quinta-feira, janeiro 29, 2026

Minas traça 30 anos de obras: esperança, risco e dúvidas no plano de R$ 1,8 trilhão 

Minas Gerais anunciou aquilo que governos e setores produtivos repetem como mantra: planejamento de longo prazo. O Plano Estadual de Logística e Transportes de Minas Gerais (PELT-MG) mapeou mais de 900 projetos, distribuídos em cerca de 9.000 obras, com horizonte até 2055 — e uma cifra impressionante à volta disso: R$ 1,8 trilhão em investimentos “em avaliação”. O pacote promete modernizar rodovias, ferrovias, hidrovias e aeroportos, atrair capitais privados e reduzir custos operacionais que hoje penalizam produtores e transportadores. Mas, por trás dos números, há lacunas importantes, riscos institucionais e sociais, e um desafio técnico-político de execução que exigirá muito mais do que vontade política. 

O PELT-MG não é apenas uma lista de obras: segundo a secretaria responsável, o diagnóstico usou simulações com métodos internacionais, o Five Case Model, e dados de big data (telefonia móvel e invoices) para mapear demanda real por transporte. A intenção declarada é construir uma carteira priorizada, avaliando impactos socioeconômicos e ambientais, e favorecer complementaridade entre investimentos públicos e privados. Para o curto prazo, o plano prioriza ~480 empreendimentos e estima R$ 513 bilhões em investimentos potenciais nos próximos cinco anos — dos quais R$ 145 bilhões estariam ainda em concepção. 

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O secretário de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias, Pedro Bruno, sintetiza a proposta: pensar o que será gargalo daqui a 5, 10, 15 ou 20 anos e ordenar investimentos com visão de Estado. A criação da ARTEMIG, agência reguladora de transportes do Estado, sancionada em 2025, é apresentada como mecanismo para dar previsibilidade aos contratos pluridecenais. Mas planejamento e institucionalidade só valem se houver transparência, fontes de recursos claras e capacidade operacional para traduzir projetos em obras entregues. 

educação logística
Parceria conta com participação do corpo docente especializado em logística

Parte da justificativa é imediata: Minas possui a maior malha rodoviária do País e concentra pontos críticos que impactam custo e segurança. A Pesquisa CNT de Rodovias 2024 destacou, no Estado, 338 pontos críticos — somando problemas como erosões, grandes buracos e pontes estreitas — e calculou que a má condição do pavimento aumenta o custo operacional do transporte em torno de 37%, além de forçar consumo extra estimado em 187,3 milhões de litros de diesel e prejuízos por acidentes estimados em R$ 1,94 bilhão. Esses números oferecem argumento econômico ao plano: recuperar a infraestrutura pode reduzir custos logísticos e elevar competitividade. 

Onde as promessas encontram o terreno: riscos financeiros e de execução 

A cifra de R$ 1,8 trilhão representa “investimentos em avaliação” até 2055 — uma estimativa agregada que precisa de detalhamento. Em matérias e comunicados há variações numéricas e diferentes recortes temporais: enquanto o anúncio oficial agrega esse horizonte de longo prazo, o montante de curto prazo a ser efetivamente mobilizado (R$ 513 bilhões) depende fortemente de aporte privado e coordenação com a União — nem tudo é obrigação do Tesouro mineiro. A pergunta operacional imediata é: quanto será financiamento estatal vs. investimento privado vs. aportes federais, e qual o cronograma realista de desembolsos? Sem essa decomposição, o número massivo serve mais como vitrine do que como compromisso executório.  

Além disso, obras de grande porte historicamente sofrem com subestimação de custos, atrasos e litígios — fatores que exigem contingências robustas. A transição de planos em estudos para contratos em andamento exige capacidade técnica da administração estadual, inteligência na modelagem de risco das parcerias público-privadas e um sistema de governança capaz de fiscalizar 20, 30 anos de contratos. A criação da ARTEMIG é um passo, mas a agência ainda terá de provar independência técnica, governança e transparência na prática.  

Impactos sociais e ambientais: consultas e conflito territorial 

Obras logísticas costumam esbarrar em questões socioambientais: licenciamento, desapropriações, e consultas a comunidades tradicionais são pontos sensíveis. Projetos como o Rodoanel Metropolitano de BH já levantaram questionamentos sobre consulta a comunidades quilombolas e processos de licenciamento local. O plano afirma avaliar impactos socioambientais — mas resta checar como serão feitas as consultas e mitigações e se haverá garantias de direitos em conformidade com a legislação e jurisprudência sobre povos e comunidades tradicionais. Sem diálogo estruturado, grandes corredores logísticos podem gerar litígios que atrasam obras e elevam custos.  

Para além do envelope macro, jornalistas e analistas miram a prova de fogo: quais projetos entram na fase de licitação, quais têm estudos de viabilidade ambiental concluídos e quais já têm garantias de financiamento? O PELT priorizou 488 empreendimentos com potencial de atração de R$ 513 bilhões — o cruzamento entre essa lista e o status real de cada projeto (estudo, outorga, contrato de financiamento, licença ambiental) é a bússola para avaliar a execução. Um estudo de profundidade deve mapear, por exemplo, 10 projetos prioritários (rodovia, ferrovia, terminal) e verificar cronogramas, estudos, proprietários de obra e condicionantes socioambientais.  

Conclusão — por que isso importa para logística e transporte 

Se bem executado, o PELT-MG tem potencial para reduzir gargalos logísticos que hoje elevam custos, melhorar segurança viária, e integrar Minas a corredores nacionais e internacionais com ganho de competitividade. Mas planejamento de longo prazo em infraestrutura só se converte em benefício se vier acompanhado de financiamento realista, governança profissional, transparência e respeito a condicionantes socioambientais. Para o setor de transporte e logística, a chave é fiscalizar — técnica e politicamente — as primeiras frentes de obra: o que se entrega no curto prazo dirá se Minas pode cumprir a ambição para 2055. (Codemge) 

Fontes-chave consultadas para esta reportagem 
  • Páginas oficiais e materiais do PELT-MG / Codemge / Seinfra. (Codemge) 
  • Lei estadual nº 25.235/2025 (criação da ARTEMIG). (Assembleia MG) 
  • Pesquisa CNT de Rodovias 2024 (relatório). (Agência CNT) 
  • Cobertura jornalística sobre o lançamento do PELT e números divulgados (Diário do Comércio, agências setoriais).  
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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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