Lá nos anos 1990, a Fiat Automóveis já defendia um programa governamental para a reciclagem do governo federal. Décadas se passaram, e ainda não existe um plano de Estado para a reciclagem de veículos como há em diversos outros países, como na Itália, berço da Fiat. Agora, cansada de esperar, a Stellantis — fabricante de marcas como Fiat, Jeep, RAM, Citroën e Peugeot — inaugurou, em Osasco (SP), o seu próprio centro de demonstagem veicular.
O investimento de R$ 13 milhões materializa a entrada definitiva da empresa no lucrativo — e ainda pouco explorado — mercado de reaproveitamento e remanufatura de peças no Brasil.
O empreendimento, batizado Circular Autopeças, nasce com capacidade para desmontar cerca de 8 mil veículos por ano, retirados de circulação por sinistro, fim de vida útil ou desativação de frotas. A “matéria-prima” virá de leilões, seguradoras e empresas de transporte.
- Reciclagem: Brasil ainda não sabe enterrar os veículos velhos
- Octa e Marcopolo: reciclagem de veículos antigos como economia circular
Além do discurso ambiental, há um mercado estimado pela própria montadora em R$ 2 bilhões por ano — e atualmente pouco aproveitado no país, já que apenas 1,5% a 2% dos veículos fora de uso são reciclados, contra índices acima de 90% na Europa e 95% no Japão.
Processo industrial e rastreabilidade
Antes do desmonte, cada veículo passa por descontaminação, com retirada e destinação correta de óleos, combustíveis e fluidos. Peças aproveitáveis seguem dois caminhos: reuso imediato ou remanufatura, ambos com rastreabilidade garantida pelo Detran-SP.
Materiais inservíveis — aço, plásticos, cobre e outros metais — são enviados a parceiros para reinserção em cadeias produtivas. “Temos destinação correta para 100% dos materiais desmontados”, afirma Paulo Solti, vice-presidente de Peças e Serviços da Stellantis América do Sul.
Venda física e online
Com estoque inicial de 10 mil itens, a Circular Autopeças inicia as vendas em loja física e canais digitais, já com presença em marketplace e planos para um e-commerce próprio. A planta emprega atualmente 60 funcionários, número que deve chegar a 150 até 2027.
O presidente da Stellantis na região, Emanuele Cappellano, não descarta a criação de novas unidades no Brasil. “Vamos acompanhar a experiência em Osasco e o avanço do mercado para avaliarmos”, disse.
Concorrência se move
A entrada da Stellantis também pressiona empresas já atuantes, como a Renova Ecopeças, do Grupo Porto, pioneira no segmento, mas desconhecida. No limite da capacidade atual, a Renova já iniciou obras para dobrar sua capacidade, visando atender à crescente demanda e às exigências ambientais do Plano Mover.
Análise: um divisor de águas para a economia circular automotiva
A inauguração do centro da Stellantis não é apenas mais um anúncio corporativo: trata-se de um movimento que pode redefinir o mercado de autopeças no Brasil. Ao assumir papel ativo na reciclagem e reaproveitamento, uma grande montadora legitima um setor historicamente marginalizado e dominado por pequenos desmontes, nem sempre em conformidade com normas ambientais e de segurança.
Se o modelo prosperar, poderá pressionar o poder público a ampliar a fiscalização e criar incentivos fiscais, estimulando índices de reciclagem próximos aos padrões internacionais. A Stellantis aposta que rentabilidade e sustentabilidade podem andar juntas — e, pelo visto, não quer perder tempo para ocupar esse espaço.


