A Frota News conversou com Hugo Zattera, diretor-presidente da Agrale, para entender como a única montadora 100% brasileira consolidou uma presença de mais de meio século na Argentina. O processo ganhou força em 2008, com a abertura da fábrica da Agrale Argentina S.A., em Mercedes, província de Buenos Aires, hoje responsável por tornar a marca vice-líder no mercado de ônibus e integrar engenharia local e brasileira. E agora, ela vem se consolidando com novos projetos para a transição energética no transporte público na capital argentina.
Segundo Zattera, essa presença sólida no país vizinho não é apenas histórica, mas estratégica. A Agrale tornou-se parte essencial do sistema de transporte público argentino e hoje ocupa uma posição de destaque incomum para uma montadora de origem brasileira. “Atualmente, cerca de 50% da frota de ônibus de Buenos Aires é Agrale. Um dos maiores operadores de transporte público da cidade já conta com cerca de cinco mil ônibus da nossa marca”, afirma.
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Esse protagonismo também se reflete na transição energética do transporte argentino. A Agrale venceu a licitação para fornecer 82 ônibus elétricos ao novo sistema de mobilidade de Buenos Aires, estabelecendo-se como a única fabricante de ônibus elétrico em operação na Argentina. Serão 60 unidades do modelo MT 17.0 LEe, com capacidade para 75 passageiros, e 22 unidades do articulado MT 27.0 LEe, com capacidade para 135 pessoas. Os veículos fazem parte da renovação da frota do projeto TramBus, que introduz corredores eletrificados na capital argentina.

A escolha pelos modelos elétricos da Agrale confirma o avanço tecnológico da empresa e evidencia o papel de sua engenharia integrada — brasileira e argentina — no desenvolvimento de soluções adaptadas à operação urbana latino-americana. Além disso, os testes e homologações realizados nos últimos anos permitiram validar autonomia, desempenho e viabilidade operacional em rotas de alta demanda.
A empresa também aposta em tecnologias complementares ao elétrico, especialmente no uso de gás natural e biometano. Atualmente, a Agrale entrega, em média, dez ônibus a gás por mês na Argentina e já projeta dobrar essa quantidade para cerca de 20 unidades mensais em 2026. Para Zattera, o gás é uma alternativa realista para o cenário energético da região, garantindo redução de emissões e custo operacional competitivo, principalmente em cidades que ainda estruturam sua infraestrutura de recarga elétrica.
Foco em nichos de mercado
No Brasil, porém, a realidade é distinta. Embora seja a única montadora de capital integralmente nacional, a Agrale enfrenta um mercado de ônibus elétricos amplamente dominado por gigantes multinacionais — sobretudo fabricantes chinesas que atuam com volumes massivos e forte presença financeira. Essa condição limita a competitividade da empresa no segmento de elétricos no país, ao mesmo tempo em que abre espaço para um posicionamento estratégico focado em nichos.
Por isso, a fabricante brasileira está reforçando sua presença no segmento de veículos a gás, cujo potencial de crescimento no Brasil é impulsionado pela expansão do biometano e pela busca de alternativas para reduzir custos e emissões no transporte urbano. Além dos modelos de ônibus e caminhões de 11 toneladas já consolidados, Zattera revela que a Agrale prepara um novo caminhão de 17 toneladas de PBT movido a gás, ampliando sua oferta para operações de distribuição e logística regional.
“Somos uma indústria grande no Brasil, mas quando comparada às gigantes multinacionais, somos pequenos. Ainda assim, somos fortes em nichos de mercado, com modelos de sucesso, como o Marruá”, conclui Zattera.
O utilitário militar e off-road, amplamente reconhecido por sua robustez, simboliza a estratégia da Agrale de operar com foco em especialização, diferenciação e adaptação às necessidades específicas de seus clientes — tanto no Brasil quanto fora dele.
Com presença consolidada na Argentina, aposta crescente em energias alternativas e diversificação de portfólio, a Agrale reafirma sua capacidade de competir de forma relevante em um ambiente industrial globalizado e altamente desafiador, mantendo sua identidade de fabricante brasileira com projeção internacional.


