O Gás Natural Renovável (RNG, na sigla em inglês) — conhecido no Brasil como biometano — já deixou de ser uma aposta experimental na América do Norte para se consolidar como uma solução em escala industrial. Nos Estados Unidos e no Canadá, o combustível renovável avança rapidamente, impulsionado por políticas públicas claras, investimentos privados robustos e uma estratégia focada na descarbonização do transporte pesado. No Brasil, embora o potencial seja reconhecido como um dos maiores do mundo, o ritmo de desenvolvimento ainda é mais lento e desigual.
Hoje, a América do Norte conta com cerca de 500 instalações de RNG em operação, com uma meta ambiciosa de atingir mil plantas até 2030, segundo a RNG COALITION, associação comercial e porta-voz da indústria de Gás Natural Renovável (GNR) na América do Norte.
Trata-se de um crescimento acelerado, sustentado por incentivos federais e estaduais, como programas de créditos ambientais e metas claras de redução de emissões. Já no Brasil, estimativas de mercado indicam entre 40 e 50 plantas de biogás e biometano em operação, número que cresce de forma consistente, mas sem um direcionamento nacional tão definido.
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A diferença de escala também se reflete nas matérias-primas utilizadas. Nos Estados Unidos e no Canadá, o RNG é produzido principalmente a partir de resíduos agrícolas, aterros sanitários e efluentes industriais. No Brasil, além dos aterros, o destaque está no setor agroindustrial, especialmente na suinocultura, bovinocultura e, sobretudo, na cadeia sucroenergética, com resíduos como vinhaça e torta de filtro. Especialistas apontam que esse conjunto coloca o País entre os maiores potenciais técnicos do mundo para produção de biometano.
Quando o assunto é transporte pesado, o contraste volta a aparecer. Na América do Norte, a adoção do RNG em caminhões cresce rapidamente, apoiada por motores dedicados — como o Cummins X15N — e sistemas de armazenamento desenvolvidos por fornecedores globais, como a Hexagon Agility. Frotas de longa distância já operam com gás renovável, aproveitando uma infraestrutura de abastecimento em expansão contínua.
No Brasil, o movimento está em fase inicial, mas ganhou tração nos últimos anos. Scania já oferece caminhões movidos a GNV e biometano, com foco em aplicações urbanas, regionais e, gradualmente, em rotas mais longas. Já são cerca de 2.500 caminhões Scania a gás em operação no Brasil. A Iveco ainda é uma promessa, pois a marca não divulga os números de emplacamentos. A Volkswagen Caminhões conta com um modelo Constellation em teste e a Mercedes-Benz está na fase de desenvolvimento.
Gargalos
O principal gargalo, no entanto, segue sendo a infraestrutura, ainda concentrada nas regiões Sul e Sudeste, o que limita a adoção em escala nacional por grandes operadores logísticos.
Do ponto de vista regulatório, a América do Norte se beneficia de um ambiente mais previsível. Programas de incentivo e metas de descarbonização, como iniciativas federais e estaduais alinhadas à chamada SMART Initiative, oferecem segurança para investidores e operadores de frotas. No Brasil, existem instrumentos importantes, como o RenovaBio e os créditos de descarbonização (CBIOs), mas o setor ainda enfrenta uma regulação fragmentada, com regras que variam entre estados e dificultam decisões de longo prazo.
Essa diferença de previsibilidade impacta diretamente os investimentos. Enquanto o mercado norte-americano já é considerado maduro e competitivo, atraindo grandes players e capital privado, o brasileiro ainda depende fortemente de financiamentos públicos, incentivos regionais e parcerias estratégicas. Ainda assim, o interesse cresce, especialmente diante da pressão por soluções de baixo carbono no transporte de cargas.
Vantagens estratégicas
Para gestores de frotas, o cenário deixa uma mensagem clara: a América do Norte mostra que o RNG é viável técnica e economicamente quando há escala, infraestrutura e políticas estáveis. O Brasil, por sua vez, reúne vantagens estratégicas difíceis de ignorar — abundância de matéria-prima, forte base agroindustrial e potencial para, no futuro, até se tornar exportador de biometano.
O desafio agora é acelerar. Isso passa por ampliar a rede de distribuição, criar políticas públicas mais claras e estáveis e estimular a adoção do biometano por frotas de transporte pesado. Se conseguir alinhar esses fatores, o Brasil pode reduzir rapidamente a distância em relação aos mercados mais avançados e transformar seu potencial em realidade logística e ambiental.


