quarta-feira, janeiro 28, 2026

HVO avança na Europa e expõe atraso do Brasil na corrida pelo diesel verde 

Com dados de uma reportagem técnica da revista espanhola de grande reputação “Camion Actualidad” sobre a expansão do HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado) como a alternativa mais eficiente e econômica ao diesel em 2025, a Frota News abre o debate se o Brasil ainda patina na regulamentação e na produção desse biocombustível avançado. A comparação entre os dois países revela caminhos distintos e aponta oportunidades estratégicas para o setor de transporte brasileiro. 

Espanha: HVO já é realidade e lidera o TCO no transporte pesado 

Segundo o relatório “TCO y emisiones de CO₂ en España: camiones diésel y alternativos en 2025”, elaborado por IRU (União Internacional dos Transportes Rodoviários, entidade global que representa empresas de transporte e logística e produz estudos, dados e recomendações para o setor), o HVO se tornou a melhor alternativa ao diesel e biodiesel tradicional para o transporte pesado. O HVO é uma alternativa superior ao biodiesel brasileiro, considerado ainda de primeira geração e com muitos problemas de controle de qualidade em sua produção e logística de distribuição.  

Leia também
Principais destaques do cenário espanhol 
  • Emissões até 90% menores: caminhões a HVO emitem entre 94 e 105 gCO₂/km, contra mais de 900 gCO₂/km do diesel fóssil. 
  • Melhor TCO do mercado: 
  • HVO: 0,64 €/km (R$ 4,17/km) 
  • Diesel moderno: 0,66 €/km (R$ 4,30/km) 
  • GNC/GNL: 0,75 €/km (R$ 4,89/km) 
  • Elétricos: 0,80 €/km (R$ 5,22/km) 
  • Hidrogênio: 1,00 €/km+ (R$ 6,52/km+) 
  • Sem necessidade de adaptar veículos ou infraestrutura. 
  • Estratégia nacional clara: renovação da frota com motores modernos e uso imediato de combustíveis renováveis. 
  • Validação acadêmica: estudo revisado pela Graz University of Technology. 

A Espanha encara o HVO como solução imediata, enquanto eletrificação e hidrogênio avançam em paralelo, mas ainda com limitações de custo e infraestrutura. Aliás, em 2025, segundo publicado pela revista “Exame”, os 60 maiores projetos globais para produção de hidrogênio verde foram cancelados por problemas de viabilidade econômica.  

Brasil: potencial gigantesco, mas sem marco regulatório 

O Brasil possui uma das maiores capacidades do mundo para produzir HVO — graças à abundância de soja, sebo bovino, palma e outras matérias‑primas — mas ainda não transformou esse potencial em política pública ou escala industrial. 

Principais desafios brasileiros 
  • Ausência de regulamentação específica para HVO. 
  • Dependência do biodiesel FAME, que tem limitações técnicas para uso em motores pesados modernos. 
  • Produção nacional incipiente, com projetos ainda em fase de implantação. 
  • Custo elevado, já que parte do HVO disponível é importada. 
  • Falta de incentivos fiscais e metas de descarbonização para o transporte rodoviário. 

O que significa dependência do biodiesel FAME, que tem limitações técnicas para uso em motores pesados modernos? 

No Brasil, o principal biocombustível renovável usado hoje é o biodiesel FAME (Fatty Acid Methyl Ester), que é o biodiesel tradicional misturado ao diesel comum — atualmente na proporção B15. 

Mas o FAME tem limitações técnicas importantes, especialmente para caminhões modernos Euro 5 e Euro 6: 

FAME x HVO: Diferenças que o gestor de frotas precisa conhecer 

O que são 

  • FAME (Biodiesel tradicional)  
  • Éster metílico de ácidos graxos. É o biodiesel usado na mistura obrigatória do diesel brasileiro (B15). 
  • HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado). Biocombustível avançado, quimicamente semelhante ao diesel mineral, produzido por hidrotratamento. 
Comparativo Técnico 
Critério  FAME (Biodiesel)  HVO (Diesel Renovável) 
Compatibilidade com motores modernos  Limitada acima de 15%  Total (pode ser usado puro – HVO100) 
Estabilidade térmica  Baixa (oxida e degrada)  Muito alta 
Risco de formação de borras  Alto  Praticamente zero 
Absorção de água  Alta  Quase nula 
Performance em clima frio  Pode gelificar  Excelente fluidez 
Densidade energética  Menor que o diesel  Igual ou superior ao diesel 
Emissões  Reduzidas, mas variáveis  Redução de até 90% de CO₂ 
Necessidade de adaptação  Nenhuma, mas com limites  Nenhuma, inclusive para uso 100% 

Impacto no Transporte Pesado 

FAME  

Funciona, mas traz riscos operacionais em motores Euro 5 e Euro 6, especialmente em frotas que não contam com uma manutenção rigorosa. 

HVO  

Entrega desempenho igual ou superior ao diesel, com emissões muito menores e sem impacto na manutenção. 

O FAME é importante para a matriz energética brasileira, mas não atende plenamente às exigências dos motores pesados modernos. 

O HVO, por sua vez, é um biocombustível avançado, mais estável, mais limpo e totalmente compatível com a frota atual — sendo a solução mais imediata para descarbonizar o transporte pesado sem alterar infraestrutura. 

Consumo atual de HVO na Europa e Estados Unidos

O consumo de HVO cresce rapidamente na Europa, que hoje é o maior mercado global desse biocombustível avançado. Em 2024, os países da União Europeia utilizaram cerca de 5,6 milhões de toneladas, impulsionados por metas rígidas de descarbonização e políticas como a RED III. O HVO já é o segmento mais dinâmico dentro do mercado europeu de biodiesel, com forte uso de matérias‑primas residuais e expansão contínua desde 2019.

Nos Estados Unidos, o cenário também é de forte expansão. O país produziu 10,2 milhões de toneladas de biodiesel em 2022 (somando FAME e HVO), e o diesel renovável vem ganhando participação rapidamente graças a programas como o RFS e o LCFS da Califórnia. Embora os dados oficiais não separem totalmente o HVO do biodiesel tradicional, o mercado norte‑americano já aponta para um crescimento acelerado do HVO, especialmente em estados com políticas ambientais mais rigorosas. 

Brasil precisa agir para não perder a janela de oportunidade 

A experiência espanhola mostra que o HVO pode ser a solução mais imediata, econômica e sustentável para o transporte pesado. O Brasil, com sua abundância de matéria‑prima e forte setor agroindustrial, tem condições de se tornar líder mundial na produção desse combustível — mas depende de decisões regulatórias e industriais urgentes. 

Enquanto isso, gestores de frotas brasileiros podem acompanhar de perto o avanço europeu e pressionar por políticas que permitam ao país acelerar sua própria transição energética. 

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast
- Publicidade -
- Publicidade -
Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
- Publicidade -

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Últimas notícias
você pode gostar:

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui