Com oito unidades já em operação no BRT Leste-Oeste, Estado inicia a primeira operação regular do País com ônibus articulados movidos a gás biometano no transporte coletivo e projeta escalar a tecnologia para até 501 veículos até 2027
A Nova Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) inaugura um novo capítulo da transição energética no transporte coletivo urbano nos 21 municípios da região. A capital goiana passa a operar os primeiros ônibus articulados da história do Brasil movidos a gás natural e/ou biometano em linha regular, consolidando um movimento que combina eletrificação, gaseificação e requalificação de infraestrutura para acelerar a descarbonização.
A entrega inicial contempla oito unidades, mas o plano é muito mais ambicioso: o programa prevê a incorporação de até 501 ônibus a biometano até 2027, transformando Goiânia em uma referência nacional no uso de combustíveis renováveis no transporte público. Este volume de ônibus ainda serão encomendados aos fabricantes, devendo ser todos da marca Scania, única fabricante de ônibus com a tecnologia a gás no Brasil em configurações padrão, articulado e biarticulado. Aliás, o pioneirismo da marca sueca data desde 2018, com o contrato de 302 unidades biarticulado F 340 HA 8×2, 340 cv, de até 250 passageiros.
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A nova etapa da RMTC foi oficializada nesta sexta-feira (27) em cerimônia no Terminal Padre Pelágio, reinaugurado após modernização, com presença do governador Ronaldo Caiado, do prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, além de representantes do poder público, operadores, indústria e fornecedores do sistema.
Os articulados foram desenvolvidos em parceria entre Consórcio BRT, Scania e Marcopolo. Montados sobre o chassi Scania K 340C A6X2/2 NB Euro 6, os veículos utilizam motorização ciclo Otto, dedicada a gás natural e/ou biometano, com 340 cv de potência e 1.600 Nm de torque, além de transmissão automática ZF, suspensão a ar e sistema eletrônico de freios (EBS). A proposta é entregar desempenho equivalente ao de um ônibus a diesel, mas com menor ruído, menos vibração e emissões significativamente reduzidas se abastecidos com biometano.
Cilindros Tipo 4 e autonomia
Um dos principais diferenciais técnicos está no sistema de armazenamento de combustível. Os ônibus utilizam, pela primeira vez no Brasil nesse tipo de aplicação, sete cilindros Tipo 4 em fibra de carbono, fornecidos pela Hexagon Agility e instalados no teto. Esses reservatórios são cerca de 70% mais leves e duas vezes mais caro do que soluções convencionais e elevam a capacidade de armazenamento com maior eficiência estrutural e alto padrão de segurança. Segundo a Marcopolo, os sete cilindros representam 25% do preço da carroceria, pois, por enquanto, são importados da Alemanha em baixa escala, uma das razões para explicar o seu alto custo.
Na configuração com sete cilindros, a capacidade é de 370 m³ de gás, equivalente a 1.645 litros. Na prática, o resultado operacional converge: autonomia superior a 400 quilômetros, podendo chegar a cerca de 450 km. Segundo Indiara Ferreira, diretora executiva da HP Mobiliddade, um das empresas do Consórcio BRT, essa autonomia é teórica e que a real será conhecida em breve com os ônibus em operação.
Com 19,22 metros de comprimento e capacidade para até 145 passageiros, os novos Viale Express Articulado tiveram as suas estruturas retrabalhadas e com aço mais sofisticados para garantir maior resistência para o teto suportar o peso dos cilindros e garantir que o peso total da carroceria seja o mesmo da versão convencional.
Entre os itens embarcados estão poltronas estofadas com entradas USB e USB-C, piso amadeirado, iluminação full LED, ar-condicionado, monitoramento por câmeras e área dedicada para pessoas com mobilidade reduzida, com rampa e elevador. Em um ambiente de BRT, esses elementos não são meros detalhes: ajudam a reposicionar a percepção de qualidade do transporte coletivo e reforçam a estratégia da Nova RMTC de tornar o ônibus uma alternativa mais competitiva frente ao automóvel individual.
Biometano deixa de ser piloto e entra em fase de escala
Goiás não tem nenhuma usina de produção de biometano e, inicialmente, vai “importar” o gás renovável de outros estados, como o da carreta na foto abaixo, adquirido de um fornecedor do Paraná. No entanto, tem projeto para ter e com uma solução inédita no segmento: primeiro posto de abastecimento totalmente dedicado a um sistema de transporte coletivo a biometano no Brasil, inicialmente abastecido por carretas e, dentro de dois anos, por meio de um gasoduto.

