Em comunidado para imprensa, a Iveco anunciou um novo programa de caminhões pesados com Sistemas de Condução Autônoma de Nível 4. Em parceria com a PlusAI, empresa de software de motorista virtual baseado em inteligência artificial, a montadora italiana pretende colocar em operação os primeiros caminhões pesados autônomos de Nível 4 no Sul da Europa, em cooperação com a operadora logística espanhola Sesé e o Governo de Aragão, na Espanha.
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Conheça as diferenças dos seis níveis de condução autônoma
Nível 0: Sem Automação
O motorista é o único responsável por todas as tarefas de condução. O caminhão pode ter sistemas de aviso (como alerta de ponto cego ou aviso de colisão), mas não interfere fisicamente na direção ou nos pedais.
Nível 1: Assistência ao Motorista
O veículo auxilia em apenas uma função por vez: ou o controle lateral (direção) ou o controle longitudinal (frenagem/aceleração).
Exemplo: Piloto automático adaptativo (ACC) que mantém a distância do veículo à frente, mas exige que o motorista controle o volante o tempo todo.
Nível 2: Automação Parcial
O caminhão pode controlar a direção e a velocidade simultaneamente em cenários específicos (como em rodovias). No entanto, o motorista deve permanecer com as mãos no volante (ou monitorando atentamente) e estar pronto para assumir o controle a qualquer milésimo de segundo. É o padrão atual de muitos caminhões modernos de linha.
Nível 3: Automação Condicional
Este é um salto tecnológico grande. O caminhão pode “dirigir sozinho” em certas condições (ex: rodovias com faixas bem sinalizadas e bom tempo).
O Diferencial: O motorista não precisa monitorar a estrada constantemente, mas deve estar disponível para intervir caso o sistema solicite (ex: em zonas de obras ou clima severo). Se o sistema falhar, ele dá um tempo de resposta para o humano assumir.
Nível 4: Alta Automação
O veículo é capaz de realizar todas as funções de direção em domínios operacionais específicos (conhecidos como ODD). No transporte de carga, isso geralmente significa que o caminhão pode viajar de um centro de distribuição a outro apenas em rodovias, sem qualquer intervenção humana.
Segurança: Se algo der errado e o humano não responder, o caminhão é capaz de parar com segurança no acostamento por conta própria. Muitas empresas focam aqui no modelo “Hub-to-Hub”.
Nível 5: Automação Total
O caminhão pode operar em qualquer lugar e em qualquer condição que um motorista humano operaria. Não há necessidade de cabine, volante ou pedais. Ele lida com ruas de terra, cidades complexas, docas de carga e climas extremos de forma totalmente independente.
Um corredor logístico como laboratório real
No âmbito do programa, a Iveco e a PlusAI irão desenvolver dois caminhões Iveco S-Way equipados com capacidades de condução autônoma de Nível 4, impulsionados pelo motorista virtual PlusAI SuperDrive. Diferentemente de pilotos fechados em ambientes controlados, os veículos irão operar em rotas reais de transporte da Sesé, conectando Madri a Zaragoza, ao longo de um corredor logístico de aproximadamente 300 km.
Os testes terão início em 2026 e se estenderão por vários anos, sempre com operador de segurança a bordo, conforme exigências regulatórias. A escolha do eixo Madri–Zaragoza não é aleatória: trata-se de uma das rotas mais relevantes da logística espanhola, com alto fluxo de cargas industriais e de consumo, o que permite validar a tecnologia em condições operacionais próximas da realidade de mercado.
Estratégia tecnológica: automação como pilar
A declaração revela um ponto-chave para o setor: a autonomia de Nível 4 não surge de forma isolada. Ela é a evolução natural de anos de investimentos em ADAS (Advanced Driver Assistance Systems), conectividade, telemetria e inteligência embarcada. Para gestores de frota, isso indica que a transição será progressiva — e que caminhões cada vez mais automatizados coexistirão com operações tradicionais por um longo período.
O papel da PlusAI e a maturidade do Nível 4
Do lado da tecnologia, a PlusAI entra em uma fase estratégica de crescimento, inclusive com sua transição para empresa de capital aberto, via combinação de negócios com a Churchill Capital Corp IX (Nasdaq: CCIX). Para Shawn Kerrigan, COO e cofundador da PlusAI, o projeto com a IVECO e a Sesé demonstra a maturidade da solução.
O que significa, na prática, o Nível 4 para o transporte de cargas
A automação veicular é classificada pela SAE International em seis níveis, do 0 ao 5. No transporte rodoviário de cargas, essa classificação ganha ainda mais peso devido ao porte dos veículos, às longas distâncias percorridas e às exigências de segurança.
No Nível 4 – Alta Automação, foco do projeto da Iveco, o caminhão é capaz de executar todas as funções de direção dentro de um domínio operacional específico (ODD). Em termos práticos, isso significa operações hub-to-hub, normalmente restritas a rodovias bem mapeadas, com faixas definidas e condições previsíveis.
O diferencial crítico está na segurança: se algo foge do previsto e o operador humano não responde, o sistema é capaz de levar o veículo a uma condição segura por conta própria, como parar no acostamento. Para operadores logísticos, isso abre caminho para ganhos relevantes em previsibilidade, redução de incidentes e eficiência operacional, ainda que sem eliminar completamente o fator humano no curto e médio prazo.


