Queda de 45,5% nas compras em 2025 acende alerta no segmento, mas base acumulada segue robusta e mostra que a terceirização de carretas, semirreboques e soluções especiais ainda tem peso estratégico na logística brasileira
A locação de caminhões avança, a de implementos rodoviários mostra que nem todo elo da cadeia está rodando na mesma velocidade. A análise da Frota News sobre o recorte de implementos do Anuário Brasileiro do Setor de Locação de Veículos 2026, da ABLA (Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis), revela um cenário de forte desaceleração nos emplacamentos em 2025. E mostra mais do que isso.
A renovação da frota de implementos rodoviários não é vista da mesma forma dos cavalos mecânicos. É muito comum ver cavalo mecânico tracionando semirreboque mais antigo, como se a segurança da composição dependesse apenas de quem traciona o conjunto.
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Existem dados sobre a idade média da frota de caminhões cavalo mecânico (tratores) no Brasil, principalmente de fontes como ANTT e pesquisas setoriais. Para semirreboques, os dados específicos são inexistentes. Dados da Polícia Rodoviária Federal de 2024 apontam que 54.982 veículos de carga estiveram envolvidos em acidentes nas rodovias federais durante 2024. A análise detalhada revela que semirreboques estão envolvidos em cerca de 50% desses veículos acidentados. Porém, não há estudos sobre as causas técnicas, apenas percepções subjetivas sobre o comportamento do condutor.
No entanto, os dados do anuário da ABLA revelam essa negligência e provam que a idade média da frota de semirreboques das locadoras é mais velha do que a dos cavalos mecânicos. Mesmo que não é possível ter uma relação direta, a idade média maior dos semirreboques é um ponto crítico em especialistas para maior risco de acidentes e perda de eficiência do conjunto.
Se fosse possível fazer uma analogia com um automóvel, é como se uma locadora alugasse um VW T-Cross 2026 com um porta-malas 2012. A sorte de quem aluga um T-Cross é que isso não é possível, mas em composição de carreta é possível e acontece.
Em 2025, o setor de locação emplacou 2.487 implementos rodoviários, uma queda de 45,5% frente às 4.565 unidades registradas em 2024. Foi o recuo mais agudo da série recente e um sinal claro de que o segmento entrou em um ciclo de maior cautela na renovação e expansão da frota. Ainda assim, a frota total administrada pelas locadoras terminou o ano em 20.948 unidades, recuo de 6,4% sobre as 22.378 unidades do ano anterior.
O dado é relevante porque mostra que, embora o setor tenha freado forte nas compras, a base locada continua acima de 20 mil implementos — um patamar muito superior ao observado em 2021. Na prática, isso indica que a terceirização de ativos rebocados, como semirreboques, carretas e soluções especializadas, segue relevante para operações que exigem flexibilidade, contratos dedicados e menor imobilização de capital. Mesmo que esta frota não seja renovada.
Tombo nos emplacamentos expõe um setor menos parceiro
A parceria das locadoras com as transportadoras é bem-vinda nos equipamentos lucrativos. O compromisso não é completo, pois não há interesse pelo segmento de implementos rodoviários, já que ele não gera lucro para ninguém. Mas é o implemento rodoviário que transporta a carga no ombro.
Os números de emplacamento pelas locadoras deixam pouco espaço para maquiagem estatística.
Os emplacamentos de implementos rodoviários destinados à locação mostram um ciclo de forte expansão seguido por queda acentuada: após crescerem de 4.980 unidades em 2021 para o pico de 6.235 em 2022, impulsionados por um avanço anual de 25,2%, passaram a recuar de forma contínua — 5.520 unidades em 2023 (-11,5%), 4.565 em 2024 (-17,3%) e, finalmente, apenas 2.487 em 2025, uma retração expressiva de 45,5%. O resultado é um mercado que encolhe rapidamente após o auge de 2022, acumulando perdas sucessivas e indicando um desaquecimento significativo da demanda por locação no setor.
Na análise da Frota News, isso sugere que as locadoras não percebem os implementos rodoviários muito interessantes e lucrativos, e que este item deverá continuar sendo um problema dos transportadores. Por outro lado, é compreensível que as locadoras tenham dificuldades, pois trata-se de um equipamento muito específico diante a diversidade de especificações extremamente maior do que os veículos automotores.
A participação da locação no mercado nacional de implementos rodoviários caiu de forma contínua e acelerada nos últimos anos: mesmo com o volume total de emplacamentos do país oscilando entre 149 mil e 162 mil unidades entre 2021 e 2025, a fatia destinada à locação despencou de 3,1% em 2021 para apenas 1,7% em 2025. Isso significa que, no último ano, menos de dois em cada cem implementos novos licenciados no Brasil foram direcionados ao setor de locação, evidenciando uma perda significativa de relevância desse segmento dentro do mercado nacional.
Esse é um contraste forte com o que a própria ABLA mostra em outras categorias, como caminhões, nas quais a locação ganhou participação. Aqui, o movimento é o inverso: o segmento de implementos perdeu tração mais rapidamente do que o mercado total.
O mercado de emplacamentos para locação em 2025 mostra um cenário de forte concentração entre Randon e Facchini, que juntas respondem por 40% das unidades licenciadas no ano, mesmo ambas enfrentando retração significativa em relação aos picos anteriores. A Randon manteve a liderança anual com 21,1% dos emplacamentos, embora muito distante do volume que já teve em 2022, enquanto a Facchini aparece logo atrás com 18,9%, após oscilações expressivas ao longo do ciclo. Ainda assim, o dado mais marcante é o avanço do grupo “Outros”, que alcança 43,3% do mercado, evidenciando uma pulverização crescente e a força de fabricantes especializados em nichos operacionais — um sinal claro de que a locação de implementos é menos padronizada e mais dependente de soluções sob medida.
O que acontece entre fabricantes
Essa fragmentação reforça um desafio estrutural do setor: quanto mais específico o implemento, mais difícil é manter escala e ocupação contínua, o que limita a previsibilidade e a rentabilidade das locadoras. Em um ambiente de demanda enfraquecida, fabricantes menores e altamente especializados acabam ganhando espaço justamente por atenderem necessidades muito particulares de operação, enquanto os grandes players perdem volume, ainda que preservem relevância estratégica.
Quando se observa a frota acumulada, o retrato muda: a Facchini assume a liderança com 23,4% das unidades em operação, superando a Randon, que aparece com 21,1%. Isso mostra que protagonismo em emplacamentos anuais não se traduz automaticamente em liderança de base instalada.
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