Com cerca de 1 mil equipamentos próprios, outros 1 mil agregados e 25 filiais, transportadora amplia atuação no agro, investe em capacitação e defende que o setor pare de “buscar pronto” no mercado
A escassez de motoristas qualificados, o aumento da pressão por segurança operacional, a necessidade de cumprir novas exigências trabalhistas e a transição energética estão mudando o jogo no transporte rodoviário de cargas. Para a Andrade Transportes, a resposta para esse cenário passa por uma palavra que ainda é subestimada por parte do mercado: formação.
Em entrevista à Frota News, o CEO da Andrade Transportes, Emerson Cardoso, afirmou que a companhia vem estruturando seu crescimento sobre um modelo que combina frota própria, agregados fidelizados, forte investimento em treinamento e desenvolvimento interno de motoristas e lideranças. Segundo ele, essa estratégia já trouxe resultados concretos em indicadores críticos, como turnover, absenteísmo e acidentes.
“Foque nas pessoas, em desenvolver as pessoas, e não querer nada pronto. Não adianta”, resumiu o executivo.
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Uma transportadora jovem, mas já de porte nacional
Com pouco menos de 10 anos de atuação, a Andrade Transportes já opera em múltiplos segmentos logísticos. Hoje, a empresa atua em agronegócio, distribuição urbana, armazenagem e transporte de carga em geral, com presença nacional relevante.
De acordo com Emerson Cardoso, a operação conta atualmente com cerca de 1 mil equipamentos próprios, entre caminhões, carretas e outros ativos, além de aproximadamente 1 mil terceiros, em sua maioria no modelo de agregados. A estrutura inclui ainda cerca de 1 mil colaboradores, número que varia conforme a sazonalidade, especialmente em períodos de safra.
A empresa também soma aproximadamente 25 filiais, distribuídas pelo país. Segundo o CEO, a Andrade está presente em praticamente todas as regiões, com exceção, neste momento, de partes do Centro-Oeste e da Região Norte. O eixo mais forte do negócio ainda é o agronegócio, especialmente a operação ligada à cana-de-açúcar, que hoje responde pela maior fatia do faturamento da transportadora.
Terceirização de frotas ganha tração em meio a diesel caro e incertezas

Para Emerson Cardoso, o ambiente macroeconômico e operacional tem favorecido a terceirização de frotas por embarcadores. O executivo avalia que fatores como a volatilidade do diesel, tensões geopolíticas e o risco recorrente de paralisações no transporte acabam reforçando a atratividade de operadores estruturados.
Na visão do CEO, quando o transporte está nas mãos de uma empresa especializada, o embarcador ganha previsibilidade e capacidade de negociação em momentos de crise. “O mercado hoje está muito propício à terceirização da frota dos clientes, dos embarcadores”, afirmou.
A leitura faz sentido dentro do contexto atual do setor: diante da elevação dos custos e da crescente complexidade regulatória e operacional, cada vez mais empresas têm preferido transferir risco, gestão de ativos, recrutamento, treinamento e compliance para transportadoras mais robustas.
700 motoristas, 103 mulheres e uma estratégia clara de inclusão operacional
Entre os aproximadamente 1 mil colaboradores, a Andrade Transportes conta com cerca de 700 motoristas, um número expressivo para uma empresa ainda jovem. Desse total, 103 são mulheres, sendo 76 atuando diretamente como motoristas. As demais ocupam funções operacionais e de liderança, como coordenação, monitoramento, pátio, RH e supervisão. No recorte de liderança, a empresa soma cerca de 30 mulheres em cargos de gestão ou supervisão.
Mais do que apresentar números, Emerson Cardoso chama atenção para a origem dessa força de trabalho: boa parte foi formada dentro da própria empresa a partir da capacitação de instrutores formados pela Fabet.
Segundo ele, mais de 50% — e possivelmente mais de 60% — das motoristas mulheres da Andrade foram treinadas e desenvolvidas internamente. Nos últimos um ano e meio a dois anos, a transportadora afirma ter formado 148 novos motoristas, dos quais 46 foram mulheres.
Esse dado é particularmente relevante em um setor que, há anos, reclama da falta de mão de obra qualificada, mas frequentemente mantém barreiras de entrada para profissionais sem experiência.
A resposta ao “apagão de motoristas”: formar, em vez de disputar os mesmos profissionais
Ao ser questionado sobre a dificuldade de contratação e a velha contradição do mercado — empresas exigem experiência, mas poucos estão dispostos a formar novos motoristas —, Emerson Cardoso foi direto: não há solução sustentável sem formação própria.
A Andrade vem apostando em uma trilha de desenvolvimento interna que permite transformar profissionais de funções de apoio em condutores de veículos mais complexos. O CEO citou exemplos de colaboradoras que entraram com CNH B, começaram em veículos de apoio e, gradualmente, foram promovidas para caminhões categoria C, D e E, carretas LS e até rodotrem em operações canavieiras.
A lógica, segundo ele, é simples: insistir em “comprar pronto” só encarece o mercado, aumenta a disputa por mão de obra e não resolve o problema estrutural.
“Se você não formar… você não vai buscar no mercado. Além de você inflacionar o mercado, você vai tentar ficar um tirando do outro, você não vai resolver”, afirmou.
Essa fala atinge em cheio um dos principais dilemas do TRC brasileiro. Há anos, o setor trata a falta de motoristas como um problema externo, quando, na prática, parte relevante da solução depende de programas estruturados de entrada, capacitação, progressão de carreira e retenção.
Treinamento virou indicador de resultado — e os números impressionam
Se ainda existe quem veja treinamento como custo, Emerson Cardoso traz um contra-argumento baseado em indicadores.
Segundo ele, após intensificar os investimentos em capacitação — não apenas em segurança, mas também em comunicação, cultura, integração e desenvolvimento de liderança —, a Andrade Transportes reduziu seu turnover de quase 27% para 13,98% no último ciclo anual. No mesmo período, o absenteísmo caiu de patamares acima de 5% (com picos de até 10% em determinadas operações) para 1,82%.
Na prática, isso representa uma queda de cerca de 13 pontos percentuais no turnover e de mais de 3 pontos percentuais no absenteísmo — índices que, em operações intensivas em mão de obra, têm impacto direto sobre produtividade, custo operacional, estabilidade das escalas e qualidade de atendimento ao cliente.
Para o executivo, o segredo está em alinhar recrutamento e cultura. Ele resume a filosofia com uma metáfora curiosa: “Nós contratamos um hardware e o software nós instalamos. O software é o treinamento”.
Pré-safra com até 10 dias de capacitação antes de rodar
No agro, onde a criticidade operacional e os riscos aumentam, a Andrade elevou ainda mais a régua.
Antes do início da safra, a empresa afirma submeter novos integrantes a um período mínimo de 10 dias de preparação, sendo de 6 a 7 dias em sala de aula e 3 dias em campo, com foco em procedimentos, segurança, produtividade e adaptação ao ambiente operacional.
Além disso, nenhum motorista inicia operação sem passar por treinamento de direção defensiva e econômica, um requisito tratado como básico para registro interno. A empresa informa que oferece essa capacitação por meio de instituições parceiras, como Fabet e Sest Senat, além de utilizar instrutores próprios e lideranças internas dentro de uma matriz anual de treinamentos e reciclagens periódicas.
Esse ponto merece destaque: em um momento em que parte do mercado ainda improvisa onboarding e reciclagem, a Andrade sinaliza uma estrutura mais madura, com matriz de competências, plano anual de treinamento e critérios formais para habilitação operacional.
De 25 acidentes para 7: segurança como cultura, não como checklist
Talvez o dado mais contundente da entrevista esteja na área de segurança.
Segundo Emerson Cardoso, após o reforço dos programas de treinamento e da preparação das lideranças, a Andrade reduziu o número de acidentes de 25 para 7 em apenas um ano. O executivo ressalta que a empresa adota uma visão ampliada de risco: mesmo incidentes sem lesão, mas com alto potencial de dano, entram no radar como eventos graves.
A redução, segundo ele, não é apenas um ganho humano — embora esse seja o principal aspecto —, mas também financeiro. O CEO afirma que operações que antes consumiam R$ 2 milhões, R$ 3 milhões ou até R$ 4 milhões por ano em impactos relacionados a acidentes podem passar a níveis muito menores, algo na faixa de R$ 500 mil, a depender do cenário.
No setor de transporte, essa visão é especialmente importante. O custo de um acidente vai muito além do reparo do ativo: inclui perda de carga, interrupção de operação, passivos trabalhistas e cíveis, imagem, aumento de prêmio de seguro, indisponibilidade de equipamento e desgaste na relação com o cliente.
Em outras palavras: segurança bem feita não é despesa; é proteção de margem.
NR-1 e riscos psicossociais: transporte exige leitura mais humana do que burocrática
Outro trecho relevante da entrevista trata da aplicação da NR-1, especialmente no que diz respeito à gestão de riscos psicossociais em uma atividade em que o “posto de trabalho” está em constante movimento.
