segunda-feira, março 2, 2026

Com petróleo acima de US$ 80, empresas com caminhões a biometano escapam da alta do diesel

Atento aos reflexos da geopolítica no transporte rodoviário, o mercado brasileiro volta a conviver com um velho fantasma: a disparada do diesel em meio à escalada de tensão no Oriente Médio. Enquanto o barril do Brent supera os US$ 80 e acumula alta superior a 10% após ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, empresas que apostaram no biometano, biodiesel puro (B100) e eletrificação começam a colher uma vantagem competitiva concreta — previsibilidade de custos.

Os ataques ao Irã e o risco de interrupção no fluxo pelo Estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global — provocaram forte reação nos mercados internacionais. O barril do Brent chegou a registrar alta de até 13% no início da semana, segundo reportagens do G1 e da Agência Brasil.

No Brasil, o reflexo tende a ser quase imediato. Analistas ouvidos pelo R7 projetam potencial repasse de até R$ 0,73 por litro do diesel em um intervalo de 15 a 30 dias, a depender da duração da crise e da política de preços da Petrobras. Em episódios anteriores de tensão geopolítica, o diesel importado chegou a subir 15%, pressionando diretamente o custo do frete e as margens das transportadoras.

Mesmo com o anúncio da OPEP+ de aumento de 206 mil barris/dia na oferta, a volatilidade permanece elevada. Nesse cenário, empresas que reduziram sua dependência do diesel fóssil ganham protagonismo estratégico.

Gás Verde

Um dos exemplos mais emblemáticos é a Gás Verde, que estruturou uma operação com 100 caminhões Scania GH 460 6×2 movidos a biometano. O modelo de negócio vai além da simples aquisição de veículos: a empresa aluga os caminhões e fornece o combustível renovável produzido a partir de seus próprios ativos de biogás, fechando um ciclo energético.

Com produção própria e contratos estruturados, a companhia mantém custos praticamente fixos, blindando-se das oscilações do petróleo. Enquanto o diesel sofre pressão internacional, a operação a biometano segue com previsibilidade orçamentária — um diferencial relevante em contratos logísticos de longo prazo no Sudeste.

Além da estabilidade financeira, a estratégia posiciona a empresa na vanguarda da descarbonização, combinando eficiência operacional com redução de emissões.

Marquise Ambiental

Outro caso emblemático é o da Marquise Ambiental, que por meio das operações EcoFor e EcoOsasco conduz projeto piloto com caminhões Scania P 280 XT movidos a biometano na coleta de resíduos sólidos urbanos.

O diferencial está na integração entre coleta e geração de combustível. O biometano utilizado na frota é produzido nas próprias plantas de Gás Natural Renovável (GNR) instaladas em Fortaleza (CE) e Osasco (SP), a partir dos resíduos coletados. Na prática, o lixo transportado se transforma em combustível para os próprios caminhões.

A estratégia reduz em até 90% as emissões de CO₂ equivalente e elimina a exposição às oscilações do diesel, criando um modelo circular com forte apelo ambiental e econômico.

Grupo Cetric reforça frota circular

No Sul do país, o Grupo Cetric ampliou a frota com caminhões Roll On Roll 100% a biometano, também dentro de um modelo de economia circular. Os resíduos transportados são convertidos em biogás e posteriormente purificados em biometano, que abastece os próprios veículos.

A iniciativa garante previsibilidade de custos operacionais e protege a empresa contra choques externos, como os provocados por conflitos no Oriente Médio. Em um mercado onde o combustível pode representar mais de 30% do custo do frete, a estabilidade energética se transforma em ativo estratégico.

Natura

A Natura inaugurou posto interno de biometano em Cajamar (SP) recentemente, abastecendo 28 caminhões da frota logística (operados por Coopercarga e ReiterLog), cortando até 90% das emissões e custos de diesel. Em operação desde 2024, a frota cobre os fretes pesados em SP.

Vantagem competitiva em tempos de guerra

Estudos citados pela CNN Brasil indicam que o biometano já apresenta competitividade econômica frente ao diesel fóssil, especialmente em operações de alta quilometragem e contratos dedicados. Além do menor custo por quilômetro rodado em muitos casos, o combustível renovável oferece previsibilidade — algo raro em um mercado global marcado por tensões geopolíticas.

A atual crise reforça um ponto central para o transporte rodoviário de cargas: a transição energética deixou de ser apenas agenda ambiental e passou a integrar a financeira das empresas.

Para as pioneiras que estruturaram cadeias próprias de biometano, o conflito no Oriente Médio não representa apenas uma ameaça ao abastecimento global, mas a confirmação de que reduzir a dependência do petróleo é também uma forma de proteger o balanço contra a volatilidade internacional.

No cenário atual, sustentabilidade e gestão de risco caminham lado a lado — e o biometano consolida-se como uma das alternativas mais sólidas para o transporte pesado brasileiro.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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