quarta-feira, janeiro 28, 2026

Caminhões mais tecnológicos, menos mecânicos: por que o setor de transporte vive um gargalo crítico, segundo a Scania

Quando se fala em futuro do transporte, o debate costuma girar em torno de caminhões conectados, eletrificação, descarbonização e inteligência embarcada. Mas há uma pergunta incômoda que gestores de frotas começam a fazer com mais frequência — e que ainda recebe menos atenção do que deveria: quem vai manter esses veículos rodando?

Este artigo nasce a partir da inspiração de artigo publicado pela Scania no portal Jornada Scania. A diferença é que a Frota News pode fazer mais questionamentos do que uma mídia institucional e limitada por não ter obrigação de seguir o Código de Édica do Jornalismo.

A profissão de mecânico de veículos pesados passa por uma transformação silenciosa e profunda. O antigo estereótipo do profissional focado apenas em manutenção mecânica já não existe. Hoje, esse papel é ocupado por um técnico altamente especializado, que lida com eletrônica, sistemas digitais, diagnósticos remotos e softwares embarcados. E é justamente aí que surge um gargalo crítico para o setor de transporte e logística no Brasil.

Falta mecânico no mercado?

A resposta curta é: sim, falta — e a tendência é de agravamento. Segundo estimativas do setor, há cerca de 500 vagas abertas para mecânicos de veículos pesados no Brasil só nas redes de fabricantes de caminhões pesados. Só na rede Scania, que mantém aproximadamente 1.300 mecânicos em operação, a demanda é constante: nas chamadas Casas Scania Cativas, são 217 profissionais, com uma média de 20 vagas abertas todos os meses.

Para o gestor de frotas, isso se traduz em um risco direto à operação. Menos profissionais qualificados significam mais tempo de veículo parado, maior custo de manutenção, dificuldade em cumprir SLAs e impacto direto na disponibilidade da frota.

Por que está cada vez mais difícil encontrar mecânicos qualificados?

O problema não é pontual — é estrutural. Vários fatores se somam:

  • Menos jovens entrando no mercado de trabalho: o crescimento da população economicamente ativa desacelera, reduzindo a base de novos profissionais.
  • Concorrência com outras carreiras: áreas percebidas como mais “digitais” ou com possibilidade de trabalho remoto atraem as novas gerações.
  • Mudança no perfil dos jovens: propósito, aprendizado contínuo e condições de trabalho pesam mais do que estabilidade tradicional.
  • Limitação das escolas técnicas: muitos cursos não abrem turmas por falta de alunos e não conseguem atender à demanda crescente.
  • Aumento da complexidade dos caminhões: experiência prática, sozinha, já não é suficiente.
  • Produção de conteúdo para redes sociais tem gerado melhor rendimentos do que o mundo real. E a própria indústria automotiva patrocina a indústria das redes sociais.

O resultado é um descompasso claro entre a velocidade da evolução tecnológica da frota e a capacidade do mercado de formar profissionais aptos a lidar com essa complexidade.

O perfil do mecânico mudou — e isso afeta diretamente a frota

Hoje, o caminhão é um ativo tecnológico. Sistemas eletrônicos, sensores, telemetria, diagnósticos avançados e integração digital fazem parte da rotina. Isso muda completamente o perfil do profissional necessário para manter esse ativo disponível.

Não se trata mais apenas de “saber consertar”. Trata-se de interpretar dados, diagnosticar falhas complexas, seguir protocolos de segurança e entender sistemas que se atualizam constantemente. Um conhecimento que era suficiente ontem pode estar obsoleto em poucos meses.

Para as empresas, isso cria um dilema: colocar um profissional sem formação adequada em um caminhão de alta tecnologia representa risco operacional e financeiro.

A experiência prática ainda conta? Sim — mas não sozinha

A vivência de oficina continua importante, mas já não sustenta a carreira por si só. A exigência mínima hoje passa por formação técnica estruturada, somada a capacitações contínuas. Existe uma lacuna clara entre o que o mercado precisa e o que está disponível em termos de qualificação.

Essa lacuna ajuda a explicar por que, mesmo com vagas abertas, muitas empresas não conseguem contratar.

Esse cenário valoriza a profissão?

Do ponto de vista econômico e estratégico, a resposta é positiva. Quanto maior a especialização, maior o valor desse profissional. A tendência é de valorização salarial, pacotes de benefícios mais atrativos e maior reconhecimento interno nas operações de transporte.

Para o gestor de frotas, isso significa que o mecânico deixa de ser apenas um custo operacional e passa a ser um ativo estratégico, tão relevante quanto o próprio veículo.

Como a indústria começa a reagir a esse desafio

Diante desse cenário, montadoras como a Scania vêm adotando uma abordagem mais ampla de formação. O foco não está apenas nas escolas técnicas tradicionais, mas também em: Jovens do ensino médio, escolas públicas, comunidades de baixa renda, pessoas em situação de vulnerabilidade e refugiados e públicos que, muitas vezes, nem conhecem essa carreira

A lógica é clara: ampliar o funil de entrada, formar desde a base e, ao mesmo tempo, atualizar quem já está no mercado.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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