quarta-feira, janeiro 28, 2026

Um cliente na França compra mais comercial elétricos do que todo o mercado brasileiro

A distância entre Europa e Brasil na adoção de veículos elétricos para o transporte de carga deixou de ser apenas conceitual e passou a ser estatística. Os números mais recentes de emplacamentos escancaram uma assimetria que vai muito além da oferta de produtos.

Na França, apenas um único cliente — o Grupo Petit Forestier, especializado em locação de veículos refrigerados — já colocou cerca de 300 unidades do Iveco eDaily em operação. No Brasil, em sentido oposto, a Iveco emplacou apenas duas unidades do eDaily no acumulado de 2025, segundo dados da Fenabrave.

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o mercado como um todo: a soma das vendas de comerciais leves elétricos de carga e passageiros de 15 marcas diferentes totalizou 351 unidades nos 11 primeiros meses de 2025 — pouco mais do que o volume adquirido por uma única empresa europeia.

Iveco
Dados de emplacamentos de comerciais leves elétricos. Fonte: Fenabrave

Um abismo que vai além do preço

À primeira vista, a explicação poderia recair apenas sobre fatores conhecidos no Brasil: custo elevado dos veículos elétricos, infraestrutura de recarga limitada e ausência de incentivos consistentes. No entanto, o caso do Grupo Petit Forestier mostra que a diferença está também na forma como o veículo elétrico é inserido no ecossistema logístico.

Em setembro de 2022, o grupo francês assinou um acordo que prevê a encomenda de 2.000 chassis-cabine Iveco eDaily, equipados com carrocerias frigorificadas da Lecapitaine. O contrato não se limita à compra de veículos; ele integra uma estratégia ampla de descarbonização, alinhada às zonas de baixa emissão (ZFE) que se multiplicam nas cidades europeias e restringem cada vez mais o acesso de veículos a diesel.

Nesse contexto, o caminhão ou furgão elétrico deixa de ser um “ativo caro” e passa a ser um instrumento de viabilidade operacional, garantindo acesso a áreas urbanas, entregas silenciosas e previsibilidade regulatória.

Locação como catalisador da eletrificação

Outro ponto-chave é o papel do modelo de locação. Ao assumir o investimento inicial e oferecer o veículo como serviço, o Grupo Petit Forestier dilui riscos para seus clientes e acelera a adoção da tecnologia. A eletrificação, assim, não depende da decisão individual de cada operador logístico, mas de uma estratégia centralizada, com escala e padronização.

“Para enfrentar os desafios ambientais, nosso objetivo é oferecer aos clientes meios para operar ativos com menores emissões. Por isso, apoiamos ativamente a descarbonização de suas frotas”, afirma Yann Leriche, diretor de Ativos e Suprimentos do Grupo Petit Forestier.

No Brasil, onde a locação de veículos comerciais ainda avança de forma mais tímida no segmento de carga urbana especializada, essa alavanca praticamente não existe. A decisão de compra segue concentrada no operador final, que enfrenta margens apertadas, insegurança regulatória e ausência de incentivos fiscais robustos.

Leia mais:

Iveco financia caminhões a juros zero na Argentina

Iveco
Fonte: Iveco Argentina

Em outra comparação, agora entre Brasil e Argentina, há um contraste marcante no acesso ao crédito para caminhões. Enquanto o Brasil opera com taxa Selic de 15% ao ano, encarecendo financiamentos e dificultando a renovação de frota, a Iveco Argentina conseguiu estruturar linhas de crédito muito mais competitivas, incluindo ofertas com juros nominais zero para prazos curtos. O cenário brasileiro reflete um ambiente macroeconômico restritivo, no qual o custo do dinheiro impacta diretamente transportadores, frotistas e o custo logístico do país.

Na Argentina, a Iveco Capital aposta em financiamentos em dólares e em pesos, com taxas fixas e prazos de até 36 meses, como estratégia para estimular o mercado. Há desde operações com TNA de 0% para contratos de até 11 meses até financiamentos mais longos com taxas ainda inferiores às praticadas no Brasil. Segundo a empresa, a combinação de previsibilidade, taxas competitivas e flexibilidade busca acompanhar o crescimento dos clientes e reforça como o crédito pode ser usado como ferramenta comercial, em contraste com a realidade enfrentada hoje pelo transportador brasileiro.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast
- Publicidade -
- Publicidade -
Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
- Publicidade -

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Últimas notícias
você pode gostar:

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui