Com mais de 20 mil trabalhadores avaliados, consultoria aponta que engajar as equipes é a maior barreira; Rumo reforça necessidade de gestão mais humanizada diante de jornadas longas, fadiga e impacto emocional da atividade.
A adequação à Norma Regulamentadora 1 (NR-1) entrou definitivamente no radar das empresas de transporte e logística. A obrigatoriedade de diagnosticar riscos psicossociais, vigente desde 2023 e com prazo final de adequação até maio de 2026, exige mais que formulários ou checklists: demanda engajamento real dos trabalhadores e uma mudança profunda na cultura interna.
É o que mostram os dados de uma análise conduzida pela Alper Seguros com 20.397 colaboradores, revelando que o maior desafio das empresas não é a burocracia, mas sim envolver as equipes no preenchimento dos questionários que dão base ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Em entrevista à Frota News, representantes da Alper e da Rumo detalham os impactos da norma e os caminhos para integrar saúde mental, segurança e produtividade no setor.
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Mudanças da NR-1: fim das ações pontuais e início da gestão contínua
Para Paula Gallo, diretora de Gestão de Riscos e Saúde da Alper Seguros, a NR-1 exige uma mudança de postura:
“As empresas serão obrigadas a acompanhar continuamente todas as ações voltadas às condições de trabalho e saúde mental. Muitas atuam apenas de forma emergencial, quando um problema já está instalado. A norma reforça a necessidade de sermos preventivos e proativos.”
Segundo ela, o PGR passa a incluir obrigatoriamente um plano de ação para gerenciamento dos riscos psicossociais, com monitoramento periódico e comprovação de efetividade — um avanço especialmente relevante para o setor de transportes, onde jornadas extensas, pressão por prazos e isolamento são recorrentes.
A Rumo, maior companhia ferroviária da América Latina, reforça que a inclusão dos fatores psicossociais amplia significativamente a responsabilidade das empresas.
A enfermeira do trabalho Laís Silva Papasidio explica:
“A empresa passa a considerar não só riscos físicos, mas também mentais e organizacionais. Isso exige olhar atento para jornadas, metas, escalas e condições de trabalho.
É uma gestão mais humana e equilibrada.”
Ela destaca que reconhecer o trabalhador como ser integrado — físico, mental e social — exige reavaliar processos e criar ambientes mais sustentáveis.
A Alper acrescenta que pausas programadas, controle adequado de jornadas, ergonomia nos centros logísticos e oferta de suporte psicológico são essenciais para reduzir sobrecarga e prevenir adoecimento.
Como identificar estresse, fadiga e sobrecarga?
As empresas também precisam de ferramentas eficazes para mapear e monitorar riscos psicossociais. Paula Gallo explica que questionários estruturados, entrevistas, mapeamento de riscos e indicadores de clima organizacional compõem um sistema eficaz — desde que apoiado por equipes multidisciplinares de RH e SESMT.
Treinamentos de direção defensiva e uso adequado de EPIs complementam o cuidado.
Onde os riscos aparecem primeiro?
Tanto Alper quanto Rumo destacam que os sinais iniciais de esgotamento costumam ser silenciosos:
- Irritabilidade e alterações de humor
- Fadiga persistente
- Dificuldade de concentração
- Isolamento social
- Queda de desempenho
- Distúrbios do sono
- Sintomas físicos sem causa aparente
Entre motoristas, a solidão da profissão intensifica depressão, ansiedade e sensação de derrotas diante das condições adversas de trabalho.
Segundo a Alper, empresas que já possuem cultura de discussão sobre saúde mental têm maior adesão às ações previstas pela NR-1. No setor de frotas, a pulverização dos trabalhadores — muitos constantemente na estrada — torna a comunicação mais difícil, exigindo estratégias adaptadas a cada realidade.
Entre as soluções adotadas pela consultoria estão:
- Treinamento em Primeiros Socorros em Saúde Mental
- Brigada de Saúde Mental
- Programas de qualidade de vida alinhados ao PGR
A chave é que a equipe perceba as ações como apoio real, e não como mera exigência legal.
Para a Rumo, produtividade e saúde mental não se opõem — desde que a gestão seja estruturada e humana. A empresa defende seis pilares:
- Metas realistas
- Diálogo e escuta ativa
- Reconhecimento equilibrado
- Pausas e condições adequadas
- Programas de bem-estar e suporte emocional
- Formação de líderes empáticos
“Produtividade sustentável só existe quando o trabalhador está saudável, engajado e respeitado”, reforça Laís Papasidio.
Tecnologia: vilã ou aliada? Depende de como é usada
Apesar de telemetria, rastreamento e monitoramento de jornada serem fontes de ansiedade para alguns motoristas, essas tecnologias também podem ser fortes aliadas na prevenção do adoecimento.
De acordo com Paula Gallo:
“Softwares de rotas, sistemas de gestão integrada e até inteligência artificial podem reduzir tempo de trânsito, identificar padrões de fadiga e enviar alertas preventivos. O importante é que sejam usados para cuidado — não apenas controle.”
Quando há transparência no uso dos dados e participação dos motoristas nas decisões, a percepção de vigilância dá lugar à confiança.
As entrevistas revelam que os impactos da NR-1 vão muito além de evitar multas. A norma impulsiona uma agenda de transformação que melhora clima, reduz acidentes, qualifica a gestão e fortalece a reputação das empresas.
Mais do que obrigação legal, é uma oportunidade de colocar as pessoas no centro — e, com isso, impulsionar segurança, produtividade e competitividade.


