Em 1960, o Brasil vivia uma onda de otimismo com a industrialização acelerada e a inauguração da nova capital federal, Brasília. Nesse cenário de progresso, uma máquina fabricada no bairro do Ipiranga, em São Paulo, transformaria para sempre a paisagem agrícola do país: o Ford 8-BR, primeiro trator produzido em série no Brasil.
A chegada do 8-BR ao mercado não foi apenas o lançamento de um equipamento agrícola. Foi um marco. Pela primeira vez, o produtor rural brasileiro teve acesso a um trator desenvolvido e montado no país, com peças nacionais, assistência técnica local e preço competitivo. A produção começou timidamente, com apenas 32 unidades em 1960, mas logo ultrapassaria 10 mil unidades até meados da década — sinal claro da rápida adoção pelo campo.
Feito para o Brasil
O Ford 8-BR era movido por um motor diesel Perkins 4,2 litros, com 56 cavalo de potência, tração 4×2 traseira e sistema hidráulico de três pontos. Com oito marchas à frente e duas à ré, adaptava-se bem a diferentes condições de solo e topografia. Pesando cerca de 2,2 toneladas, era robusto, eficiente e — acima de tudo — prático para o produtor brasileiro.
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Sua bitola ajustável entre 1,32 m e 1,63 m permitia o uso em culturas como milho, algodão e café. O consumo de apenas 4,7 litros de diesel por hora e a capacidade de arar mais de 3.500 m² por hora tornavam-no uma ferramenta poderosa de produtividade.
O trator ainda se destacava pelas cores verde e amarela, escolhidas para refletir o orgulho nacional — algo inédito para um equipamento agrícola da época.
Política industrial e transformação do campo
O Ford 8-BR foi viabilizado por um conjunto de ações do governo federal. Em 1959, o Plano Nacional da Indústria de Tratores Agrícolas incentivou empresas a produzirem localmente e a Ford foi uma das primeiras a aderir. A meta era clara: reduzir a dependência de tratores importados e levar a mecanização ao interior do país.
Em 9 de dezembro de 1960, a Ford lançou oficialmente o trator em Brasília, poucos dias antes do fim do governo Juscelino Kubitschek. O momento simbolizava a concretização do seu plano desenvolvimentista de “50 anos em 5”. No ano seguinte, o 8-BR foi apresentado ao grande público no Salão do Automóvel de São Paulo, com direito à presença do próprio JK experimentando a máquina.
Na prática, o trator inaugurou uma nova era. Propriedades de médio porte, antes dependentes de tração animal, passaram a preparar o solo, plantar e colher com muito mais rapidez e eficiência. O campo mudou — e com ele, a vida de milhões de trabalhadores rurais.
Impacto direto na agricultura brasileira
A adoção do Ford 8-BR impulsionou o crescimento da produção agrícola no país. Com ele, tarefas que antes levavam dias eram feitas em poucas horas. Isso permitiu ampliar áreas cultivadas e intensificar safras, preparando o terreno para a ascensão do Brasil como potência agroexportadora nas décadas seguintes.
Ao mesmo tempo, o trator provocou uma mudança social importante. A mecanização reduziu a necessidade de trabalho manual, contribuindo para o êxodo rural, mas também abriu novas oportunidades, como a profissão de tratorista e o surgimento de oficinas especializadas no interior.
Além disso, o sucesso do 8-BR serviu de estímulo para que outras marcas, como Valmet, Massey Ferguson e CBT, também investissem na produção nacional de tratores. O setor de máquinas agrícolas nascia com força total.
Legado e memória
Entre 1960 e 1967, foram produzidas 12.443 unidades do Ford 8-BR. Em seu auge, representava 22% do mercado nacional de tratores, ficando atrás apenas do popular Massey Ferguson 50. Com o fim da produção, em 1967, a Ford focou em novos projetos, mas a marca deixada pelo 8-BR nunca foi apagada.
Hoje, exemplares do trator pioneiro são restaurados por colecionadores e expostos em feiras e museus. Alguns ainda trabalham em pequenas propriedades, resistindo ao tempo como testemunhas vivas de uma virada histórica no campo brasileiro.
Um símbolo do Brasil que queria crescer
O Ford 8-BR não foi apenas um trator. Foi um símbolo. Representou um país que acreditava no progresso, que investia em sua indústria e que começava a entender o valor estratégico da sua agricultura.
Mais de 60 anos depois, olhar para um 8-BR é lembrar de um Brasil que apostava em sua própria capacidade de inovar e transformar. E que, com tração nas rodas e orgulho no peito, começou a mecanizar seus campos para alimentar o mundo.
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