sexta-feira, abril 3, 2026

BNDES aprova financiamento para usina de biometano da bp bioenergy para abastecer transporte e indústria

Nova unidade da bp bioenergy em Edéia (GO) usará vinhaça da produção sucroenergética para gerar 67 mil Nm³/dia de biometano; projeto amplia oferta do combustível
para indústrias e frotas pesadas

Depois de Goiás iniciar a transição de parte da sua frota de ônibus urbanos para modelos movidos a gás biometano, o Estado dá mais um passo importante em direção desse combustível renovável na matriz energética do transporte. Agora, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou um financiamento de R$ 244,9 milhões para a construção de uma nova planta de biometano em Edéia (GO), fortalecendo a cadeia de produção local e a economia circular no setor sucroenergético.

O investimento será destinado à Tropical Biogás Ltda, unidade controlada pela bp bioenergy (joint-venture BP Bunge Bioenergia), que vai implantar uma planta capaz de produzir aproximadamente 67 mil Nm³ de biometano por dia. A produção do biometano nessa nova unidade será a partir da vinhaça, coproduto orgânico gerado na produção de etanol de cana-de-açúcar. O projeto será financiado com R$ 193,4 milhões do Fundo Clima e R$ 51,4 milhões da linha Finem, dentro de um investimento total de R$ 275,8 milhões. A previsão é de conclusão em 2027.

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Da vinhaça ao combustível: circularidade ganha escala

O diferencial do projeto está no aproveitamento energético de um insumo já abundante no setor sucroenergético. Hoje, a vinhaça é aplicada diretamente na lavoura como fonte de nutrientes. Com a nova planta, esse coproduto passará por biodigestão para a produção de biometano, enquanto o digestato remanescente continuará sendo utilizado no campo, mantendo a função agronômica e elevando o nível de circularidade do processo industrial.

Na prática, a iniciativa cria uma rota mais sofisticada para o aproveitamento de resíduos da cana: a vinhaça deixa de ser apenas um insumo agrícola e passa a se transformar em um energético renovável com aplicação direta em segmentos de alta demanda, como transporte rodoviário, logística regional e uso industrial.

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Esse movimento é particularmente relevante para o setor de transportes porque o biometano vem ganhando espaço como uma das alternativas mais viáveis para a descarbonização de frotas pesadas, especialmente em operações urbanas, regionais e de média distância, onde a infraestrutura de abastecimento pode ser organizada em corredores logísticos.

Combustível para indústrias e transporte

Segundo o BNDES, o biometano produzido em Edéia será comercializado com foco em clientes industriais e de transporte da região. A distribuição ficará a cargo da Ultragaz, parceira estratégica do projeto, responsável pela venda e pela logística de entrega do combustível.

Esse ponto é central para o mercado de veículos comerciais. Ao contar com um parceiro estruturado na distribuição, o projeto não se limita à geração do combustível, mas cria condições para que o biometano chegue efetivamente às operações que dependem dele — incluindo empresas com frotas de caminhões, ônibus e utilitários pesados que buscam reduzir emissões sem abrir mão da autonomia operacional.

Goiás se consolida como polo estratégico do biometano

A nova planta em Edéia também reforça um cenário mais amplo: Goiás desponta como um dos Estados promissor para a expansão do biometano no Centro-Oeste, justamente pela combinação entre forte base sucroenergética, disponibilidade de resíduos orgânicos e demanda crescente por combustíveis mais limpos no transporte.

No caso da bp bioenergy, a escala ajuda a explicar o potencial do projeto. A companhia possui 11 unidades instaladas em cinco estados brasileiros e figura entre as maiores produtoras de etanol do país, com grande disponibilidade de vinhaça proveniente de sua operação industrial.

goiás
Reprodução do portal da bp bioenergy

Para Andres Guevara de la Vega, CEO da bp bioenergy, o investimento reforça o papel da inovação e da integração industrial na nova bioeconomia brasileira:

“Esse projeto reúne a tecnologia, circularidade e parcerias estratégicas para transformar um coproduto do processo de produção de etanol em uma nova fonte de energia renovável. Estamos entusiasmados em contribuir para a expansão da bioenergia no Brasil”, disse o executivo.

Impacto econômico: 300 empregos e nova frente para a logística energética

Durante a fase de implantação, prevista até 2027, a expectativa é de geração de 300 empregos diretos e indiretos. Além do impacto na construção da planta, o empreendimento também cria uma nova camada de movimentação econômica na cadeia logística: transporte de insumos, equipamentos, serviços técnicos, infraestrutura energética e, posteriormente, a distribuição do biometano ao mercado consumidor.

Para o setor de transporte e logística, esse tipo de projeto tende a ter efeito multiplicador. À medida que cresce a produção regional de biometano, aumenta a viabilidade de corredores de abastecimento dedicados, contratos de fornecimento para frotas corporativas e a adoção de veículos pesados a gás em operações antes totalmente dependentes do diesel.

O que isso representa para ônibus e caminhões

A aprovação do BNDES chega em um momento simbólico para Goiás. Se, de um lado, o Estado já começa a incorporar o biometano no transporte coletivo urbano, de outro, a nova planta ajuda a construir a base de oferta necessária para que esse movimento avance também sobre frotas de caminhões, distribuição regional, transporte industrial e operações dedicadas de carga.

Na prática, isso aproxima dois elos que historicamente caminham em ritmos diferentes no Brasil:

  • a disponibilidade de combustível renovável em escala, e
  • a adoção de veículos comerciais preparados para operar com gás, que atualmente tem a Scania como única fabricante efetiva; e com as demais montadoras acelerando os projetos para lançamentos em breve.

Há dois anos

A Ultragaz anunicou a entrada no mercado de gás natural renovável após adquirir a Neogás, com foco especial no biometano — combustível produzido a partir de resíduos orgânicos e considerado uma das alternativas mais sustentáveis do mundo. Para 2024, a empresa traçou uma estratégia ambiciosa: expandir a distribuição nacional desse gás verde, especialmente em regiões off‑grid, apoiando indústrias em metas de descarbonização e ESG.

Parcerias como a firmada com a Essencis Biometano, em Caieiras (SP), e o contrato com a usina GNR Dois Arcos, no Rio de Janeiro, reforçam esse movimento. A Ultragaz pretende fechar novos acordos com setores estratégicos até o fim do ano, posicionando-se na vanguarda da transição energética brasileira e contribuindo para uma matriz mais sustentável e alinhada às tendências globais de redução de carbono.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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