Atento aos reflexos da geopolítica no transporte rodoviário, o mercado brasileiro volta a conviver com um velho fantasma: a disparada do diesel em meio à escalada de tensão no Oriente Médio. Enquanto o barril do Brent supera os US$ 80 e acumula alta superior a 10% após ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, empresas que apostaram no biometano, biodiesel puro (B100) e eletrificação começam a colher uma vantagem competitiva concreta — previsibilidade de custos.
Os ataques ao Irã e o risco de interrupção no fluxo pelo Estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global — provocaram forte reação nos mercados internacionais. O barril do Brent chegou a registrar alta de até 13% no início da semana, segundo reportagens do G1 e da Agência Brasil.
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No Brasil, o reflexo tende a ser quase imediato. Analistas ouvidos pelo R7 projetam potencial repasse de até R$ 0,73 por litro do diesel em um intervalo de 15 a 30 dias, a depender da duração da crise e da política de preços da Petrobras. Em episódios anteriores de tensão geopolítica, o diesel importado chegou a subir 15%, pressionando diretamente o custo do frete e as margens das transportadoras.
Mesmo com o anúncio da OPEP+ de aumento de 206 mil barris/dia na oferta, a volatilidade permanece elevada. Nesse cenário, empresas que reduziram sua dependência do diesel fóssil ganham protagonismo estratégico.
Gás Verde
Um dos exemplos mais emblemáticos é a Gás Verde, que estruturou uma operação com 100 caminhões Scania GH 460 6×2 movidos a biometano. O modelo de negócio vai além da simples aquisição de veículos: a empresa aluga os caminhões e fornece o combustível renovável produzido a partir de seus próprios ativos de biogás, fechando um ciclo energético.
Com produção própria e contratos estruturados, a companhia mantém custos praticamente fixos, blindando-se das oscilações do petróleo. Enquanto o diesel sofre pressão internacional, a operação a biometano segue com previsibilidade orçamentária — um diferencial relevante em contratos logísticos de longo prazo no Sudeste.
Além da estabilidade financeira, a estratégia posiciona a empresa na vanguarda da descarbonização, combinando eficiência operacional com redução de emissões.
Marquise Ambiental
Outro caso emblemático é o da Marquise Ambiental, que por meio das operações EcoFor e EcoOsasco conduz projeto piloto com caminhões Scania P 280 XT movidos a biometano na coleta de resíduos sólidos urbanos.
O diferencial está na integração entre coleta e geração de combustível. O biometano utilizado na frota é produzido nas próprias plantas de Gás Natural Renovável (GNR) instaladas em Fortaleza (CE) e Osasco (SP), a partir dos resíduos coletados. Na prática, o lixo transportado se transforma em combustível para os próprios caminhões.
A estratégia reduz em até 90% as emissões de CO₂ equivalente e elimina a exposição às oscilações do diesel, criando um modelo circular com forte apelo ambiental e econômico.
Grupo Cetric reforça frota circular
No Sul do país, o Grupo Cetric ampliou a frota com caminhões Roll On Roll 100% a biometano, também dentro de um modelo de economia circular. Os resíduos transportados são convertidos em biogás e posteriormente purificados em biometano, que abastece os próprios veículos.
A iniciativa garante previsibilidade de custos operacionais e protege a empresa contra choques externos, como os provocados por conflitos no Oriente Médio. Em um mercado onde o combustível pode representar mais de 30% do custo do frete, a estabilidade energética se transforma em ativo estratégico.
Natura
A Natura inaugurou posto interno de biometano em Cajamar (SP) recentemente, abastecendo 28 caminhões da frota logística (operados por Coopercarga e ReiterLog), cortando até 90% das emissões e custos de diesel. Em operação desde 2024, a frota cobre os fretes pesados em SP.
Vantagem competitiva em tempos de guerra
Estudos citados pela CNN Brasil indicam que o biometano já apresenta competitividade econômica frente ao diesel fóssil, especialmente em operações de alta quilometragem e contratos dedicados. Além do menor custo por quilômetro rodado em muitos casos, o combustível renovável oferece previsibilidade — algo raro em um mercado global marcado por tensões geopolíticas.
A atual crise reforça um ponto central para o transporte rodoviário de cargas: a transição energética deixou de ser apenas agenda ambiental e passou a integrar a financeira das empresas.
Para as pioneiras que estruturaram cadeias próprias de biometano, o conflito no Oriente Médio não representa apenas uma ameaça ao abastecimento global, mas a confirmação de que reduzir a dependência do petróleo é também uma forma de proteger o balanço contra a volatilidade internacional.
No cenário atual, sustentabilidade e gestão de risco caminham lado a lado — e o biometano consolida-se como uma das alternativas mais sólidas para o transporte pesado brasileiro.
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