Enquanto no Brasil o clássico “Fla x Flu” dos caminhões opõe Mercedes‑Benz e Volkswagen, na Argentina o superclásico “Boca Juniors x River Plate” tem sua versão sobre rodas na rivalidade entre Mercedes‑Benz e Iveco. Aliás, a marca italiana é muito mais associada aos hermanos do que aos brasileños.
A expansão reflete a retomada econômica pós-2024, com forte demanda dos setores de agroindústria, mineração, óleo e gás e construção civil — segmentos que puxaram principalmente os modelos extrapesados e rodoviários.
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Top 5: Iveco domina modelos, Mercedes lidera em volume total
O ranking acumulado de 2025 revela uma curiosa divisão de forças. A Iveco dominou o pódio entre os modelos individuais mais vendidos, enquanto a Mercedes-Benz manteve a liderança geral em volume e participação de mercado.
Modelos mais vendidos – acumulado 2025
1º – Iveco Stralis: 1.183 unidades
2º – Iveco 170 E: 1.165 unidades
3º – Iveco Tector 39: 956 unidades
4º – Mercedes-Benz Atego 1932: 796 unidades
5º – Mercedes-Benz Actros 2545: 765 unidades
A Iveco mostrou força especialmente nos segmentos de rígidos e pesados vocacionados ao transporte regional e operações mistas, com o Stralis liderando o mercado geral e o Tector consolidando presença no segmento médio.
Já a Mercedes-Benz destacou-se na diversificação de portfólio, com forte presença tanto em aplicações urbanas quanto rodoviárias de longa distância.

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Market share: vantagem consistente da Mercedes
No consolidado de caminhões e ônibus, a Mercedes-Benz fechou 2025 com 7.862 unidades licenciadas, equivalentes a 37,2% de market share. A Iveco somou 4.773 unidades (22,6%).
A diferença numérica evidencia a amplitude da linha Mercedes, que combina modelos leves, médios e pesados, além da atuação tradicional no segmento de ônibus.
A Scania também chamou atenção: saltou para 3.270 unidades — crescimento superior a 200% frente a 2024 — consolidando-se como terceira força do mercado argentino.
Comparativo por categoria
Caminhões rígidos
- Mercedes-Benz: mais de 4.500 unidades (estimado), com destaque para Atego 1932 e Accelo
- Iveco: mais de 3.200 unidades (estimado), com protagonismo do 170E e Tector 39
Pesados / Rodoviários
- Mercedes-Benz: forte presença com Actros 2545
- Iveco: liderança geral com Stralis
Enquanto a Mercedes sustenta crescimento estável e consistente, a Iveco registrou avanços percentuais relevantes em modelos específicos, mantendo competitividade acirrada.
Evolução 2024 x 2025
| Ano | Unidades | Variação |
|---|---|---|
| 2024 | 14.732 | +4% vs. 2023 |
| 2025 | 21.132 | +43,4% |
A Mercedes saltou de cerca de 5.366 unidades em 2024 para 7.862 em 2025 (+46%).
A Iveco cresceu de uma faixa estimada entre 3.500 e 4.000 unidades para 4.773 (+20% a 30%). A Scania protagonizou a recuperação mais expressiva do período.
2026: mercado pode superar 25 mil unidades
As projeções para 2026 indicam continuidade do ciclo de expansão. Analistas do setor estimam que o mercado argentino poderá ultrapassar entre 25.000 e 27.000 unidades, com forte ênfase em caminhões pesados vocacionais destinados aos setores de energia, mineração e infraestrutura.
O crédito ganha papel estratégico: a penetração de financiamento já se aproxima de 35% em algumas marcas, ampliando o acesso de transportadores ao investimento em renovação de frota. Janeiro de 2026 já apresentou números robustos, sinalizando manutenção do ritmo positivo.
Lançamentos reforçam disputa tecnológica
O ambiente competitivo será intensificado por novos produtos previstos ou já apresentados:
- Scania Super 11 Litros: foco em eficiência energética para pesados.
- Iveco S-Way: apresentado em Córdoba, com foco em longas distâncias.
- Nova geração Mercedes produzida em Zárate, com ampliação das linhas Atego, Accelo e Actros, incluindo versões com motor OM 460 de 449 cv e integração digital FleetBoard.
- Atualizações da Foton na linha Aumark e Auman, incluindo opções GNC.
