sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Do Boca x River às estradas: Mercedes-Benz e Iveco protagonizam duelo histórico na Argentina

Enquanto no Brasil o clássico “Fla x Flu” dos caminhões opõe Mercedes‑Benz e Volkswagen, na Argentina o superclásico “Boca Juniors x River Plate” tem sua versão sobre rodas na rivalidade entre Mercedes‑Benz e Iveco. Aliás, a marca italiana é muito mais associada aos hermanos do que aos brasileños.

Analogias a parte, o mercado argentino de veículos comerciais pesados viveu, em 2025, um de seus ciclos mais vigorosos da última década. Segundo dados da ACARA (Asociación de Concesionarios de Automotores de la República Argentina), foram 21.132 unidades licenciadas entre caminhões e ônibus, alta de 43,4% sobre as 14.732 registradas em 2024.

A expansão reflete a retomada econômica pós-2024, com forte demanda dos setores de agroindústria, mineração, óleo e gás e construção civil — segmentos que puxaram principalmente os modelos extrapesados e rodoviários.

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Top 5: Iveco domina modelos, Mercedes lidera em volume total

O ranking acumulado de 2025 revela uma curiosa divisão de forças. A Iveco dominou o pódio entre os modelos individuais mais vendidos, enquanto a Mercedes-Benz manteve a liderança geral em volume e participação de mercado.

Modelos mais vendidos – acumulado 2025

1º – Iveco Stralis: 1.183 unidades
2º – Iveco 170 E: 1.165 unidades
3º – Iveco Tector 39: 956 unidades
4º – Mercedes-Benz Atego 1932: 796 unidades
5º – Mercedes-Benz Actros 2545: 765 unidades

A Iveco mostrou força especialmente nos segmentos de rígidos e pesados vocacionados ao transporte regional e operações mistas, com o Stralis liderando o mercado geral e o Tector consolidando presença no segmento médio.

Já a Mercedes-Benz destacou-se na diversificação de portfólio, com forte presença tanto em aplicações urbanas quanto rodoviárias de longa distância.

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Edição 54

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Market share: vantagem consistente da Mercedes

No consolidado de caminhões e ônibus, a Mercedes-Benz fechou 2025 com 7.862 unidades licenciadas, equivalentes a 37,2% de market share. A Iveco somou 4.773 unidades (22,6%).

A diferença numérica evidencia a amplitude da linha Mercedes, que combina modelos leves, médios e pesados, além da atuação tradicional no segmento de ônibus.

A Scania também chamou atenção: saltou para 3.270 unidades — crescimento superior a 200% frente a 2024 — consolidando-se como terceira força do mercado argentino.

Comparativo por categoria

Caminhões rígidos

  • Mercedes-Benz: mais de 4.500 unidades (estimado), com destaque para Atego 1932 e Accelo
  • Iveco: mais de 3.200 unidades (estimado), com protagonismo do 170E e Tector 39

Pesados / Rodoviários

  • Mercedes-Benz: forte presença com Actros 2545
  • Iveco: liderança geral com Stralis

Enquanto a Mercedes sustenta crescimento estável e consistente, a Iveco registrou avanços percentuais relevantes em modelos específicos, mantendo competitividade acirrada.

Evolução 2024 x 2025

Ano Unidades Variação
2024 14.732 +4% vs. 2023
2025 21.132 +43,4%

A Mercedes saltou de cerca de 5.366 unidades em 2024 para 7.862 em 2025 (+46%).
A Iveco cresceu de uma faixa estimada entre 3.500 e 4.000 unidades para 4.773 (+20% a 30%). A Scania protagonizou a recuperação mais expressiva do período.

2026: mercado pode superar 25 mil unidades

As projeções para 2026 indicam continuidade do ciclo de expansão. Analistas do setor estimam que o mercado argentino poderá ultrapassar entre 25.000 e 27.000 unidades, com forte ênfase em caminhões pesados vocacionais destinados aos setores de energia, mineração e infraestrutura.

O crédito ganha papel estratégico: a penetração de financiamento já se aproxima de 35% em algumas marcas, ampliando o acesso de transportadores ao investimento em renovação de frota. Janeiro de 2026 já apresentou números robustos, sinalizando manutenção do ritmo positivo.

