Caminhões elétricos estão mais caros nos Estados Unidos, mais baratos na Europa e, no Brasil, estão encalhados. Esse cenário desanimador não é exclusividade da indústria automotiva de caminhões BEV, mas reflete as dificuldades enfrentadas por transportadores que buscam alternativas sustentáveis. Enquanto o segmento de ônibus urbanos apresenta perspectivas mais promissoras, o transporte de cargas segue sem uma alternativa viável economicamente.
Enquanto a preocupação com as baixas vendas de caminhões elétricos a bateria (BEV) ecoa entre associações como a ACEA, na Europa, e montadoras na América do Norte, um estudo do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) dos EUA traz um dado preocupante: o custo desses veículos nos EUA subiu 27% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 87.100 (cerca de R$ 470 mil) para o modelo mais barato. Já na Europa, o preço caiu 23% no mesmo período.
Mesmo assim, a redução não foi suficiente para tornar os caminhões elétricos competitivos. “O maior problema continua sendo o custo”, aponta o estudo. Isso vai ao encontro do que o CEO global do Scania Group, Christian Levin, disse em recentemente: Entrevista exclusiva: Não é falha de engenharia, é falha de política”, critica CEO da Scania sobre eletrificação
Brasil: vendas quase inexistentes

No Brasil, o desafio é ainda maior. De janeiro a agosto de 2025, apenas 238 caminhões BEV foram emplacados. A liderança é da JAC, seguida da Volkswagen Caminhões e Ônibus, que juntas somam mais de 66% do total. Curiosamente, o Tesla Cybertruck — picape licenciada como caminhão por ter PBT acima de 3.500 kg — também aparece na lista.
Por outro lado, gigantes como Scania e Volvo não emplacaram nenhuma unidade em 2025. Vale lembrar que a Volvo lançou o FM Electric e a Scania, o G 30, mas seus números foram discretos: 15 FM Electric e um G 30, todos vendidos em 2024, impulsionados pela Fenatran.
Leia também:
- Scania patina na transição para caminhões elétricos na Europa, enquanto Scania Brasil tem sucesso com biometano
- Seminário “Educação para Logística 2025”: os temas importantes para o novo profissional
Comparativo internacional: custos sobem nos EUA
A falta de escala e de demanda manteve altos os preços das grandes plataformas elétricas de pesados. Já no segmento de veículos comerciais menores, o preço médio caiu 42% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 87.000 (R$ 470 mil), com mais de 44.000 vans elétricas vendidas. No mesmo período, o preço médio dos caminhões a combustão equivalentes subiu 12%, para US$ 18.000 (R$ 97 mil) para o modelo mais barato, segundo dados do ICCT e do The Truck Blue Book (Price Digests).
O preço médio de um cavalo mecânico pesado elétrico a bateria (modelo 2024) nos EUA é de US$ 379.800 (R$ 2,05 milhões) — cerca de 2,5 vezes o preço de um similar a combustão. Na China, o mesmo tipo de veículo custa, em média, US$ 119.600 (R$ 645 mil).
No Brasil, pesados como o Volvo FM Electric e Scania G 30 tem preços estimados em R$ 3 milhões. Já caminhões leves, como o VW e-Delivery 11, em R$ 850 mil. E o “líder” entre os elétricos, o JAC iEV 1200, R$ 509 mil.
Divergência entre EUA e Europa
Segundo o ICCT, os preços subiram em todos os mercados no ano-modelo 2020/2021. Mas a divergência começou em 2023/2024: na Europa, o preço médio caiu até 2025, enquanto nos EUA houve leve alta. Esse contraste reforça a conclusão do CARB de que os preços dos cavalos mecânicos elétricos seguem caminhos opostos nos dois mercados.
Os fabricantes justificam as diferenças citando custos de matérias-primas, maior demanda por garantias, cadeias de suprimentos distintas e momentos diferentes de introdução de novas gerações de produtos. Na Europa, a adoção mais rápida de tecnologias de última geração pode oferecer vantagens de desempenho e custo em relação ao mercado norte-americano.
E no Brasil?
Se Estados Unidos e Europa, com mercados estruturados, ainda enfrentam enormes dificuldades para viabilizar economicamente os caminhões elétricos, o Brasil está em um estágio ainda mais distante. A combinação de custos elevados, falta de escala e infraestrutura de recarga quase inexistente torna o segmento de cargas inviável no curto prazo. Por enquanto, o transporte rodoviário nacional deve continuar dependente do diesel, enquanto os elétricos se limitam a experiências pontuais em frotas de cargas urbanas leves e em ônibus urbanos.



