O programa Move Brasil nasce com a ambição de destravar um gargalo histórico do transporte rodoviário de cargas: o alto custo do financiamento. Com R$ 10 bilhões em crédito, a nova política pública aposta na redução do peso dos juros para acelerar a renovação da frota de caminhões no País.
Para o CEO da Scania na América Latina, Christopher Podgorski, em sua participação ao podcast Dinheiro Entrevista, o impacto tende a ser direto nos negócios. Segundo ele, o principal fator que vinha travando vendas não era a falta de demanda, mas o custo financeiro. A taxa básica de juros, no maior patamar em duas décadas, tornava inviável a conta para frotistas e transportadores.
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O executivo explica que, na prática, o custo financeiro chegava a cerca de 20%. Em um financiamento de cinco caminhões em 60 meses, o cliente acabava pagando o equivalente a seis unidades, mas operando apenas cinco. Com isso, a decisão de compra ficava congelada.

Mesmo com sinais positivos da economia, esse fator isolado foi suficiente para puxar o freio do mercado. Em 2025, o segmento de caminhões fechou com retração de 9,2%. No pesado, a queda superou 20,5%. Para Podgorski, o Move Brasil surge como um instrumento capaz de reativar parte desse mercado, sobretudo nos modelos de maior valor.
Além das vendas, há um efeito sistêmico. A retomada ajuda a preservar empregos, manter a cadeia produtiva ativa e evitar rupturas em fornecedores, concessionárias e prestadores de serviço ligados ao transporte pesado.
Como funciona o Move Brasil
Lançado oficialmente em 8 de janeiro pelo governo federal, o Move Brasil estabelece linhas de crédito destinadas à compra de caminhões que cumpram critérios de sustentabilidade e de produção nacional. O programa prioriza caminhoneiros autônomos — um público que historicamente enfrenta barreiras para aprovar ficha cadastral nos bancos e que, mesmo com o novo programa, deve continuar encontrando exigências rigorosas —, além de cooperativas e empresas do transporte rodoviário de cargas.
O BNDES é o operador das linhas. O volume total é de R$ 10 bilhões, somando recursos do Tesouro Nacional e do próprio banco. Dentro desse montante, R$ 1 bilhão foi reservado exclusivamente para autônomos e cooperativas, reforçando o caráter social do programa.
A base legal veio por meio de Medida Provisória publicada em dezembro, que autorizou a destinação de recursos para renovação de frota. Na sequência, uma portaria do MDIC definiu critérios de conteúdo nacional, sustentabilidade e reciclagem. Já o Conselho Monetário Nacional fixou as condições financeiras.
Cada beneficiário poderá contratar até R$ 50 milhões em financiamentos. O prazo máximo é de cinco anos, com carência de até seis meses. As taxas variam entre 13% e 14% ao ano, já incluindo spread bancário. As operações podem contar com o Fundo Garantidor de Investimentos, que cobre até 80% do valor financiado.
Para caminhões novos, o uso do crédito está restrito a veículos produzidos no Brasil. No caso dos seminovos, será exigida comprovação de conteúdo nacional. Nessa categoria, entram caminhões fabricados a partir de 2012 e alinhados ao Proconve 7.
Iveco leva o programa à prática
A aplicação do Move Brasil já começou a sair do papel. A Iveco realizou, em Ribeirão Preto (SP), a primeira entrega simbólica de caminhões pelo programa, com a presença do vice-presidente da República e ministro do MDIC, Geraldo Alckmin.
O evento marcou a transição da política pública para o chão da concessionária. Segundo Marcio Querichelli, presidente da Iveco para a América Latina, quase 300 clientes já foram atendidos nesse primeiro movimento, com cerca de R$ 200 milhões em operações.
Para o executivo, o programa atinge o centro do problema do transporte rodoviário. O Brasil tem cerca de 2 milhões de caminhões em circulação. Dados do Sindipeças mostram que 13% da frota tem mais de 20 anos, Outros 32% superam 16 anos de uso. Essas médias são superiores a da europeia, que está em 14%.
Esse envelhecimento impacta custos, segurança, emissões e competitividade logística. Uma frota mais nova consome menos combustível, emite menos poluentes, quebra menos e entrega mais produtividade. O reflexo aparece tanto no frete quanto na segurança viária.
Impacto para gestores de frota
Para gestores de frota, o Move Brasil representa uma janela de oportunidades. A combinação de juros menores, prazos mais longos e garantias ampliadas reduz o custo total de posse e antecipa decisões que estavam represadas.
Mais do que renovar caminhões, o programa tende a melhorar indicadores operacionais, reduzir paradas não programadas e elevar o nível tecnológico da frota. Em um cenário de margens apertadas e alta competição, isso pode fazer diferença direta no resultado.