Lançamentos reforçam disputa tecnológica

O ambiente competitivo será intensificado por novos produtos previstos ou já apresentados:

  • Scania Super 11 Litros: foco em eficiência energética para pesados.
  • Iveco S-Way: apresentado em Córdoba, com foco em longas distâncias.
  • Nova geração Mercedes produzida em Zárate, com ampliação das linhas Atego, Accelo e Actros, incluindo versões com motor OM 460 de 449 cv e integração digital FleetBoard.
  • Atualizações da Foton na linha Aumark e Auman, incluindo opções GNC.
  • Volkswagen Constellation 25.460 e Volkswagen Constellation 33.460, com expansão de produção CKD para até 2.700 unidades/ano.

Mercedes-Benz e Iveco aceleram produção local

Com investimentos recentes e tradição industrial, montadoras concentram esforços para atender até 70% da demanda interna com produção nacional e ampliar exportações no Mercosul, concorrendo com suas fábricas no Brasil.

A estratégia é produzir localmente cerca de 70% dos veículos destinados ao mercado argentino e reduzir a importação do Brasil. Com isso, fortalecem a cadeia regional e reduzindo exposição cambial, ao mesmo tempo em que ampliam exportações para países do Mercosul.

Nova era industrial em Zárate

A Mercedes-Benz iniciou oficialmente em 2026 as operações de sua nova planta em Zárate, província de Buenos Aires. O movimento marcou o encerramento histórico das atividades em Virrey del Pino após 74 anos de produção.

Com investimento de US$ 110 milhões, o novo Centro Industrial foi projetado dentro de conceitos de manufatura enxuta, digitalização e eficiência logística. A localização estratégica aproxima a fábrica dos principais portos e corredores rodoviários, reduzindo custos de exportação e distribuição doméstica.

A unidade foi dimensionada para produzir mais de 10 mil a 15 mil unidades por ano em plena capacidade, incluindo os caminhões Accelo e Atego, além dos chassis de ônibus OH e OF. A partir de 2026, também está prevista a incorporação do Actros à linha local.

Além da montagem de veículos, o complexo abriga operações de remanufatura (REMAN) e logística de peças, com capacidade para movimentar cerca de 450 mil componentes. Atualmente, mais de 450 empregos diretos foram gerados, além de aproximadamente 2 mil postos indiretos vinculados à rede de 24 concessionárias no país.

A Mercedes aposta em um ramp-up progressivo da produção ao longo de 2026, herdando inicialmente volumes próximos aos 3.800 veículos/ano da antiga planta e ampliando gradualmente conforme a demanda regional se estabilize.

Córdoba: tradição e versatilidade produtiva

Enquanto a Mercedes inaugura um novo ciclo, a Iveco sustenta sua presença industrial histórica em Córdoba, onde opera desde 1969 no complexo de Ferreyra. São 55 anos de produção ininterrupta, consolidando a unidade como peça-chave dentro da estrutura latino-americana do grupo.

A fábrica ocupa 200 mil m² (57 mil m² cobertos) e possui capacidade instalada para até 15 mil unidades por ano em dois turnos — podendo chegar a três turnos em cenário de expansão máxima. Atualmente, opera com um turno, produzindo cerca de 4 mil unidades anuais (entre 270 e 300 caminhões por mês, média de 26 por dia).

Entre os modelos fabricados estão as linhas Tector (170E, 39 e 110-190), Cursor, Hi-Way/Stralis e o S-Way — inclusive versões a GNC com autonomia de até 550 km. A planta também produz o motor FPT Cursor 13 Euro 6, ampliando o índice de integração local.

A unidade argentina da Iveco é certificada no sistema World Class Manufacturing (WCM), nível bronze, e opera dentro de padrões industriais alinhados às matrizes europeias, com integração produtiva ao Brasil e à Itália.

Nacionalização e competitividade

Ambas as fabricantes trabalham com cerca de 70% de conteúdo local nos veículos produzidos na Argentina, estratégia considerada essencial para estabilidade operacional em um ambiente macroeconômico volátil.

No caso da Iveco, a capacidade ociosa atual é significativa — próxima de 73% — o que oferece margem para rápida expansão caso o mercado interno ou as exportações avancem. Já a Mercedes parte de uma nova base estrutural, com projeto industrial dimensionado para crescimento gradual e otimização logística.

A diferença central entre as estratégias está no momento industrial na Argentina: Córdoba representa maturidade, tradição e versatilidade em pesados; Zárate simboliza modernização, eficiência e reposicionamento estratégico para a próxima década.

Disputa regional

A concorrência entre Mercedes-Benz e Iveco na Argentina transcende o mercado local. A produção nacional fortalece acordos comerciais no Mercosul e cria condições para exportações mais competitivas para países vizinhos.

Além disso, a localização argentina permite complementar a produção brasileira, equilibrando portfólios e aproveitando acordos bilaterais automotivos.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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