segunda-feira, janeiro 12, 2026

Brasil x EUA na produção de biometano para o transporte pesado 

O Gás Natural Renovável (RNG, na sigla em inglês) — conhecido no Brasil como biometano — já deixou de ser uma aposta experimental na América do Norte para se consolidar como uma solução em escala industrial. Nos Estados Unidos e no Canadá, o combustível renovável avança rapidamente, impulsionado por políticas públicas claras, investimentos privados robustos e uma estratégia focada na descarbonização do transporte pesado. No Brasil, embora o potencial seja reconhecido como um dos maiores do mundo, o ritmo de desenvolvimento ainda é mais lento e desigual. 

Hoje, a América do Norte conta com cerca de 500 instalações de RNG em operação, com uma meta ambiciosa de atingir mil plantas até 2030, segundo a RNG COALITION, associação comercial e porta-voz da indústria de Gás Natural Renovável (GNR) na América do Norte.

Trata-se de um crescimento acelerado, sustentado por incentivos federais e estaduais, como programas de créditos ambientais e metas claras de redução de emissões. Já no Brasil, estimativas de mercado indicam entre 40 e 50 plantas de biogás e biometano em operação, número que cresce de forma consistente, mas sem um direcionamento nacional tão definido. 

A diferença de escala também se reflete nas matérias-primas utilizadas. Nos Estados Unidos e no Canadá, o RNG é produzido principalmente a partir de resíduos agrícolas, aterros sanitários e efluentes industriais. No Brasil, além dos aterros, o destaque está no setor agroindustrial, especialmente na suinocultura, bovinocultura e, sobretudo, na cadeia sucroenergética, com resíduos como vinhaça e torta de filtro. Especialistas apontam que esse conjunto coloca o País entre os maiores potenciais técnicos do mundo para produção de biometano. 

Quando o assunto é transporte pesado, o contraste volta a aparecer. Na América do Norte, a adoção do RNG em caminhões cresce rapidamente, apoiada por motores dedicados — como o Cummins X15N — e sistemas de armazenamento desenvolvidos por fornecedores globais, como a Hexagon Agility. Frotas de longa distância já operam com gás renovável, aproveitando uma infraestrutura de abastecimento em expansão contínua. 

No Brasil, o movimento está em fase inicial, mas ganhou tração nos últimos anos. Scania já oferece caminhões movidos a GNV e biometano, com foco em aplicações urbanas, regionais e, gradualmente, em rotas mais longas. Já são cerca de 2.500 caminhões Scania a gás em operação no Brasil. A Iveco ainda é uma promessa, pois a marca não divulga os números de emplacamentos. A Volkswagen Caminhões conta com um modelo Constellation em teste e a Mercedes-Benz está na fase de desenvolvimento.  

Gargalos

O principal gargalo, no entanto, segue sendo a infraestrutura, ainda concentrada nas regiões Sul e Sudeste, o que limita a adoção em escala nacional por grandes operadores logísticos. 

Do ponto de vista regulatório, a América do Norte se beneficia de um ambiente mais previsível. Programas de incentivo e metas de descarbonização, como iniciativas federais e estaduais alinhadas à chamada SMART Initiative, oferecem segurança para investidores e operadores de frotas. No Brasil, existem instrumentos importantes, como o RenovaBio e os créditos de descarbonização (CBIOs), mas o setor ainda enfrenta uma regulação fragmentada, com regras que variam entre estados e dificultam decisões de longo prazo. 

Essa diferença de previsibilidade impacta diretamente os investimentos. Enquanto o mercado norte-americano já é considerado maduro e competitivo, atraindo grandes players e capital privado, o brasileiro ainda depende fortemente de financiamentos públicos, incentivos regionais e parcerias estratégicas. Ainda assim, o interesse cresce, especialmente diante da pressão por soluções de baixo carbono no transporte de cargas. 

Vantagens estratégicas

Para gestores de frotas, o cenário deixa uma mensagem clara: a América do Norte mostra que o RNG é viável técnica e economicamente quando há escala, infraestrutura e políticas estáveis. O Brasil, por sua vez, reúne vantagens estratégicas difíceis de ignorar — abundância de matéria-prima, forte base agroindustrial e potencial para, no futuro, até se tornar exportador de biometano. 

O desafio agora é acelerar. Isso passa por ampliar a rede de distribuição, criar políticas públicas mais claras e estáveis e estimular a adoção do biometano por frotas de transporte pesado. Se conseguir alinhar esses fatores, o Brasil pode reduzir rapidamente a distância em relação aos mercados mais avançados e transformar seu potencial em realidade logística e ambiental. 

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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