sexta-feira, março 20, 2026

Caminhões elétricos: estão mais caros nos EUA, mais baratos na Europa. E no Brasil?

Caminhões elétricos estão mais caros nos Estados Unidos, mais baratos na Europa e, no Brasil, estão encalhados. Esse cenário desanimador não é exclusividade da indústria automotiva de caminhões BEV, mas reflete as dificuldades enfrentadas por transportadores que buscam alternativas sustentáveis. Enquanto o segmento de ônibus urbanos apresenta perspectivas mais promissoras, o transporte de cargas segue sem uma alternativa viável economicamente.

Enquanto a preocupação com as baixas vendas de caminhões elétricos a bateria (BEV) ecoa entre associações como a ACEA, na Europa, e montadoras na América do Norte, um estudo do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) dos EUA traz um dado preocupante: o custo desses veículos nos EUA subiu 27% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 87.100 (cerca de R$ 470 mil) para o modelo mais barato. Já na Europa, o preço caiu 23% no mesmo período.

Mesmo assim, a redução não foi suficiente para tornar os caminhões elétricos competitivos. “O maior problema continua sendo o custo”, aponta o estudo. Isso vai ao encontro do que o CEO global do Scania Group, Christian Levin, disse em recentemente: Entrevista exclusiva: Não é falha de engenharia, é falha de política”, critica CEO da Scania sobre eletrificação

Brasil: vendas quase inexistentes

caminhões elétricos
Caminhões elétricos licenciados no acumulado de 2025. Fonte: Fenabrave

No Brasil, o desafio é ainda maior. De janeiro a agosto de 2025, apenas 238 caminhões BEV foram emplacados. A liderança é da JAC, seguida da Volkswagen Caminhões e Ônibus, que juntas somam mais de 66% do total. Curiosamente, o Tesla Cybertruck — picape licenciada como caminhão por ter PBT acima de 3.500 kg — também aparece na lista.

Por outro lado, gigantes como Scania e Volvo não emplacaram nenhuma unidade em 2025. Vale lembrar que a Volvo lançou o FM Electric e a Scania, o G 30, mas seus números foram discretos: 15 FM Electric e um G 30, todos vendidos em 2024, impulsionados pela Fenatran.

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Comparativo internacional: custos sobem nos EUA

A falta de escala e de demanda manteve altos os preços das grandes plataformas elétricas de pesados. Já no segmento de veículos comerciais menores, o preço médio caiu 42% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 87.000 (R$ 470 mil), com mais de 44.000 vans elétricas vendidas. No mesmo período, o preço médio dos caminhões a combustão equivalentes subiu 12%, para US$ 18.000 (R$ 97 mil) para o modelo mais barato, segundo dados do ICCT e do The Truck Blue Book (Price Digests).

O preço médio de um cavalo mecânico pesado elétrico a bateria (modelo 2024) nos EUA é de US$ 379.800 (R$ 2,05 milhões) — cerca de 2,5 vezes o preço de um similar a combustão. Na China, o mesmo tipo de veículo custa, em média, US$ 119.600 (R$ 645 mil).

No Brasil, pesados como o Volvo FM Electric e Scania G 30 tem preços estimados em R$ 3 milhões. Já caminhões leves, como o VW e-Delivery 11, em R$ 850 mil. E o “líder” entre os elétricos, o JAC iEV 1200, R$ 509 mil.

Divergência entre EUA e Europa

Segundo o ICCT, os preços subiram em todos os mercados no ano-modelo 2020/2021. Mas a divergência começou em 2023/2024: na Europa, o preço médio caiu até 2025, enquanto nos EUA houve leve alta. Esse contraste reforça a conclusão do CARB de que os preços dos cavalos mecânicos elétricos seguem caminhos opostos nos dois mercados.

Os fabricantes justificam as diferenças citando custos de matérias-primas, maior demanda por garantias, cadeias de suprimentos distintas e momentos diferentes de introdução de novas gerações de produtos. Na Europa, a adoção mais rápida de tecnologias de última geração pode oferecer vantagens de desempenho e custo em relação ao mercado norte-americano.

E no Brasil?

Se Estados Unidos e Europa, com mercados estruturados, ainda enfrentam enormes dificuldades para viabilizar economicamente os caminhões elétricos, o Brasil está em um estágio ainda mais distante. A combinação de custos elevados, falta de escala e infraestrutura de recarga quase inexistente torna o segmento de cargas inviável no curto prazo. Por enquanto, o transporte rodoviário nacional deve continuar dependente do diesel, enquanto os elétricos se limitam a experiências pontuais em frotas de cargas urbanas leves e em ônibus urbanos.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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