quinta-feira, janeiro 29, 2026

Unimog 80 anos: De operário de guerra a ícone do luxo off-road

O Mercedes-Benz Unimog é, sem dúvida, um dos veículos mais versáteis já criados pela engenharia alemã. Nascido no pós-guerra como uma máquina agrícola, ele evoluiu para se tornar a espinha dorsal de exércitos, bombeiros e equipes de resgate em todo o planeta. Agora, prestes a completar 80 anos em 2026, o modelo ganha um capítulo inédito que une sua lendária força bruta a um requinte digno da divisão Maybach.

Uma lenda que desbravou o Brasil

No Brasil, a história do Unimog é escrita em terrenos onde nenhum outro veículo ousa chegar. Embora nunca tenha sido um item de prateleira nas concessionárias nacionais da Mercedes-Benz, o modelo se tornou peça fundamental na defesa e infraestrutura do país.

As Forças Armadas brasileiras, especialmente o Corpo de Fuzileiros Navais, utilizaram o Unimog há décadas para operações anfíbias e logísticas em terrenos pantanosos ou arenosos. Mais recentemente, o modelo U5000 reforçou essa frota, reafirmando que, para o governo brasileiro, o Unimog não é um caminhão, mas uma ferramenta de soberania. No setor civil, ele é a visão rara de colecionadores e empresas de energia que precisam alcançar torres de transmissão no topo de serras inacessíveis.

O salto para o luxo: O carro de exposição de 80 anos

Para celebrar as oito décadas dessa trajetória, a Mercedes-Benz Special Trucks, em parceria com a especialista Hellgeth Engineering, revelou em dezembro de 2025 uma versão que redefine o segmento. Trata-se de um “Show Car” baseado no robusto U 4023, mas com modificações que o elevam ao patamar de um super-SUV de luxo.

“Com o luxuoso carro de exposição Unimog, realizamos nossa visão de combinar a lendária robustez com um padrão totalmente novo de conforto. Este Unimog é uma declaração de inovação e paixão”, afirma Franziska Cusumano, CEO da Mercedes-Benz Special Trucks.

Potência e tecnologia de ponta

Diferente da versão padrão, este modelo comemorativo recebeu um transplante de coração: o motor de quatro cilindros deu lugar ao potente OM 936 de seis cilindros, entregando 300 hp (220 kW). Esta mudança não só garante maior torque para situações extremas, mas também um rodar mais suave e silencioso.

As inovações tecnológicas também marcam presença:

  • MirrorCam: Substituição dos retrovisores físicos por câmeras digitais, melhorando a visibilidade em trilhas estreitas.

  • Design Exterior: Pintura em cinza fosco, rodas de alumínio exclusivas e um sistema de iluminação em LED que confere um visual moderno e agressivo.

  • Interior Premium: A cabine dupla, que acomoda até quatro pessoas, foi revestida em couro de alta qualidade, com bancos ergonômicos, costuras personalizadas e tapetes de couro, transformando a experiência de dirigir no deserto ou na lama em um evento de gala.

O futuro no Brasil e no mundo

Embora este modelo de 80 anos seja um protótipo destinado a testes reais com clientes selecionados em 2026, ele sinaliza um novo horizonte para a marca. No Brasil, enquanto a Mercedes-Benz foca no Arocs para a produção em massa e mineração, o Unimog continua sendo o sonho de consumo para expedições de luxo e uso governamental especializado.

Este novo conceito prova que, aos 80 anos, o Unimog não está se aposentando; ele está apenas trocando as botas de borracha por um traje sob medida, sem perder a capacidade de atravessar rios e escalar montanhas.

O “Coração” do novo Unimog – O motor OM 936

A substituição do motor padrão de 4 cilindros pelo OM 936 de seis cilindros no modelo de 80 anos não é apenas uma questão de potência, mas de engenharia de performance.

  • Configuração: Trata-se de um motor de 7,7 litros que utiliza a tecnologia BlueTec 6. No Unimog comemorativo, ele entrega 300 cv e um torque impressionante que surge já em baixas rotações (essencial para o off-road extremo).

  • Gerenciamento térmico: Uma das grandes dificuldades de colocar um motor de 6 cilindros no chassi compacto do Unimog é o calor. A Hellgeth Engineering trabalhou para garantir que o sistema de arrefecimento suporte o esforço em baixa velocidade (sem o fluxo de ar natural das rodovias).

  • Transmissão otimizada: Com mais torque disponível, a transmissão automática foi reprogramada para oferecer trocas mais suaves, reduzindo o tranco característico dos veículos militares e tornando a condução “luxuosa” como proposto pela CEO Franziska Cusumano.

Os primeiros passos no Brasil (Anos 50 e 60)

A história do Unimog no Brasil começou muito antes da Mercedes-Benz se consolidar como a gigante dos caminhões que é hoje.

O pioneirismo agrícola

Nos anos 50, o Unimog chegou ao Brasil com sua proposta original: um dispositivo motorizado universal (Universal-Motor-Gerät). Ele era visto como um híbrido entre trator e caminhão.

  • As primeiras unidades (modelos 401 e 411) foram importadas para ajudar na mecanização agrícola no interior de São Paulo e Paraná.

  • Eles eram equipados com a famosa tomada de força (PTO), que permitia ligar serras, arados e bombas de água diretamente no motor do veículo.

O uso militar e a consolidação

Na década de 60, com a necessidade de patrulhar fronteiras e construir estradas em locais remotos, o Exército Brasileiro identificou no Unimog a ferramenta perfeita.

  • O Modelo 404 (S): Foi um dos mais icônicos desse período. Com motor a gasolina (para facilitar a logística militar da época) e um vão livre do solo altíssimo graças aos eixos portais, ele se tornou o padrão para ambulâncias militares e unidades de rádio em terrenos onde os jipes comuns atolavam.

  • A “Mística” da manutenção: Muitos desses veículos dos anos 60 ainda sobrevivem hoje em mãos de colecionadores brasileiros. Eles são valorizados pela simplicidade mecânica e pela durabilidade do chassi, que foi projetado para torcer até 30º sem quebrar.

Curiosidade: O Unimog “brasileiro”?

Embora nunca tenha sido fabricado integralmente aqui, nos anos 70 e 80, a Mercedes-Benz do Brasil (em São Bernardo do Campo) prestava suporte total a esses veículos e chegou a nacionalizar diversos componentes de reposição para as Forças Armadas, o que criou uma expertise local única na América Latina sobre o modelo.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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