terça-feira, março 24, 2026

São Paulo acelera coleta de lixo com biometano, e VWCO entra na disputa por um mercado hoje dominado pela Scania

A cidade de São Paulo está transformando o lixo em combustível — e, de quebra, abrindo uma vitrine para o futuro da coleta urbana no Brasil. Com mais de 200 caminhões de coleta movidos a biometano em operação, de um total de 600 veículos, a capital paulista já converteu um terço da frota para uma matriz mais limpa e mira agora a substituição dos 400 caminhões restantes a diesel por modelos a gás até 2027.

Nesse cenário, a Scania, até aqui única fornecedora de caminhões para a operação, pode ganhar companhia. A Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) decidiu entrar na disputa e acaba de ampliar os testes do seu Constellation Biometano na maior vitrine de coleta urbana do país. Depois de entregar uma unidade à EcoUrbis em meados de 2025, a montadora de Resende agora coloca mais um exemplar em operação com a Loga, uma das principais concessionárias de gestão de resíduos da capital paulista.

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Para o setor, o movimento vai muito além de uma simples avaliação técnica. Em um mercado em que São Paulo costuma funcionar como laboratório e referência para centenas de municípios brasileiros, quem conquistar espaço na coleta paulistana pode ganhar musculatura comercial em um dos nichos mais promissores da descarbonização do transporte pesado.

Lixo deixa de ser passivo e vira energia para mover a cidade

A Prefeitura de São Paulo vem usando a coleta de resíduos como uma das vitrines mais visíveis de sua agenda climática. Hoje, o biometano que abastece parte da frota municipal é produzido a partir do aproveitamento energético dos resíduos sólidos urbanos na Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL), em São Mateus, na Zona Leste.

É ali que o biogás gerado pela decomposição diária de milhares de toneladas de resíduos passa por um processo de purificação, elevando o teor de metano a mais de 95% e tornando o combustível equivalente ao GNV em qualidade energética, porém, economicamente e ambientalmente mais eficiente. O produto final é comprimido e direcionado ao abastecimento dos caminhões de coleta.

Na prática, o município converte um problema histórico — o lixo urbano — em solução logística e ambiental. Segundo a Prefeitura, a substituição do diesel por biometano já evita a emissão de 17,4 mil toneladas de CO₂ por ano e reduz o consumo de cerca de 7 milhões de litros de combustível fóssil.

Além do combustível veicular, parte do biogás também é convertida em energia elétrica, o que amplia a autonomia energética do sistema de resíduos e reforça.

Mercado de coleta vira nova arena para os caminhões a gás

Se por um lado a operação paulistana já consolidou a Scania como fornecedora da frota a biometano, por outro a entrada da VWCO sinaliza que esse mercado começa a ficar competitivo.

Rodrigo Chaves, vice-presidente de Engenharia da VWCO, destacou que o Constellation Biometano já comprovou capacidade para operar em condições severas de coleta urbana e que sua chegada à Loga permitirá avaliar novas rotinas e reforçar atributos como eficiência, autonomia e baixa emissão.

Constellation Biometano aposta em autonomia e pacote vocacional

O Constellation Biometano chega ao campo de provas com um argumento técnico importante: foi desenvolvido com base na linha vocacional Compactor, tradicionalmente voltada para aplicações severas de coleta.

O modelo usa tanques de aço carbono com capacidade total de 240 m³ (960 litros), volume que, segundo a montadora, é o maior do segmento (veja comparativo abaixo). A configuração garante autonomia de até 250 km, número considerado suficiente para as operações na Grande São Paulo sem necessidade de reabastecimento frequente ao longo da jornada.

Ricardo Alouche, vice-presidente da VWCO, disse que a empresa está focada nas transformações do mercado e na sustentabilidade. Segundo ele, a proximidade com os clientes permite oferecer soluções que unem eficiência operacional à liderança no setor de coleta de resíduos, sendo o Constellation Biometano um marco fundamental nesse processo.

Mais silêncio, menos diesel e um discurso ESG pronto para uso

Os motores atuais da Scania, FPT Industrial (do Grupo Iveco) e Cummins (adotado no Constellation) utilizam motor ciclo Otto e transmissão automática, entregando, segundo as fabricantes, desempenho equivalente ao de uma versão diesel em atributos como arranque, aceleração, tração e conforto de condução — características essenciais em uma operação de coleta, marcada por acelerações e frenagens constantes, além de circulação em vias urbanas densas.

Outro ponto importante é a redução de ruído. Em um serviço que começa cedo, circula em bairros residenciais e costuma conviver com reclamações de moradores, a operação mais silenciosa e ideal seria caminhões elétricos, porém, quase três vezes mais caros do que um diesel. O caminhão a gás custa, em média, 20% mais caro do que um convencional.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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