- Volkswagen Constellation 25.460 e Volkswagen Constellation 33.460, com expansão de produção CKD para até 2.700 unidades/ano.
Mercedes-Benz e Iveco aceleram produção local
Com investimentos recentes e tradição industrial, montadoras concentram esforços para atender até 70% da demanda interna com produção nacional e ampliar exportações no Mercosul, concorrendo com suas fábricas no Brasil.
A estratégia é produzir localmente cerca de 70% dos veículos destinados ao mercado argentino e reduzir a importação do Brasil. Com isso, fortalecem a cadeia regional e reduzindo exposição cambial, ao mesmo tempo em que ampliam exportações para países do Mercosul.
Nova era industrial em Zárate
A Mercedes-Benz iniciou oficialmente em 2026 as operações de sua nova planta em Zárate, província de Buenos Aires. O movimento marcou o encerramento histórico das atividades em Virrey del Pino após 74 anos de produção.
Com investimento de US$ 110 milhões, o novo Centro Industrial foi projetado dentro de conceitos de manufatura enxuta, digitalização e eficiência logística. A localização estratégica aproxima a fábrica dos principais portos e corredores rodoviários, reduzindo custos de exportação e distribuição doméstica.
A unidade foi dimensionada para produzir mais de 10 mil a 15 mil unidades por ano em plena capacidade, incluindo os caminhões Accelo e Atego, além dos chassis de ônibus OH e OF. A partir de 2026, também está prevista a incorporação do Actros à linha local.
Além da montagem de veículos, o complexo abriga operações de remanufatura (REMAN) e logística de peças, com capacidade para movimentar cerca de 450 mil componentes. Atualmente, mais de 450 empregos diretos foram gerados, além de aproximadamente 2 mil postos indiretos vinculados à rede de 24 concessionárias no país.
A Mercedes aposta em um ramp-up progressivo da produção ao longo de 2026, herdando inicialmente volumes próximos aos 3.800 veículos/ano da antiga planta e ampliando gradualmente conforme a demanda regional se estabilize.
Córdoba: tradição e versatilidade produtiva
Enquanto a Mercedes inaugura um novo ciclo, a Iveco sustenta sua presença industrial histórica em Córdoba, onde opera desde 1969 no complexo de Ferreyra. São 55 anos de produção ininterrupta, consolidando a unidade como peça-chave dentro da estrutura latino-americana do grupo.
A fábrica ocupa 200 mil m² (57 mil m² cobertos) e possui capacidade instalada para até 15 mil unidades por ano em dois turnos — podendo chegar a três turnos em cenário de expansão máxima. Atualmente, opera com um turno, produzindo cerca de 4 mil unidades anuais (entre 270 e 300 caminhões por mês, média de 26 por dia).
Entre os modelos fabricados estão as linhas Tector (170E, 39 e 110-190), Cursor, Hi-Way/Stralis e o S-Way — inclusive versões a GNC com autonomia de até 550 km. A planta também produz o motor FPT Cursor 13 Euro 6, ampliando o índice de integração local.
A unidade argentina da Iveco é certificada no sistema World Class Manufacturing (WCM), nível bronze, e opera dentro de padrões industriais alinhados às matrizes europeias, com integração produtiva ao Brasil e à Itália.
Nacionalização e competitividade
Ambas as fabricantes trabalham com cerca de 70% de conteúdo local nos veículos produzidos na Argentina, estratégia considerada essencial para estabilidade operacional em um ambiente macroeconômico volátil.
No caso da Iveco, a capacidade ociosa atual é significativa — próxima de 73% — o que oferece margem para rápida expansão caso o mercado interno ou as exportações avancem. Já a Mercedes parte de uma nova base estrutural, com projeto industrial dimensionado para crescimento gradual e otimização logística.
A diferença central entre as estratégias está no momento industrial na Argentina: Córdoba representa maturidade, tradição e versatilidade em pesados; Zárate simboliza modernização, eficiência e reposicionamento estratégico para a próxima década.
Disputa regional
A concorrência entre Mercedes-Benz e Iveco na Argentina transcende o mercado local. A produção nacional fortalece acordos comerciais no Mercosul e cria condições para exportações mais competitivas para países vizinhos.
Além disso, a localização argentina permite complementar a produção brasileira, equilibrando portfólios e aproveitando acordos bilaterais automotivos.
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