segunda-feira, março 9, 2026

Alta do petróleo preocupa transportadoras e reforça papel do biodiesel, biometano e HVO no Brasil

A dependência global do petróleo continua sendo um dos principais fatores de instabilidade econômica para o transporte. No entanto, a expansão dos biocombustíveis segue como importante perspectiva para reduzir gradualmente essa dependência. Embora essa substituição não ocorra no curto prazo, os investimentos em biodiesel, biometano, diesel verde (HVO), eletrificação e hidrogênio indicam que a transição energética já começou — e pode ser acelerada por fatores geopolíticos, como a crescente tensão no Oriente Médio.

Especialistas apontam que o transporte, em todos os modais, continuará dependente de combustíveis fósseis por pelo menos duas décadas. Ainda assim, cada ponto percentual de substituição do diesel ou da gasolina por combustíveis renováveis representa um avanço relevante tanto para as empresas de transporte quanto para a estratégia energética do país.

No Brasil, essa transição já se materializa em diferentes iniciativas. Ao longo dos últimos anos, a Frota News publicou mais de duas centenas de reportagens e análises sobre experiências práticas envolvendo transportadores, embarcadores, montadoras e empresas de energia. Esses conteúdos integram a seção Frota Sustentável, que funciona como um verdadeiro hub de informações e cronologia da evolução da descarbonização no transporte brasileiro.

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A consolidação dessas iniciativas já ocorre em diferentes frentes, ainda que em ritmos distintos. Empresas de transporte de cargas e passageiros começam a testar novas soluções energéticas em rotas específicas, enquanto montadoras ampliam seus portfólios com tecnologias capazes de operar com combustíveis de menor intensidade de carbono.

Vantagem estratégica brasileira

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem rara em comparação com muitos países: a possibilidade de avançar na descarbonização por meio de diferentes rotas tecnológicas baseadas em recursos locais.

Enquanto diversas economias concentram sua estratégia quase exclusivamente na eletrificação, o modelo brasileiro tende a ser mais diversificado. Etanol, biodiesel, biometano e o diesel verde (HVO) compõem um ecossistema energético capaz de reduzir emissões sem exigir uma ruptura abrupta da infraestrutura existente.

Frota News
Edição 54

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Biometano avança no transporte pesado

Entre os combustíveis renováveis que ganham espaço no transporte rodoviário está o biometano. Em apenas dois anos, a produção nacional deve saltar de 656 mil metros cúbicos por dia (dados de outubro de 2025) para 2,3 milhões de m³/dia até 2027, um crescimento de 215% segundo estudo da Copersucar. Esse avanço é impulsionado pela valorização de resíduos da agropecuária, de aterros sanitários e da indústria sucroenergética, que passam a ser vistos como insumos energéticos estratégicos, e não apenas passivos ambientais.

O Estado de São Paulo sintetiza esse movimento. Hoje, concentra cerca de 40% da capacidade instalada de biometano do País, com oito plantas autorizadas que produzem aproximadamente 500 mil m³/dia, e sete novas unidades em fase de autorização que deverão levar o volume a mais de 700 mil m³/dia até dezembro de 2026. No longo prazo, o potencial paulista chega a 36 milhões de m³/dia, volume suficiente para substituir integralmente o consumo industrial de gás natural ou até 85% do diesel utilizado no transporte rodoviário no Estado.

Biodiesel e o debate sobre o B20

Outro pilar da estratégia brasileira de descarbonização do transporte é o biodiesel. O combustível renovável já integra a mistura obrigatória do diesel comercializado no país e sua participação tende a crescer nos próximos anos.

A discussão sobre a ampliação dessa mistura ganhou força nas últimas semanas. A AliançaBiodiesel, iniciativa conjunta entre a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO), acompanha com entusiasmo os testes com a mistura B20 — que elevaria para 20% a participação do biodiesel no diesel.

O tema foi debatido durante a 4ª Reunião do Subcomitê de Viabilidade Técnica de Misturas, realizada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no início de março. Para o setor, os testes representam um passo importante para consolidar o papel dos biocombustíveis na matriz energética nacional.

Segundo Jerônimo Goergen, presidente da APROBIO, a previsibilidade regulatória é fundamental para o crescimento do setor.

“A previsibilidade do aumento da mistura é essencial. Ela permite planejamento, investimento e expansão da produção. Os testes com B20 demonstram que o Brasil tem condições técnicas e estruturais de avançar”, afirmou. Na mesma linha, André Nassar, presidente-executivo da ABIOVE, destaca que a ampliação da mistura pode representar um salto importante na agenda climática brasileira.

HVO surge como alternativa imediata

Outra tecnologia que começa a ganhar espaço no debate energético é o HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), conhecido como diesel verde.

Diferentemente do biodiesel convencional, o HVO possui características químicas muito semelhantes às do diesel fóssil. Isso permite que ele seja utilizado em motores existentes sem necessidade de adaptações relevantes, tornando-se uma alternativa atraente para acelerar a redução de emissões em frotas já em operação.

Transição depende de políticas e infraestrutura

Apesar dos avanços tecnológicos, especialistas ressaltam que a transição energética exige estabilidade regulatória, políticas públicas consistentes e investimentos em infraestrutura de produção e distribuição.

Para os transportadores, a decisão de adotar novos combustíveis continua sendo essencialmente econômica. O fator ambiental ganha peso, principalmente em contratos com grandes embarcadores e multinacionais comprometidas com metas de descarbonização, mas a viabilidade financeira ainda é determinante.

Tensão no Oriente Médio pressiona mercado

A relevância dessa discussão torna-se ainda maior diante do cenário geopolítico internacional. A escalada das tensões no Oriente Médio elevou o nível de instabilidade no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, segundo dados da U.S. Energy Information Administration.

O impacto já começa a aparecer nos mercados internacionais. De acordo com informações divulgadas pela Reuters, o preço do barril de petróleo registrou alta de aproximadamente 13% e superou os US$ 83 no início de março.

No Brasil, os reflexos surgem na pressão sobre os preços da gasolina e do diesel nas refinarias, além do aumento dos custos logísticos internacionais.

Para Carlos Panzan, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), o cenário preocupa o setor.

“O transporte rodoviário de cargas já opera com margens pressionadas e enfrenta desafios estruturais. Quando há uma alta expressiva no combustível, as empresas precisam renegociar contratos, rever tabelas de frete e lidar com um ambiente de insegurança econômica”, afirma.

Impacto direto no custo do frete

O diesel representa uma das maiores parcelas do custo operacional das transportadoras. Qualquer aumento abrupto afeta diretamente as margens do setor e impacta toda a cadeia produtiva.

Quando o custo do frete sobe, os reflexos aparecem rapidamente nos preços de alimentos, medicamentos, insumos industriais e bens de consumo, ampliando a pressão inflacionária.

Além disso, a volatilidade do petróleo dificulta a formação de contratos de médio e longo prazo, reduz a previsibilidade financeira das transportadoras e compromete investimentos em renovação de frota, tecnologia e sustentabilidade.

Segundo Panzan, a previsibilidade é essencial para o setor continuar operando com eficiência.

“Defendemos equilíbrio e estabilidade na política de preços dos combustíveis. O transporte rodoviário de cargas é responsável pelo abastecimento das cidades e precisa de um ambiente econômico previsível para garantir competitividade, geração de empregos e continuidade dos serviços”, afirma.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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