quarta-feira, janeiro 28, 2026

Monitoramento recente da CNT acende alerta no transporte: mais de 44% das transportadoras buscam motoristas

Não é novidade para os gestores de frotas que o transporte brasileiro convive com um gargalo que deixou de ser conjuntural e passou a comprometer a eficiência operacional das empresas: a escassez de motoristas profissionais. Em razão disso, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) tem feito um monitoramento mais frequente e, o mais recente, mostra que o problema se espalha por todos os segmentos e atinge níveis preocupantes. No transporte de cargas, 44,6% das empresas relatam vagas abertas para motoristas. No transporte urbano de passageiros, o índice sobe para 50,6%, enquanto no transporte rodoviário de passageiros alcança 55,6%.

Para gestores de frotas, operadores logísticos e transportadores, o dado revela mais do que dificuldade de contratação. Ele sinaliza risco à continuidade do serviço, aumento de custos e perda de competitividade em um setor já pressionado por combustível, manutenção, pedágios e exigências regulatórias.

Segundo a CNT, a falta de motoristas é resultado de uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Ajustes recentes na legislação, como mudanças no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), podem aliviar parte da pressão, mas não atacam a raiz do problema.

O Plano Nacional de Logística (PNL) 2050 aponta que a escassez de motoristas no Brasil não decorre apenas de um ciclo econômico desfavorável. Trata-se de um problema estrutural associado à baixa atratividade da profissão, à remuneração relativa pouco competitiva, às condições de trabalho desgastantes, à alta rotatividade e à imagem negativa da ocupação, especialmente entre os mais jovens.

Esse diagnóstico ajuda a explicar por que, mesmo em momentos de desaceleração econômica, as empresas seguem com dificuldade para preencher vagas.

Exigências elevadas, atratividade baixa

Do ponto de vista conjuntural, a CNT destaca fatores que agravam o cenário: a alta responsabilidade envolvida na função, os desafios diários do trânsito, os riscos à segurança pessoal e patrimonial e a exigência de qualificações específicas, como CNH nas categorias D ou E e cursos especializados.

Para o gestor de frota, o resultado é um mercado de trabalho cada vez mais restrito. Profissionais habilitados tornam-se disputados, elevando custos de contratação e pressionando salários, sem que isso, necessariamente, se traduza em maior retenção no médio prazo.

Mudanças na CNH: alívio parcial

O governo federal aposta em alterações recentes no processo de habilitação como parte da solução. Medidas implementadas pelo Ministério dos Transportes, como o fim da obrigatoriedade de aulas em autoescolas, têm como objetivo reduzir o custo de entrada na profissão e acelerar a formação de novos motoristas de caminhão e ônibus.

A resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) também prevê a oferta de cursos com custos reduzidos ou gratuitos por meio do Sest/Senat, ampliando o acesso para trabalhadores de menor renda.

Na avaliação da CNT, essas iniciativas são positivas, desde que não comprometam a segurança.

Formação existe, retenção não

Um dos pontos centrais do debate é que o Brasil até consegue formar motoristas, mas não consegue mantê-los na atividade. Em janeiro de 2024, uma parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Social e a CNT passou a capacitar inscritos no Cadastro Único interessados em obter habilitação profissional. A iniciativa mira um déficit estimado em 1,5 milhão de motoristas profissionais no país.

O programa oferece cursos profissionalizantes, possibilidade de contratação imediata, salários médios acima de R$ 3 mil e benefícios formais, como FGTS e plano de saúde. Ainda assim, o desafio permanece: competir com outros setores da economia que disputam esses mesmos profissionais.

Competição intersetorial e perda de talentos

Motoristas com CNH D ou E são cada vez mais atraídos por segmentos como mineração, construção pesada e agronegócio, que oferecem maior previsibilidade de jornada, melhor infraestrutura e, em alguns casos, menor exposição a riscos. No transporte urbano e rodoviário, a migração também ocorre para atividades alternativas, inclusive fora do setor, em busca de melhor qualidade de vida.

No transporte de longa distância, os obstáculos são conhecidos: roubo de cargas, infraestrutura rodoviária precária, longos períodos longe da família e pressão constante por prazos.

O que o setor defende

A CNT reforça que a solução passa por um conjunto de medidas: ajustes regulatórios, ampliação do acesso à qualificação, mas, sobretudo, melhoria das condições de trabalho. A entidade destaca que a demanda por motoristas é nacional, não restrita a grandes centros, e que a qualificação precisa ser contínua, acompanhando a evolução tecnológica dos veículos e das operações logísticas.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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