Com dados de uma reportagem técnica da revista espanhola de grande reputação “Camion Actualidad” sobre a expansão do HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado) como a alternativa mais eficiente e econômica ao diesel em 2025, a Frota News abre o debate se o Brasil ainda patina na regulamentação e na produção desse biocombustível avançado. A comparação entre os dois países revela caminhos distintos e aponta oportunidades estratégicas para o setor de transporte brasileiro.
Espanha: HVO já é realidade e lidera o TCO no transporte pesado
Segundo o relatório “TCO y emisiones de CO₂ en España: camiones diésel y alternativos en 2025”, elaborado por IRU (União Internacional dos Transportes Rodoviários, entidade global que representa empresas de transporte e logística e produz estudos, dados e recomendações para o setor), o HVO se tornou a melhor alternativa ao diesel e biodiesel tradicional para o transporte pesado. O HVO é uma alternativa superior ao biodiesel brasileiro, considerado ainda de primeira geração e com muitos problemas de controle de qualidade em sua produção e logística de distribuição.
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Principais destaques do cenário espanhol
- Emissões até 90% menores: caminhões a HVO emitem entre 94 e 105 gCO₂/km, contra mais de 900 gCO₂/km do diesel fóssil.
- Melhor TCO do mercado:
- HVO: 0,64 €/km (R$ 4,17/km)
- Diesel moderno: 0,66 €/km (R$ 4,30/km)
- GNC/GNL: 0,75 €/km (R$ 4,89/km)
- Elétricos: 0,80 €/km (R$ 5,22/km)
- Hidrogênio: 1,00 €/km+ (R$ 6,52/km+)
- Sem necessidade de adaptar veículos ou infraestrutura.
- Estratégia nacional clara: renovação da frota com motores modernos e uso imediato de combustíveis renováveis.
- Validação acadêmica: estudo revisado pela Graz University of Technology.
A Espanha encara o HVO como solução imediata, enquanto eletrificação e hidrogênio avançam em paralelo, mas ainda com limitações de custo e infraestrutura. Aliás, em 2025, segundo publicado pela revista “Exame”, os 60 maiores projetos globais para produção de hidrogênio verde foram cancelados por problemas de viabilidade econômica.
Brasil: potencial gigantesco, mas sem marco regulatório
O Brasil possui uma das maiores capacidades do mundo para produzir HVO — graças à abundância de soja, sebo bovino, palma e outras matérias‑primas — mas ainda não transformou esse potencial em política pública ou escala industrial.
Principais desafios brasileiros
- Ausência de regulamentação específica para HVO.
- Dependência do biodiesel FAME, que tem limitações técnicas para uso em motores pesados modernos.
- Produção nacional incipiente, com projetos ainda em fase de implantação.
- Custo elevado, já que parte do HVO disponível é importada.
- Falta de incentivos fiscais e metas de descarbonização para o transporte rodoviário.
O que significa dependência do biodiesel FAME, que tem limitações técnicas para uso em motores pesados modernos?
No Brasil, o principal biocombustível renovável usado hoje é o biodiesel FAME (Fatty Acid Methyl Ester), que é o biodiesel tradicional misturado ao diesel comum — atualmente na proporção B15.
Mas o FAME tem limitações técnicas importantes, especialmente para caminhões modernos Euro 5 e Euro 6:
FAME x HVO: Diferenças que o gestor de frotas precisa conhecer
O que são
- FAME (Biodiesel tradicional)
- Éster metílico de ácidos graxos. É o biodiesel usado na mistura obrigatória do diesel brasileiro (B15).
- HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado). Biocombustível avançado, quimicamente semelhante ao diesel mineral, produzido por hidrotratamento.
Comparativo Técnico
| Critério | FAME (Biodiesel) | HVO (Diesel Renovável) |
| Compatibilidade com motores modernos | Limitada acima de 15% | Total (pode ser usado puro – HVO100) |
| Estabilidade térmica | Baixa (oxida e degrada) | Muito alta |
| Risco de formação de borras | Alto | Praticamente zero |
| Absorção de água | Alta | Quase nula |
| Performance em clima frio | Pode gelificar | Excelente fluidez |
| Densidade energética | Menor que o diesel | Igual ou superior ao diesel |
| Emissões | Reduzidas, mas variáveis | Redução de até 90% de CO₂ |
| Necessidade de adaptação | Nenhuma, mas com limites | Nenhuma, inclusive para uso 100% |
Impacto no Transporte Pesado
FAME
Funciona, mas traz riscos operacionais em motores Euro 5 e Euro 6, especialmente em frotas que não contam com uma manutenção rigorosa.
HVO
Entrega desempenho igual ou superior ao diesel, com emissões muito menores e sem impacto na manutenção.
O FAME é importante para a matriz energética brasileira, mas não atende plenamente às exigências dos motores pesados modernos.
O HVO, por sua vez, é um biocombustível avançado, mais estável, mais limpo e totalmente compatível com a frota atual — sendo a solução mais imediata para descarbonizar o transporte pesado sem alterar infraestrutura.
Consumo atual de HVO na Europa e Estados Unidos
O consumo de HVO cresce rapidamente na Europa, que hoje é o maior mercado global desse biocombustível avançado. Em 2024, os países da União Europeia utilizaram cerca de 5,6 milhões de toneladas, impulsionados por metas rígidas de descarbonização e políticas como a RED III. O HVO já é o segmento mais dinâmico dentro do mercado europeu de biodiesel, com forte uso de matérias‑primas residuais e expansão contínua desde 2019.
Nos Estados Unidos, o cenário também é de forte expansão. O país produziu 10,2 milhões de toneladas de biodiesel em 2022 (somando FAME e HVO), e o diesel renovável vem ganhando participação rapidamente graças a programas como o RFS e o LCFS da Califórnia. Embora os dados oficiais não separem totalmente o HVO do biodiesel tradicional, o mercado norte‑americano já aponta para um crescimento acelerado do HVO, especialmente em estados com políticas ambientais mais rigorosas.
Brasil precisa agir para não perder a janela de oportunidade
A experiência espanhola mostra que o HVO pode ser a solução mais imediata, econômica e sustentável para o transporte pesado. O Brasil, com sua abundância de matéria‑prima e forte setor agroindustrial, tem condições de se tornar líder mundial na produção desse combustível — mas depende de decisões regulatórias e industriais urgentes.
Enquanto isso, gestores de frotas brasileiros podem acompanhar de perto o avanço europeu e pressionar por políticas que permitam ao país acelerar sua própria transição energética.


