibilidade da margem pode desaparecer em poucas semanas**. 

Por isso, cresce no setor a percepção de que o diesel não deve ser tratado apenas como um insumo operacional, mas como uma variável estratégica de risco. 

Na prática, isso exige: 
  • revisão mais frequente das tabelas de frete; 
  • contratos com gatilhos de reajuste; 
  • monitoramento por rota; 
  • análise de consumo por faixa de operação; 
  • controle do custo por quilômetro real, e não apenas estimado. 

Para embarcadores, a mensagem também é direta: pressionar o frete sem compreender a estrutura de custos pode comprometer a capacidade de atendimento do transportador no médio prazo, a segurança e sustentabilidade da operação. 

INCT-L é referência importante, mas não substitui gestão própria 

A principal referência setorial para acompanhamento de custos no transporte de carga lotação continua sendo o INCTL, da NTC&Logística. O índice é amplamente utilizado pelo mercado para acompanhar a evolução dos insumos e embasar negociações de reajuste. 

Ele deve funcionar como um termômetro da tendência de custos, e não como um preço pronto de frete. A empresa que realmente deseja proteger margem precisa ir além do índice e construir uma leitura própria da operação. 

Isso significa monitorar: 
  • custo por veículo; 
  • custo por eixo e por implemento; 
  • custo por quilômetro; 
  • custo por tonelada útil; 
  • custo por hora parada; 
  • taxa de retorno vazio; 
  • consumo por perfil de rota; 
  • diferença entre rota planejada e rota executada. 

Sem isso, a transportadora corre o risco de negociar com base em uma referência correta, mas insuficiente para a realidade do próprio negócio. 

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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