Emerson Cardoso afirma que a Andrade já operava com uma lógica centrada em pessoas antes mesmo da pressão regulatória recente. Na prática, isso envolve desde controle de jornada, respeito ao descanso, cabines adequadas, monitoramento por telemetria e câmeras com foco em fadiga, frenagens bruscas e risco de tombamento, até a estruturação de pontos de apoio no campo, com banheiros e áreas de descanso em operações agrícolas.
Mais do que cumprir exigências legais, o CEO defende que a gestão de riscos psicossociais no transporte precisa passar por proximidade com o motorista, comunicação transparente e resolução prática de problemas cotidianos, inclusive pessoais, quando impactam a segurança e o foco no trabalho.
Em muitos casos, a discussão sobre NR-1 ainda está sendo tratada no setor apenas como obrigação documental. A fala de Emerson sugere algo mais próximo do que o mercado precisará fazer de verdade: traduzir norma em gestão operacional, cultura e apoio real ao trabalhador em campo.
Frota nova, operação elétrica e descarbonização sem discurso vazio
Na agenda ESG, a Andrade também busca avançar de forma pragmática.
Segundo o CEO, a empresa trabalha com veículos de até 3 anos de uso e, no máximo, 6 anos, como forma de manter eficiência e reduzir impacto ambiental. Além disso, a transportadora já opera frota elétrica em um contrato com a Pepsi, o que mostra que a eletrificação já deixou de ser apenas discurso e entrou em parte da operação.
A empresa também afirma manter práticas internas de reciclagem de materiais e acompanhar de perto a evolução tecnológica dos fabricantes.
Quando questionado sobre descarbonização, Emerson foi objetivo ao apontar um gargalo que boa parte dos frotistas conhece bem: o problema hoje é menos tecnologia embarcada e mais infraestrutura e custo de implementação.
No caso de caminhões a gás, por exemplo, ele destacou a dificuldade de abastecimento em determinadas rotas e operações, especialmente no agro. Ou seja: a solução existe, mas ainda não escala com facilidade em muitos cenários reais do transporte brasileiro.
Cada OEM avança em uma frente, mas o gargalo segue fora do caminhão
Em um trecho interessante para gestores de frota, Emerson Cardoso reconhece que hoje diferentes montadoras têm pontos fortes distintos: algumas mais avançadas em segurança, outras em gás, outras em eletrificação para veículos menores e outras com melhor aderência a aplicações severas, como o off-road.
Mas, novamente, ele reforça que o principal desafio não está necessariamente na ausência de produto.
“A dificuldade hoje, para isso, é mais infraestrutura do que a própria tecnologia dos equipamentos”, resumiu.
É uma síntese precisa do estágio atual da transição energética no TRC brasileiro: o caminhão está chegando; o ecossistema, nem sempre.
No fim da entrevista, a mensagem do CEO da Andrade Transportes ecoa como um recado direto ao setor.
Em vez de insistir na narrativa do “apagão” como se fosse um fenômeno insolúvel, Emerson propõe uma inversão de lógica: o problema não é só falta de motorista; é falta de empresa disposta a construir motorista, liderança e cultura operacional.
A Andrade ainda é uma empresa jovem, mas os números apresentados por seu CEO indicam uma organização que entendeu algo essencial: em um setor pressionado por custo, escassez de mão de obra, acidentes, judicialização e exigências ESG, treinamento deixou de ser RH — virou estratégia de negócio.
E talvez esse seja o ponto mais forte da entrevista.
Porque, no transporte brasileiro, ainda há muita empresa tentando “achar” profissional pronto no mercado. A Andrade, ao menos pelo que diz seu CEO, decidiu fazer algo mais difícil — e provavelmente mais inteligente: fabricar sua própria base de excelência.
Sobre o entrevistado
À frente da Andrade Logística desde janeiro de 2025, Emerson Cardoso construiu uma carreira sólida no transporte rodoviário de cargas, com trajetória fortemente ancorada em operações, expansão comercial e reestruturação de negócios. Antes de assumir o comando da Andrade, foi diretor executivo de Operações e Comercial da IC Transportes, entre julho de 2023 e janeiro de 2025, e diretor executivo Comercial/Operacional Cargas da JSL, onde liderou um processo de reestruturação com foco em resultado. Antes disso, teve uma longa passagem pela Fadel Transportes e Logística, onde ocupou posições como vice-presidente de Operações/Comercial, diretor de Operações/Comercial e gerente regional, acumulando mais de uma década de experiência em gestão operacional, crescimento e rentabilidade no setor. Seu histórico executivo ainda inclui a gerência de unidade de negócio na Monarca, do Grupo GA Brasil, reforçando um perfil profissional moldado na operação pesada, no desenvolvimento de equipes e na construção de eficiência em larga escala. Fonte: Perfil profissional no LinkedIn!.
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