Uma denúncia apresentada pela Abraciclo (associação dos fabricantes de motos) à Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor (Senacon) levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a instaurar processo administrativo contra a Shineray, marca que tem vários de seus modelos utilizados em frotas e logística urbana.
O caso, deflagrado em novembro do ano passado e tornado público nesta semana, coloca sob escrutínio o cumprimento de requisitos técnicos ambientais e de segurança em motocicletas comercializadas no País — tema sensível para gestores de logística urbana e empresas comprometidas com compliance e ESG.
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A entidade que representa os fabricantes de motocicletas, ciclomotores, motonetas e bicicletas afirma que modelos da empresa não atenderiam integralmente às exigências regulatórias. Em manifesto divulgado, a Abraciclo destacou que atua “em defesa dos interesses do consumidor e da competitividade do setor de duas rodas”, e que apontou à Senacon “irregularidades técnicas em elementos essenciais ao atendimento às normas ambientais e de segurança veicular estabelecidas pelas autoridades regulatórias”.
Segundo a denúncia, há suspeitas de que motocicletas da marca estariam chegando às ruas sem componentes como catalisador, cânister e sistema de ventilação do cárter — dispositivos fundamentais para o controle de emissões e para o atendimento aos limites ambientais vigentes. A associação sustenta que, para operar no mercado brasileiro, seja com produção local ou importação, todas as empresas devem cumprir integralmente a legislação, independentemente da origem ou porte.
A Senacon notificou a Shineray para apresentar defesa no prazo de 20 dias corridos. Caso não haja resposta ou as informações sejam consideradas insuficientes, o procedimento poderá avançar para medidas administrativas previstas na legislação de defesa do consumidor. O processo está em fase inicial.
Em nota, a fabricante afirmou que seus produtos “seguem os padrões técnicos, normativos e legais exigidos pelos órgãos competentes”, estando, segundo a empresa, plenamente regulares.
Crescimento acelerado e relevância no mercado
Com atuação no Brasil há quase duas décadas, a Shineray mantém desde 2015 uma fábrica no Complexo Industrial de Suape, em Pernambuco — única planta do setor de motos fora do Polo Industrial de Manaus (AM). A capacidade produtiva instalada declarada é de até 300 mil unidades por ano.
O avanço comercial recente chama a atenção. De acordo com dados da Fenabrave, a marca acumulou mais de 130 mil unidades vendidas em 2025, recorde histórico e crescimento próximo de 70% em relação a 2024. Com isso, alcançou quase 6% de participação no mercado interno, ocupando a terceira colocação, atrás apenas da Honda (67%) e da Yamaha (14%).
A forte penetração, sobretudo na região Nordeste, ampliou a presença da marca em operações de entrega urbana, motofrete e serviços, segmentos em que custo de aquisição e manutenção são fatores decisivos.
Por que isso importa para a logística urbana
Para gestores de logística urbana, a notícia vai além de uma disputa regulatória entre associação e fabricante. Ela toca diretamente três pilares estratégicos das operações modernas: segurança, conformidade legal e responsabilidade ambiental.
- Risco regulatório e reputacional – Empresas que operam com frotas próprias ou terceirizadas de motocicletas podem ser impactadas caso haja eventual comprovação de não conformidade técnica. Além de possíveis sanções, há risco de dano reputacional, especialmente para companhias que assumem compromissos públicos de sustentabilidade.
- Compliance na cadeia de suprimentos – Grandes embarcadores e operadores logísticos estão cada vez mais atentos à rastreabilidade e à conformidade dos ativos utilizados na distribuição urbana. A escolha de veículos que atendam integralmente às normas ambientais e de segurança passa a ser critério estratégico.
- Metas ambientais e ESG – Componentes como catalisador e cânister são fundamentais para reduzir emissões evaporativas e poluentes atmosféricos. Em centros urbanos que já enfrentam desafios de qualidade do ar, a adoção de veículos potencialmente fora de especificação pode comprometer indicadores ambientais corporativos.
- Segurança operacional – Irregularidades técnicas podem impactar não apenas emissões, mas também desempenho e confiabilidade mecânica, afetando a segurança do condutor e a continuidade da operação.
Em um cenário de crescente pressão por descarbonização e por padrões mais rígidos de governança, a evolução desse processo será acompanhada de perto pelo mercado. Para as empresas de logística urbana, o episódio reforça a importância de auditoria técnica de fornecedores, análise criteriosa de ativos e alinhamento entre estratégia de custos e responsabilidade socioambiental.
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