O Consórcio BRT já havia testado o sistema de abastecimento em caráter piloto entre março e julho de 2025, por meio de um posto provisório de abastecimento. O resultado foi considerado positivo tanto sob o ponto de vista operacional quanto econômico, o que abriu caminho para a estruturação definitiva da cadeia de suprimento local, mesmo com o custo do transporte do biometano de outros estados para Goiânia.
Para resolver o clássico dilema do “ovo e da galinha” — sem oferta local de combustível não há frota, e sem demanda garantida não há investimento em produção — o projeto optou por fomentar a geração regional de biometano. Em Guapó, está em implantação a primeira usina de geração de biometano de Goiás, fruto de parceria entre o Consórcio BRT e a GeoGreen Biogás, com aportes de R$ 150 milhões, uso de resíduos industriais e capacidade de produção de até 100 mil metros cúbicos por dia.
A iniciativa se insere em um planejamento mais amplo, dividido em fases. A apresentação do Consórcio BRT menciona três frentes de contratação (RFPs) de 50 mil m³/dia cada, com potencial de atendimento de até 166 veículos por etapa, formando uma demanda projetada de 150 mil m³/dia para cerca de 500 veículos no sistema metropolitano.
Segundo o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também há tratativas com a prefeitura para uma outra usina de biometano a ser implementada no aterro sanitário da capital goiana. Com essas soluções de biopostos, o governador acredita a cidade para fazer a transição da frota de caminhões de serviços urbanos, como coleta de resíduos, para caminhões a gás, a exemplo do que já acontece em São Paulo. Confira a reportagem sobre o tema abaixo:
De oito para 198, depois 501: a escalada da Nova RMTC
Se a entrega dos oito articulados já é histórica, ela deve ser lida como um marco inicial dentro de uma transformação muito maior. Segundo Laércio Ávila, diretor executivo do Consórcio BRT, o cronograma para o biometano aponta metas de 79 articulados e 22 veículos padron até setembro de 2026, antes da escalada rumo a aproximadamente 500 ônibus movidos pelo combustível renovável até o final de 2027.
A estratégia se insere no programa Nova RMTC, que reúne investimentos superiores a R$ 2,5 bilhões e combina renovação de frota, requalificação de terminais, modernização operacional e priorização do transporte coletivo.
O que Goiás sinaliza para o futuro do transporte coletivo no Brasil
Goiás está montando uma vitrine singular para o futuro do transporte coletivo brasileiro ao adotar uma estratégia de transição energética múltipla. Em vez de apostar em uma única tecnologia, o estado combina ônibus elétricos, veículos movidos a biometano e modelos a diesel P8/Euro 6. Essa diversidade reconhece que a descarbonização no Brasil não será uniforme, já que fatores como custos, infraestrutura, disponibilidade energética e características econômicas variam entre cidades. No contexto goiano, marcado por forte agroindústria, o biometano ganha relevância ao conectar gestão de resíduos, produção de energia renovável e mobilidade urbana.
A experiência de Goiás antecipa um debate nacional: eletrificação sozinha não resolverá a descarbonização do transporte público. Em regiões fora dos grandes centros, a combinação de tecnologias pode ser mais viável técnica e financeiramente. Goiânia começa a estruturar um ciclo completo “resíduo–energia–mobilidade”, transformando passivos ambientais em combustível renovável para ônibus de alta capacidade. Além da redução expressiva de CO₂ — que pode chegar a 90% com biometano — há ganhos adicionais como menor emissão de NOx, menos material particulado e redução de ruído e vibração em comparação ao diesel tradicional.
Segundo Edmundo Pinheiro, presidente da NTU, a simples substituição de ônibus Euro 3 por Euro 6 já representa uma transição energética relevante, enquanto tecnologias como elétricos e biometano avançam conforme houver viabilidade financeira e crédito. Apesar do alto custo de aquisição e do impacto da Selic sobre o Capex dos elétricos, Goiás transforma a Nova RMTC em um laboratório real de política pública integrada. Se mantiver coerência entre produção local de combustível, infraestrutura, frota e prioridade operacional, o estado pode criar um modelo replicável para outras regiões agroindustriais ou com grandes aterros sanitários — não apenas inaugurando os primeiros articulados a biometano do país, mas estabelecendo uma nova referência nacional em transição energética no transporte coletivo.



