domingo, março 29, 2026

Indiara Ferreira, do Grupo HP, cobra fornecedores por mais mulheres no setor: “O transporte é muito machista. Só vamos comprar de fornecedores menos machistas”

Em meio a uma agenda histórica para a mobilidade sustentável — marcada pela apresentação da primeira operação regular do País com ônibus articulados movidos a biometano — uma declaração feita no encerramento da coletiva de imprensa roubou a cena. Pelo menos, para este jornalista.

Acostumado a acompanhar, há anos, fóruns, seminários e projetos sobre a inclusão feminina no setor, este repórter já testemunhou inúmeras promessas, campanhas institucionais e discursos de incentivo à presença de mulheres no volante do caminhão, do ônibus e… da empresa.

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Mas, desta vez, o que se ouviu foi algo diferente: uma mensagem direta, objetiva e com potencial de impacto real sobre a cadeia de fornecedores.

Frota Delas
Indiara Ferreira, executiva da HP Mobilidade

Durante o evento realizado em Goiás, que reuniu representantes da Scania, Marcopolo, Governo de Goiás e do Grupo HP, a diretora executiva da empresa, Indiara Ferreira, fez uma intervenção que me surpreendeu ao final da coletiva e não pude ignorar:

“Uma mensagem para os nossos fornecedores: só vamos comprar de fornecedores que incluírem mulheres na direção, pois este setor é muito machista.”

A fala, curta e contundente, extrapolou o contexto da apresentação técnica da nova frota e colocou no centro da discussão um tema que, apesar de recorrente, ainda avança lentamente no transporte de passageiros e de cargas: a presença efetiva das mulheres em funções operacionais, especialmente na condução de veículos pesados.

Um recado que vai além do discurso

A declaração de Indiara Ferreira não foi apenas simbólica. Em um setor historicamente marcado por ações pontuais de diversidade, a executiva trouxe um elemento raro: o uso do poder de compra como ferramenta de transformação.

O peso da frase também está no contexto em que foi dita. Não se tratava de um seminário sobre ESG, nem de um painel dedicado à diversidade. A coletiva havia sido convocada para apresentar uma inovação operacional e ambiental: a entrada em operação da primeira frota de ônibus articulados a biometano em operação regular no Brasil, uma iniciativa que já representa, por si só, um marco na descarbonização do transporte coletivo.

O óbvio estava diante de todos os jornalistas: todos os executivos envolvidos eram homens, de todas as empresas participantes. Não se tratava de uma disputa entre homens e mulheres, mas de um padrão que merece ser questionado. Entre as lideranças, apenas Indiara Ferreira era mulher. Por quê?

As respostas talvez não apareçam hoje, mas a pergunta precisa ser feita. Homens e mulheres podem — e devem — ser bem-vindos tanto na cozinha quanto na oficina. Ninguém deveria exercer uma função por obrigação ou estereótipo, e sim por vontade e oportunidade. E essas oportunidades precisam existir para todos, independentemente do gênero. É claro que diferenças biológicas existem, e devem ser respeitadas — sempre com respeito e bom senso.

Sobre este tema, já publicamos reportagens e outro artigo no LinkedIn para os meus seguidores:

Foi justamente nesse ambiente, dominado por pautas de tecnologia, energia limpa, eficiência operacional e política pública, que surgiu a cobrança por inclusão feminina.

Ao inserir a exigência em um evento de mobilidade pesada, diante de montadoras, encarroçadora, governo e imprensa especializada, Indiara sinalizou que a discussão sobre mulheres ao volante precisa deixar de ser periférica e passar a ocupar o centro da estratégia empresarial.

Um setor que ainda avança devagar

O diagnóstico da executiva foi direto: “este setor é muito machista”. É uma constatação realista, mas difícil de contestar para quem acompanha de perto o dia a dia do transporte. Apesar dos avanços recentes, a participação feminina na condução de caminhões, ônibus e veículos pesados ainda é muito inferior ao potencial do mercado.

Nos últimos anos, programas de formação específicos, como os desenvolvidos pela Fabet, vêm mostrando que há demanda, vocação e capacidade técnica para ampliar essa presença. A escola tornou-se referência nacional ao promover cursos pioneiros para a capacitação de mulheres como motoristas profissionais, ajudando a derrubar barreiras históricas de acesso.

O problema, no entanto, raramente está apenas na formação.

Muitas mulheres conseguem a habilitação adequada, passam por treinamento, demonstram desempenho e preparo, mas ainda enfrentam obstáculos na contratação, resistência cultural nas empresas, falta de estrutura adequada em garagens e pátios, além de preconceitos velados — e, por vezes, explícitos.

Por isso, a fala de Indiara toca num ponto crucial: não basta treinar mulheres para o setor se o setor não estiver disposto a contratá-las.

A Frota News foi a primeira mídia a criar e a ainda a única a ter a seção “Frota Delas” para poder explicar o óbvio: os benefícios da presença das mulheres no nosso setor.

Frota Delas
Seção que reúne as reportagens sobre as mulheres no transporte

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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