A distância entre Europa e Brasil na adoção de veículos elétricos para o transporte de carga deixou de ser apenas conceitual e passou a ser estatística. Os números mais recentes de emplacamentos escancaram uma assimetria que vai muito além da oferta de produtos.
Na França, apenas um único cliente — o Grupo Petit Forestier, especializado em locação de veículos refrigerados — já colocou cerca de 300 unidades do Iveco eDaily em operação. No Brasil, em sentido oposto, a Iveco emplacou apenas duas unidades do eDaily no acumulado de 2025, segundo dados da Fenabrave.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o mercado como um todo: a soma das vendas de comerciais leves elétricos de carga e passageiros de 15 marcas diferentes totalizou 351 unidades nos 11 primeiros meses de 2025 — pouco mais do que o volume adquirido por uma única empresa europeia.
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Um abismo que vai além do preço
À primeira vista, a explicação poderia recair apenas sobre fatores conhecidos no Brasil: custo elevado dos veículos elétricos, infraestrutura de recarga limitada e ausência de incentivos consistentes. No entanto, o caso do Grupo Petit Forestier mostra que a diferença está também na forma como o veículo elétrico é inserido no ecossistema logístico.
Em setembro de 2022, o grupo francês assinou um acordo que prevê a encomenda de 2.000 chassis-cabine Iveco eDaily, equipados com carrocerias frigorificadas da Lecapitaine. O contrato não se limita à compra de veículos; ele integra uma estratégia ampla de descarbonização, alinhada às zonas de baixa emissão (ZFE) que se multiplicam nas cidades europeias e restringem cada vez mais o acesso de veículos a diesel.
Nesse contexto, o caminhão ou furgão elétrico deixa de ser um “ativo caro” e passa a ser um instrumento de viabilidade operacional, garantindo acesso a áreas urbanas, entregas silenciosas e previsibilidade regulatória.
Locação como catalisador da eletrificação
Outro ponto-chave é o papel do modelo de locação. Ao assumir o investimento inicial e oferecer o veículo como serviço, o Grupo Petit Forestier dilui riscos para seus clientes e acelera a adoção da tecnologia. A eletrificação, assim, não depende da decisão individual de cada operador logístico, mas de uma estratégia centralizada, com escala e padronização.
“Para enfrentar os desafios ambientais, nosso objetivo é oferecer aos clientes meios para operar ativos com menores emissões. Por isso, apoiamos ativamente a descarbonização de suas frotas”, afirma Yann Leriche, diretor de Ativos e Suprimentos do Grupo Petit Forestier.
No Brasil, onde a locação de veículos comerciais ainda avança de forma mais tímida no segmento de carga urbana especializada, essa alavanca praticamente não existe. A decisão de compra segue concentrada no operador final, que enfrenta margens apertadas, insegurança regulatória e ausência de incentivos fiscais robustos.
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Iveco financia caminhões a juros zero na Argentina

Em outra comparação, agora entre Brasil e Argentina, há um contraste marcante no acesso ao crédito para caminhões. Enquanto o Brasil opera com taxa Selic de 15% ao ano, encarecendo financiamentos e dificultando a renovação de frota, a Iveco Argentina conseguiu estruturar linhas de crédito muito mais competitivas, incluindo ofertas com juros nominais zero para prazos curtos. O cenário brasileiro reflete um ambiente macroeconômico restritivo, no qual o custo do dinheiro impacta diretamente transportadores, frotistas e o custo logístico do país.
Na Argentina, a Iveco Capital aposta em financiamentos em dólares e em pesos, com taxas fixas e prazos de até 36 meses, como estratégia para estimular o mercado. Há desde operações com TNA de 0% para contratos de até 11 meses até financiamentos mais longos com taxas ainda inferiores às praticadas no Brasil. Segundo a empresa, a combinação de previsibilidade, taxas competitivas e flexibilidade busca acompanhar o crescimento dos clientes e reforça como o crédito pode ser usado como ferramenta comercial, em contraste com a realidade enfrentada hoje pelo transportador brasileiro.


